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Entremez

Não haverá nunca uma porta

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

03 de Dezembro de 2021

Na imagem que alude à mitologia Grega, Héracles e o touro de Creta

Na imagem que alude à mitologia Grega, Héracles e o touro de Creta

Ilustração Reprodução

Essa história retornou muitas vezes às minhas sessões de psicanálise, nos dez anos em que deitei num divã. Um amigo de rua, no Crato, rapaz forte parecendo um índio, passava as férias na fazenda dos pais, um criatório de gado. Numa tarde em que a família jantava cedo, era costume por volta das quatro ou cinco horas da tarde, sentiram falta dele. O irmão mais velho abriu a janela da sala e o avistaram lá longe no curral, puxando a corda de um boi que havia laçado.

O animal fincava as patas no chão duro e não movia o corpo um centímetro. Ele não desistia de arrastar o touro, esticava as pernas e coxas, punha força nos braços e inclinava o corpo para trás. Todos riam da façanha, alguns largaram os pratos sobre a mesa e ganharam portas e janelas para assistir o combate. Até que as pernas do rapaz se dobraram e ele foi caindo lentamente no chão. Os familiares correram e já o encontraram espumando, as veias do pescoço dilatadas, o rosto congesto, a língua fora da boca. O coração não resistiu ao esforço.

Vez em quando esmoreço e me pergunto se vale a pena tanto empreendimento. Será tempo de exercitar a lição do Tao, pelo não fazer tudo se faz, pelo não agir tudo age? É difícil, quase impossível para alguém educado na cartilha do sertão. Já se nasce brigando, tentando transformar pedra em barro, o improdutivo em fértil. E luta-se do frio da madrugada à noite velha. Mesmo que no juízo martele a pergunta debochada de Ascenso Ferreira, no poema Gaúcho: – Para quê? – Pra nada!

Milton Hatoum me confessou que é bom não ter a obrigação de escrever e apenas flanar pelo bairro de Pinheiros, em São Paulo, como quem nasceu para nada. Raduan Nassar dissera a mesma coisa a ele. E eu que sempre imaginei Raduan acometido por uma Síndrome de Bartleby, igual ao mexicano Juan Rulfo.

– Verdade, Raduan me disse, parou de escrever porque quis – falou Hatoum.

Rubens Figueiredo, o poeta José Inácio Vieira de Melo e eu escutávamos boquiabertos, sem saber o que falar. As tapiocas esfriavam nos pratos, ao vento da orla marítima de Natal. Rubens respondera, na mesa em que participamos juntos, à pergunta que sempre me fazem, como insulto ou menosprezo:

– Ronaldo, você se considera regionalista?

E Rubens, com a serenidade de um vegetariano:

– Sou regionalista, porque é inconcebível para mim a ideia de universalismo.

Milton não entrou no debate, ocupado com autógrafos. Deleito-me com a fala do tradutor de clássicos russos, conheço suas afinidades com Tolstói, sei o desprezo que Dostoiévski, um eslavófilo, nutria por Turgueniev, um europeizante.

Cansei de puxar o touro de vinte arroubas pelos chifres. Lembro a desconcertante franqueza de Graciliano Ramos quando lhe perguntaram se era um modernista: “Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão”, respondeu.

Escrevo meus romances, contos, novelas, crônicas, peças de teatro e trabalho como médico, sem preocupar-me com escolas e tendências, sem tentar parecer um estadunidense ou europeu.

Vivemos num país periférico, desacreditado na política. Escrevemos em idioma periférico, apesar do grande número de pessoas que falam o português. Sofremos, há mais de 500 anos, colonialismo de portugueses, holandeses, ingleses, estadunidenses e europeus. Internamente somos colonizados por São Paulo e Rio de Janeiro, que ditam as normas de produção e consumo em todas as áreas, incluindo a cultura. Sofremos o complexo de vira-lata, como referiu Nelson Rodrigues, a inferioridade em que nos colocamos voluntariamente, em face do resto do mundo. Somos desprezados na matriz sudestina e, no passado, até houve tentativas de conter o fluxo migratório para São Paulo.

O touro é arrebatamento, força irresistível e criadora. Na tradição grega, os touros indomados simbolizavam o desencadeamento sem freios da violência. Acho que a raiva desmedida pela impotência de domar o touro, matou o meu amigo.

Sofro algo parecido. Todos os dias puxo touros pela corda, na tentativa de realizar meu trabalho como artista. Não se trata de uma Síndrome de Bartleby, sento-me à frente do computador e crio. Difícil é achar o lugar e o sentido da criação. Impotente por não conseguir domar a ignorância, o desprezo, a injustiça, os oportunismos, me enfureço e me sinto ameaçado.

E adoeço na desesperança de que nunca haverá uma porta.

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