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Entremez

Confissões perigosas

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

04 de Novembro de 2021

Foto Bmleite1/Wikimedia Commons

Não escrevo memórias nem autoficção. As pessoas insistem em achar-me parecido com Adonias, de Galileia, Cirilo, de Estive lá fora, e com Francisca, de Dora sem véu. Não sou nenhum deles, embora narre na primeira pessoa. 

Perguntaram a Isaac Bashevis Singer: “Por que você escreve sobre ladrões judeus e prostitutas judias?”. E ele respondeu: “Querem que eu escreva sobre ladrões espanhóis e prostitutas espanholas? Eu escrevo sobre os ladrões e as prostitutas que conheço”. Nasci e vivi no sertão dos Inhamuns. Morei anos no Crato, cidade do Cariri cearense, cercada de sertão por todos os lados. Depois vim residir no Recife, para onde convergiram e ainda convergem sertanejos do Nordeste. Qual a paisagem física e amorosa que me habita por dentro e por fora? O sertão. Em qualquer lugar por onde eu viaje, o sertão me acompanha. Mesmo escrevendo sobre Berkeley ou Toulouse, a memória do sertão é inevitável porque ele está em toda parte, como disse Guimarães Rosa. 

Andei falando que tenho um projeto literário. Dizer o mesmo, hoje, soaria falso. No romance Estive lá fora, o personagem Cirilo se movimenta em meio à violência e ao medo que reinavam durante a ditadura militar. Ele pensa sobre o irmão Geraldo, um ativista político, e em como ele poderá ser morto. O texto é um delírio sobre a escrita: “...imagina esse final como um presente que está além e é remoto, que o espreita no ônibus, nas ruas, nas pontes, despercebido, mas inesquecível. Ele cruza uma linha incerta que sabe existir no futuro, em meio ao nevoeiro ou aos destroços da cheia. Semelhante a se estivesse sonhando, tudo parece absurdo, impossível de acontecer”. Dessa maneira surgem narrativas, sem forma definida, espreitando em algum lugar. 

Prefiro escrever sobre mulheres, embora isso tenda a ser desautorizado aos homens nos tempos atuais. A escolha preferencial por personagens femininos é afetiva. Tive mulheres fortes, corajosas e sensíveis ao meu lado, mulheres que amei e me deram o prumo na vida. Olho bastante os homens, mas eles me escapam, ou nem sempre sou capturado por eles. As mulheres eu as sinto com intimidade, elas me chegam mais perto, mas isto não se dá de um modo exclusivo. Tenho diversos personagens masculinos, eles até predominam numericamente em meus contos, romances, crônicas e teatro.  

Fui criado na tradição católica até os dezesseis anos, quando saí de casa para estudar em Fortaleza e decidi não assistir a missas, não me confessar nem comungar. Ou seja, rompi com a Igreja, para desgosto da família. Recebo influência da religião no que produzo. Meu teatro lembra procissões de rua, autos sacramentais, representações da Semana Santa. São sugestões estéticas, formais, de linguagem cênica. Permaneço atento e crítico aos danos causados pelo cristianismo, como aconteceu durante a colonização da América Latina. Nem por isso deixo de celebrar o Menino Deus num auto natalino. 

Preciso falar um pouco de minha família patriarcal, embora insista que não escrevo História, autoficção ou biografia. Meus antepassados saíram de Pernambuco por vários motivos, um deles por terem se envolvido num levante. Eram três irmãos: o padre José Bezerra do Vale, que depois iria viver com uma índia, com quem teve uma prole numerosa, sem nunca abandonar o sacerdócio; Ana Maria Bezerra do Vale, minha oitava avó, casada com um cristão novo, Bernardo Duarte Pinheiro; e João Bezerra do Vale, que se casou com Ana Gonçalves Vieira, filha do mais importante mandatário do sertão cearense, o coronel Francisco Alves Feitosa, e irmã de dois homens poderosos. 

Esse ramo da família chegou ao sertão dos Inhamuns no começo do século dezoito. Em uma telha da Casa do Umbuzeiro, do padre José Bezerra do Vale, foi registrado o ano de 1721. As terras férteis às margens do Rio Jaguaribe formavam um mundo especial, meio bíblico, mouro e grego. Havia pastores, vaqueiros encourados, vivendo pelo campo repleto de rebanhos. E índios insubmissos que foram massacrados, restando apenas as mulheres, tomadas como esposas pelos posseiros, por orientação da Igreja e da Coroa. Os donos das grandes sesmarias eram violentos e soberbos. A guerra entre as famílias Feitosa – de Ana Gonçalves – e Monte durou quase cem anos. O Reino precisou intervir diversas vezes, e levar os valentões assassinos para presídios em Portugal. 

Meu tio em oitavo grau, João Bezerra do Vale, transportava carregamentos de carne para o Recife. Na cidade, apaixona-se por uma jovem de família ilustre, passando-se por solteiro. Acerta casamento, volta aos Inhamuns e assassina a esposa, apunhalando-a pelas costas. A morte abala a família. Lembra uma tragédia grega pela riqueza de detalhes, que não cabe narrar. Trata-se de um feminicídio inaugural, uma culpa para todos os homens carregarem e as mulheres buscarem vingar. 

Dos oito filhos do meu pai e da minha mãe, eu fui o mais traumatizado por essa história, narrada em família um número incontável de vezes. Quando a escutei pela primeira vez, tinham se passado mais de dois séculos. Fiquei numa perigosa zona de vizinhança, já não conseguia me distinguir dessa mulher e de outras parecidas com ela. Penso que está explicado por que elas reaparecem a cada livro, em Faca, Livro dos Homens, Galileia, Estive lá fora, O amor das sombras e em Dora sem véu.

Li autores clássicos e cânones da literatura brasileira bem cedo. Não tinha acesso a escritores contemporâneos, nem ao que se escrevia na América Latina. Só quando cheguei ao Recife pude me atualizar. 

Mesmo sem conhecer a sugestão de Walter Benjamin de que escrever consiste largamente em citações, a mais louca técnica mosaica imaginável, habituei-me a recorrer aos livros que li com devoção. Da mesma maneira que memorizava as histórias da tradição oral, romances cantados e folhetos de cordel, costumava memorizar os livros que lia. O personagem Adonias, do romance Galileia, dialoga com o Senhor Yama, do Mahabharata, no encontro com o tio assassino João Domísio. A solução para Ismael retornar à vida estava na tradição indiana, com a qual sou bastante familiarizado. Nada me impede de recorrer à narrativa védica, alguns milênios depois. O sacrifício de Donana se assemelha ao de Ifigênia em Áulis. Minha família se funda no sangue de uma mulher vitimada, Ana Gonçalves, da mesma maneira que os gregos no de Ifigênia. Eu era criança, mas tentava compreender a saga sertaneja, através do que lia nos livros de outros povos, outras culturas. 

Não sei se deveria ter publicado livros, ou apenas escrevê-los e guardá-los. Foi bom ter passado oito anos trabalhando o romance Galileia e mais de vinte corrigindo o conto “Eufrásia Meneses”, do livro Faca. No final da vida, Borges se recrimina pelo tempo gasto na revisão obsessiva de seus escritos: publico para livrar-me de ter de corrigir, falava. Nessa pandemia do coronavírus, em que os teatros foram fechados para evitar a aglomeração de pessoas, lembrei de Grotowsky e o teatro da santidade. Ele reduziu o público dos seus espetáculos a oitenta pessoas. Depois convenceu-se de que o ator deveria representar apenas para si mesmo. Vivi anos com a intenção de fazer algo semelhante na escrita, mas capitulei.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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