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Curtas

Viva Tereza – Tereza Viva

Primeira exposição póstuma da pintora Tereza Costa Rêgo faz uma retrospectiva antológica de seu legado em dois pavimentos do Museu do Estado de Pernambuco

TEXTO Taynã Olimpia

26 de Janeiro de 2022

Painel 'Tejucupapo' e piso com projeções de obras da artista

Painel 'Tejucupapo' e piso com projeções de obras da artista

Foto Taynã Olimpia

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Vermelho
. Tomemos essa coloração como ponto de partida. Guerra, sangue, paixão, amor e alerta são algumas palavras que associamos à cor quente. Mas, quando lembramos hoje a pintora Tereza Costa Rêgo, o vermelho traz outra conotação: saudade. Foi assim na última quinta-feira (20), durante a abertura da exposição Viva Tereza – Tereza viva, com curadoria de Marcus Lontra e Bruno Albertim, e o lançamento do livro A liberdade em vermelho (Cepe), no Museu do Estado de Pernambuco. Antes de atravessar a porta de entrada, o tal vermelho estava presente na vestimenta dos frequentadores, que escolheram a cor como forma de lembrança e homenagem à artista que ganhou, naquela noite, sua primeira exposição póstuma.

"A escolha editorial principal foi a história na obra e na vida de Tereza. Porque Tereza Costa Rêgo é essa mulher que vê o século XX se constituir diante de si. Ela teve a sorte, apesar de sofrida, de viver de muito perto esses momentos que foram definidores da modernidade no Brasil e no mundo", comenta em entrevista à Continente Bruno Albertim, que além de curador da exposição, era também amigo de Tereza, de quem escreveu uma biografia.

Tereza faleceu em julho de 2020, aos 91 anos de idade. Deixou uma legião de admiradores, amigos e familiares que reverberam sua história. O nome da nova exposição, por meio do jogo de palavras, é testamento da memória que segue viva. E pulsando. Porque ao adentrar o salão do Mepe, se escuta, através da trilha sonora, criada especialmente para a mostra por Juliano Holanda, um batimento ritmado de coração. Misturado a sons de instrumentos e outros áudios, como um de miados, resulta em composição etérea e singular. Quase uma meditação para dentro das telas da artista, onde a presença de figuras de gatos é recorrente.

Não só os felinos, mas outros animais são corriqueiramente representados nas obras de Tereza, uma admiradora da fauna. No salão de entrada, quem nos recepciona é o painel que relembra a história do boi voador do conde Maurício de Nassau. Na obra O boi voador (1992), é feito um registro histórico e sociológico da façanha do conde que, em meio a dívidas para a construção da primeira grande ponte do país (a atual Ponte Maurício de Nassau, no Recife), em 1644, atraiu o povo a pagar pedágio para testemunhar a figura de um boi voando por cima da cidade. História real e cômica foi também registrada em crônica de 1648 do Frei Manuel Calado – testemunha ocular do fato.


Painel O boi voador, acrílico sobre madeira, 4,4 x 1,6 m (1992).
Foto: Danilo Souto Maior/Secult PE-Fundarpe

De frente à figura do bovino pintado, há outro quadro baseado em texto, desta vez numa série de crônicas assinadas por Bruno Albertim. A obra é parte da série Diário das frutas, última exposta por Tereza em vida, em 2012. Centralizada na tela, uma maçã rodeada por corpos humanos emaranhados e, na base, duas cobras. Desenho semelhante do fruto está nas mãos da mulher ilustrada no painel A mulher vestida de sol, pintado para Ariano Suassuna, em 2007, e exposto ao lado, no mesmo salão do Mepe.

O fruto não faz sua última aparição aí. Ele é elemento frequente na obra da artista. Filha da aristocracia do açúcar, Tereza teve criação tradicional e religiosa, na qual “tudo era pecado, ia para o inferno”, como a mesma conta na entrevista gravada em vídeo e exibida na mostra. A presença do fruto proibido em seu trabalho é provocação e incita à reflexão – assim como as serpentes pintadas por ela.

Inclusive, um de seus painéis mais emblemáticos, o Apocalipse de Tereza, com 12 metros de comprimento, é uma serpente gigante a carregar em seu ventre o fim dos tempos. A exposição Viva Tereza – Tereza viva nos proporciona experienciar essa obra de perto, no segundo piso do museu. É preciso tempo para absorver as diversas camadas narrativas contidas na pintura; cada vez que se olha, um detalhe novo aparece. 

Atenção aos detalhes permite compreender os significados escondidos. Há política, porém não de forma óbvia. Um dos salões da exposição é dedicado exclusivamente a seu trabalho mais político, onde estão dispostos, entre outros, quadros da célebre série Sete luas de sangue e mais uma projeção de vídeos produzidos por Gabriel Furtado, que compila, recorta e reorganiza elementos visuais de algumas obras.

Dentre as telas, o painel Tejucupapo, em homenagem à mítica batalha das mulheres contra invasores holandeses, ocorrida no vilarejo pernambucano que hoje pertence ao município de Goiana, no Litoral Norte. “Se a batalha aconteceu ou não, menos importa. Importa ter ficado o mito. Há anos, precisava vomitar essa história”, são as palavras de Tereza estampadas abaixo do painel de oito metros de extensão. Em vários pontos da exposição, que ocupa 607 metros quadrados, vemos citações dela. Sua história contada pelas suas próprias pinturas e palavras. 


Tereza pintou seu primeiro nu nos anos 1980 e, desde então, mulheres despidas viraram marca de sua obra. Foto: Jan Ribeiro/Secult PE-Fundarpe

Mas seria frívolo falar da obra de Tereza sem mencionar as mulheres. Até porque uma seção da individual é dedicada especialmente a elas. Nos olhares criados pelo pincel, vemos conflitos emocionais cambiarem entre sensualidade, desalento e languidez. Nos corpos despidos, encontramos a coragem da própria artista em se libertar da educação conservadora e opressora e ousar pintar (e expor) o nu feminino. Algo que só conseguiu fazer após a morte da sua mãe, no começo dos anos 1980. 

Na visita às 47 obras em exposição, reconhecemos seu percurso artístico. Desde suas primeiras obras, como a Menina e ex-votos, que lhe rendeu prêmio aos 15 anos de idade, em 1949. Passando pela morte do seu companheiro, Diógenes Arruda Câmara, eternizada no quadro A partida (1981). Na linha temporal da sua produção, presenciamos também o alargamento do seu traço, que exigiu a pintura de quadros de dimensões maiores, conferindo-lhe a alcunha de muralista. Ao final (ou início, depende como se olha), vemos uma reconstituição do seu ambiente íntimo de trabalho, com suas roupas penduradas, seus pincéis e tintas na mesa. E, então, se reconfigura aquele sentimento a pulsar em vermelho vibrante: saudade.


Reprodução do cantinho de trabalho da artista. Foto: Taynã Olimpia

A exposição fica em cartaz até 27 de março e o Mepe exige apresentação de comprovante de vacinação para visitantes.

TAYNÃ OLIMPIA é jornalista em formação pela UFPE e estagiária da Continente.

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