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Curtas

Usina de Arte inaugura novas obras

Parque artístico e botânico está em expansão e conta com mais de 40 obras expostas

TEXTO Luciana Veras

02 de Maio de 2022

Regina Silveira diante de sua obra 'Paisagem'

Regina Silveira diante de sua obra 'Paisagem'

Foto Charles Johnson/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 257 | maio de 2022]

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Descortinadas ao público em abril, duas novas obras – impactantes em proposta estética e no modo como pensam e concretizam a ocupação do espaço – compõem agora a Usina de Arte, o parque artístico-botânico localizado em Água Preta, a cerca de 125 km do Recife. Paisagem, de Regina Silveira, esteve na 34ª Bienal de São Paulo, no ano 2021, já comissionada pelo projeto encravado na Mata Sul pernambucana, nos 33 hectares onde outrora funcionou a Usina Santa Terezinha, e agora se alicerça como um labirinto de quase 100 m², com paredes de vidro esburacadas por imagens impressas de tiros de calibres diversos. Além de Um campo da fome, de Matheus Rocha Pitta, que se espraia como uma horta de 30 canteiros, dispostos ortogonalmente em 720 m², nos quais estão “plantados” 9 mil frutas, raízes e legumes.

Tais milhares de peças, na verdade, foram moldadas em cerâmica por Seu Domingos, artesão de Tracunhaém que Matheus conheceu depois que veio à Usina de Arte pela primeira vez, ainda em agosto de 2019. Nesses quase três anos entre o convite para pensar uma obra e a inauguração de Um campo da fome, não somente o Brasil retrocedeu ao patamar da insegurança e escassez alimentar, voltando ao mapa da fome, como se intensificou a ação humana nesse período que os cientistas chamam de Antropoceno, ampliando o impacto no clima e no meio ambiente. Nada é por acaso para o artista mineiro, que evoca A estética da fome, manifesto escrito pelo cineasta Glauber Rocha, no ano 1965. “A fome é um projeto colonial”, define Matheus.

Na sua arcaica lavoura erigida sobre uma laje de concreto, e coberta com terra e barro, o que lhe confere uma aura de altar ou mesmo de ruína (“já nasceu velho”, brinca), o artista dispõe cenoura, quiabo, cebola, abacaxi, mamão, caju, milho e tantos outros itens não como uma plantação ou na semeadura, mas já “numa cena de comunhão”. “Uma coisa ancestral, já que agricultura familiar foi uma das primeiras atividades humanas na Terra, quase como se fosse um lugar sagrado, aqui onde, por muito tempo, imperou a monocultura”, complementa Matheus, que, mesmo afeito a manejar concreto em sua trajetória artística, nunca havia esboçado um trabalho desse escopo. “Nunca fiz um trabalho nessa escala monumental. Foram quase 30 dias de montagem, das 7 às 17 horas, diariamente, debaixo de sol e de chuva. Muito feliz com o resultado e com a liberdade para chegar até ele”, resume.

Se Um campo da fome foi pensada e montada in situ, Paisagem veio do locus urbano e interno do pavilhão desenhado por Oscar Niemeyer no Parque Ibirapuera. Contudo, uma obra de arte, ainda mais quando idealizada por uma das artistas mais prolíficas do país, sempre há de oferecer experiências distintas, mesmo quando transplantada de outro lugar e, principalmente, quando calcada em aspectos da nossa realidade. Regina Silveira conta que a ideia para a instalação veio das informações consumidas em jornais, revistas e na televisão, “essa violência diária que a gente vê o tempo inteiro, em todo mundo”. Ao todo, são 12 tipos de representações visuais de estilhaços, que ela pinçou do noticiário – o que não falta no Brasil, infelizmente, é matéria sobre balas perdidas, seja de fuzil, revólver, pistola ou metralhadora.

Matheus Rocha Pitta criou Um campo da fome. Foto: Charles Johnson/Divulgação

Exposta ao ar livre, a obra ganha um ar “fantasmagórico”, nas palavras da própria artista. “Gostei muito de vê-la aqui. É quase uma aparição, algo mais misterioso. Um fantasma, até”, evoca Regina, que aproveitou a sua presença não somente para desvelar a sua obra mais recente, mas para perceber nela a incidência de um elemento-chave em sua práxis – as sombras. Por exemplo, na série Dilatáveis (1981-2000), mostrada na 34ª Bienal, ela partia de figuras, como tanques de guerra ou fotografias de políticos reunidos para tensioná-las e, com as sobras, criar outros contornos. Em Paisagem, sob o sol do meio-dia, as sombras tracejam uma nova “paisagem” no chão, estendendo os contornos literais e metafóricos do percurso labiríntico. “Você viu como ficou ali, com a sombra? Muito interessante. Acho que amplia e dá mais força”, comentava, na conversa com a Continente.

Na perspectiva de Marc Pottier, atual curador da Usina de Arte, essa expansão mais recente do acervo – atualmente, são mais de 40 obras, dentre as quais se destacam: Diva, de Juliana Notari; Eremitério tropical, de Márcio Almeida; Átrio, de Marcelo Silveira; Tinha que acontecer (cabeça de bandeirante), de Flávio Cerqueira; e o hangar ocupado por José Rufino – traduz os dois caminhos que vêm sendo percorridos para possibilitar novas adições.

“Por um lado, vejo como importante o diálogo da Usina de Arte com instituições, como a Bienal de São Paulo, ainda mais para trazer uma obra de Regina Silveira, artista com uma importante trajetória e longevidade na produção. Quando se há um convite como o que foi feito a Matheus Rocha Pitta, com total liberdade para que ele venha aqui, conheça o espaço, com essa natureza e suas cores, entenda todo o contexto e possa criar um projeto que esteja em consonância com tudo isso, é extremamente positivo porque gera obras muito interessantes”, observa.

Os próximos meses trarão outra novidade para o projeto iniciado no ano 2015: a Usina de Arte adquiriu um neon do artista chileno Alfredo Jaar e deve montá-lo em junho, quando Jaar virá ao Brasil para inaugurar, em um novo equipamento cultural em Fortaleza, uma exposição derivada de Lamento das imagens, grande mostra que o Sesc Pompeia sediou entre setembro e dezembro de 2021, em São Paulo. Claro-escuro (2016) traz a célebre e cada vez mais atual frase de Antonio Gramsci: “O velho mundo está morrendo. O novo demora a nascer. Nesse claro-escuro, surgem os monstros”. Nada mais apropriado para um parque artístico-botânico forjado dos escombros, literais e metafóricos, de uma usina sucroalcooleira, no interior de um estado até hoje marcado pela herança canavieira, seus espectros e seus vislumbres de reinvenção.

LUCIANA VERAS, repórter especial da Continente.

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