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Curtas

Nenhuma dor

Gal Costa chega a 2021 com um disco que acalanta corações pandêmicos em duetos de clássicos feitos pela cantora com vozes masculinas influenciadas por ela

TEXTO Erika Muniz

11 de Junho de 2021

Foto Carol Siqueira/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online – extra à Memória da ed. 246]

Nos primeiros minutos de Nenhuma dor (2021), mais recente álbum de Gal Costa, a canção Avarandado ganha novos contornos em dueto da artista com Rodrigo Amarante. Das interpretações à la João Gilberto até o arranjo que evoca a identidade de produções anteriores do “hermano”, a faixa inicial anuncia a proposta que atravessa as outras nove canções. Ou seja, revisitar a obra da diva baiana a partir de novas gravações, que dialogam com a influência do ícone juazeirense da bossa nova em sua trajetória. Além disso, ao estabelecer parcerias com nomes importantes de novas gerações, Gal evidencia que sua obra permanece sendo referência para diversos artistas. 

“É muito gratificante saber que esse disco pode levar um conforto e um pouco de alegria para quem gosta e se conecta com o meu trabalho. Cantar de novo essas músicas, muitas delas bem marcantes, foi especial. As faixas têm uma densidade, uma riqueza, justamente porque foi um respiro nesse momento em que as pessoas estão tendo prazer em ouvir músicas de catálogo, músicas da minha geração que são a memória de um tempo que era bom”, afirma a artista sobre seu disco, em entrevista à Continente, por e-mail. 

Com 10 duetos formados por Gal e cantores nacionais e internacionais, o disco apresenta um repertório de sucessos que marcaram a carreira de uma das maiores vozes da música brasileira. A partir das novas roupagens, clássicos como Baby, Coração vagabundo e Negro amor e outros chegam às playlists das plataformas digitais em interpretações inéditas. Sem afetações ou muitas transformações das gravações mais conhecidas. Para quem prefere os formatos físicos, Nenhuma dor também ganhou as versões em CD, pela Biscoito Fino, e em vinil, pela Noize Records Club, mas esta última já se encontra esgotada no site. 

Embora cada uma das faixas traga bastante da identidade sonora de cada convidado – responsável remotamente, devido às demandas de distanciamento social, pela produção dos instrumentos de base –, ainda assim, os resultados são faixas que mantêm traços das versões que as consagraram. Entre os convidados, estão Tim Bernardes, Silva, Criolo, Zeca Veloso e Rubel, que já tiveram outras experiências trabalhando com Gal, seja no palco ou em estúdio, além de Seu Jorge, Rodrigo Amarante, Zé Ibarra, o uruguaio Jorge Drexler e o português António Zambujo. A direção do disco é assinada por Marcus Preto, que já esteve realizando outros projetos com a cantora. 

“A ideia e os convidados me foram trazidos pelo Marcus Preto e eu recebi com muito amor. Juntos, fomos escolhendo cada artista e cada canção. Eu já conhecia o trabalho de todos eles e achei ótimo porque gostava muito de todos. O ponto central entre eles é que são artistas homens que foram influenciados muito pelo meu trabalho, pelo meu canto”, explica. 

A influência artística de Gal no trabalho de cantoras brasileiras já fora bastante comentada ao longo das últimas décadas, essa associação, no entanto, não costuma ser tão imediata quando relacionada a intérpretes masculinos – embora também exista, e algumas das vozes que compõem Nenhuma dor sejam exemplos disso. “A escolha dos artistas para esse disco foi exatamente porque eles se deixaram influenciar pelo meu trabalho, assim como eu tenho uma grande influência de um homem, que é o João Gilberto. A estética do canto dele, a maneira como canta, sempre me atraiu muito”, declara a artista.

 

O álbum Nenhuma dor chega como parte dos projetos previstos para este ano, que vêm das comemorações do Gal 75, relacionadas ao 75º aniversário da baiana (em setembro de 2020). A outra etapa será a realização, assim que for possível e seguro, de shows do repertório do disco. Enquanto isso, ficamos com mais lives, como a segunda, do dia 28 de maio, pois todos vamos precisar esperar mais, por conta da grave situação ainda da pandemia no país. “A saudade (dos palcos) está muito grande. Eu pretendo fazer show desse disco, mas só assim que estivermos todos vacinados e seguros. Agora é mais importante cuidar de si e dos outros”, afirma. 

Na live realizada em São Paulo, no dia de seu aniversário, Gal se referiu à música como “um bálsamo”. E, no contexto difícil em que vivemos, a arte, de modo geral, tem sido uma espécie de refúgio para a humanidade. Por isso, ao revisitar a memória em torno dessas canções, ela oferece o seu canto para acalentar o coração de todos neste período. “A música me curou e me salvou muitas vezes. Ela me traz energia, me alimenta, me dá equilíbrio. Eu trabalho ainda porque a música é muito importante para o público, claro, mas também para a minha vitalidade.” E é isso mesmo que todos buscamos.

ERIKA MUNIZ, jornalista com graduação em Letras. 

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