Curtas

Mulher feita e outros contos

Memórias e relações, com o protagonismo das mulheres, marcam o novo livro de Marilene Felinto

TEXTO Adriana Dória Matos

01 de Fevereiro de 2023

Marilene Felinto reúne 10 narrativas em 'Mulher feita e outros contos' (2022)

Marilene Felinto reúne 10 narrativas em 'Mulher feita e outros contos' (2022)

Imagem Acervo Marilene Felinto/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 266 | fevereiro de 2023]

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Uma das histórias
de Mulher feita e outros contos (Fósforo, 80 pp, 2022) ecoa falas públicas da autora, Marilene Felinto, quanto ao ofício de escrever. Na breve narrativa Primeira morte, o personagem “de escritor que era, virou mecânico automotivo”. Ele desistiu de escrever, essa função incômoda e inútil, se comparada a outras mais pragmáticas, como consertar carros. O eco dele surge nos questionamentos que a autora faz sobre a relevância da escrita ficcional e quando se mostra desconfortável no ofício do qual, entretanto, não desistiu.

Marilene já disse, também, que elabora o trauma com a escrita ficcional e isso a gente entende como ela realizou, de forma brilhante, em As mulheres de Tijucupapo, seu romance de estreia, lançado em 1982, quando ela tinha apenas 25 anos, e que recebeu nova reedição há pouco (2021), pela editora Ubu. Vale a pena ler encadeadamente esses dois livros, o da autora jovem e impetuosa dos anos 1980 e o da madura de agora. Há confluências instigantes e um prazer de reencontro, sobretudo porque Felinto estava há mais de década sem publicar desde que, em 2019, fez edições de autor em pequenas tiragens e realizou a (re)publicação desses dois títulos.

A confluência mais evidente entre eles é a de trazer mulheres ao protagonismo, explicitamente nos títulos (“mulheres”/”mulher”) e intensamente nos pontos de vista, nos enredos, nas personagens. São obras que não militam como literatura de gênero e feminista, mas que são efetivamente de gênero e feministas, de um modo autêntico e verdadeiro, pois não foram feitas sob essa demanda, constituindo-se mais como uma necessidade temática da autora. Ela maneja muito bem esse universo, constatamos nas leituras. Embora tenha sido citado logo no início um conto com personagem masculino, entre os 10 de A mulher feita, apenas mais um, Ao vivo, gira em torno das memórias de um adulto que perdeu um amigo. No mais, mulheres: meninas, moças, senhoras, outras.

Apesar dessa prevalência, as histórias de Felinto estão longe de excluírem os homens. Os contos são construídos a partir de dois eixos: memórias e relações. Estas, entre mulheres, entre mulheres e homens e das personagens consigo mesmas, em expressões vívidas de ensimesmamento e autopercepção. Podemos destacar, nesse sentido, o conto-título, Mulher feita, no qual a personagem se dá conta – ou se lembra – que tem peitos, a comprovação de que é mesmo “mulher feita”. Num tom quase jocoso, quase peralta, a garota se olha no espelho e se estranha nesse corpo de “protuberância enxerida”, mote para que se lance a lembrar a infância e os enfrentamentos do crescer.

Assim como nesse conto, narrado em terceira pessoa, Hipertexto a lápis realiza uma rememoração da infância, quando a menina é observada e exposta à turma pela professora de desenho. Mas, ao contrário do que pensava de si – ela se achava feia –, sua beleza é revelada pela professora naquela aula de retrato, o que lhe causa um verdadeiro transtorno. “A aluna não acreditava no que a professora estava dizendo. Aquilo de que não havia ninguém feio soava-lhe como um deboche. Pois se seu próprio pai dizia que ela era feia! Seu pai, sim, que dizia que ela era feia, que tinha cara de fuinha.” Felinto aproveita o conto para fazer um elogio ao ambiente da sala de aula e aos instrumentos em uso, como os lápis e papéis específicos para o labor manual e artístico.


Imagem: Divulgação

Outro conto que se destaca no livro, Procura-se Michael, também é narrado em terceira pessoa e passa a limpo memórias de amor e sexo de uma mulher adulta que, na adolescência, aprendeu a gozar e fumar maconha com um soldado americano desaparecido. “Queria reencontrar Michael somente para unir elos, ligar duas ou três pontas de sua vida, dois ou três momentos: Michael, John Boy e Tim, homens que subitamente desapareceram de sua vida como uma brisa boa e passageira”, diz sobre a personagem.

O conto utiliza um estratagema comum à construção narrativa de Felinto desde As mulheres de Tijucupapo, que é um tipo de repetição mântrica – ao modo de refrão – de algumas sentenças, que confere ao texto uma marcação musical, poética e cíclica. “Michael é a ID do elemento, identificação perdida, soldado desaparecido”, ela abre assim o conto, ao longo do qual vai repetir, com variações, a informação, como adiante: “PROCURA-SE: Michael é a ID do elemento, soldado desaparecido, vulgo Victor-Charlie, combatente arrependido” e “PROCURA-SE: Michael é a ID do indivíduo, soldado arrependido, vulgo Victor-Charlie, John Boy, Tim”.

Há também em Mulher feita três histórias que se assemelham no tom travesso e desabusado, parecido com o do conto-título, que são bem saborosos de ler: Formiga moderna, Escarlatina e Ponto-cruz, ponto-atrás, estes dois últimos na pegada de lembranças da infância. Escarlatina trata sutilmente da atração de uma menina negra por um menino loiro que a esnoba e que, “bem-feito!”, pegou escarlatina.

Ponto-cruz, ponto-atrás elabora a negação de uma filha em seguir os passos de sua infeliz mãe costureira. Insubordinada, a menina “escolhe ser feliz” nessa decisão e galhofa das clientes da mãe, ridicularizadas em trechos como “no cacarejar de várias mulheres que circulavam por aquela sala”, “no farfalhar de tantas mulheres que frequentavam aquela sala”, “um cá-cá-cá de moças e senhoras medindo retalhos de algodão” e “durante o há-há-há, há-há-há da mulherada que tratava de vidrilhos, estrasses” que renderiam uma alongada e divertida análise de manejo de linguagem.

Em Formiga moderna, a pergunta inusitada de uma jovem – “Tu come tanajura?” – leva a senhora com quem partilha um café da manhã a uma soltura gostosa, um prazer de lembrar dessa iguaria incomum e que se torna rara hoje, mesmo no Nordeste. O conto não menciona explicitamente regiões, mas sabemos que se trata do encontro de duas nordestinas, de diferentes gerações, em outra parte do país. Elas são cúmplices culturais, porque tanto gostam de comer tanajura quanto partilham outros gostos, como uma “playlist diferentona”, num jogo equilibrado entre experiências do passado e hábitos contemporâneos.

Os mais densos contos do livro são Segunda classe e Canja, pelo mergulho que dão em questões de classe e afetividade, tratados com sensibilidade e destreza por Felinto. O uso da primeira pessoa em Segunda classe é fundamental para dar o sentido de observação subjetiva à narrativa, já que se trata de uma estrangeira que, numa cabine de trem, observa uma alemã pobre “comendo o ovo cozido às mordidas, com a mão mesmo, como se fosse uma fruta”, o que lhe causa nojo. A partir dessa cena, a personagem-narradora lembra a própria origem de pobreza, de como aquela aversão remetia aos seus nojos de infância, de gemada e de purgantes, tomados à revelia, para curar doenças e espantar os vermes. E o refrão “comedora de batatas” (pois a mulher se alimenta também de batatas cozidas) vai costurando a descrição daquela cena que não se quer espelho, mas que é espelhamento do próprio passado. “Dos comedores de batatas, meu pai seria o pior, ele que tinha nascido nas brenhas, no ano já morto de 1932, ele que perdeu cedo todos os dentes, carcomidos pelas cáries, arrancados a alicate bruto, sem anestesia.” Tocante a quebra do ciclo operada por aquela estrangeira que “venceu na vida”: “Mas eu, que nasci tantos e tantos anos depois, eu tenho meus próprios dentes (eu sempre soube o que é morder)”.

Por fim, Canja é um conto lindo, lindo, que urde a reverência à ancestralidade – às mães e tias que, nos inícios dos 1900, sabiam amolar faca para matar galinha no terreiro e preparar uma substanciosa refeição – ao cuidado com as anciãs, que um dia tiveram “pernas fortes espetaculares” e realizavam “aquela pequena grandeza” de matar galinhas para alimentar famílias e hoje, já na flacidez do envelhecer, tomam canja, alimento que oferece menos resistência. Uma partilha entre mãe e filha na qual todas as arestas parecem se conciliar pelo cuidado e amparo. Que bom que Marilene não desistiu do ofício.

ADRIANA DÓRIA MATOS, jornalista, professora universitária, editora da Continente.

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