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Curtas

Helton e Vertin Moura em ‘Artista’

Novo disco dos irmãos de Arcoverde é uma obra que se perfaz entre atmosferas densas, carregadas e cáusticas, entoadas por línguas afiadas que vão fundo ao dizer a tragicomédia que é viver

TEXTO Leonardo Vila Nova

22 de Janeiro de 2021

Os irmãos e artistas Helton e Vertin Moura

Os irmãos e artistas Helton e Vertin Moura

Foto João Guilherme de Paula/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

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Desde que o ser humano caminha sobre o planeta Terra, a arte é um refúgio para a resistência e sobrevivência daqueles que ousam dizer o mundo de forma não convencional. Em tempos de crise, é ainda uma dessas salvações da alma. Mas, ao mesmo tempo, fazer arte é também andar no fio da navalha, correr riscos. Vem sendo assim até hoje. E sobretudo hoje, em meio a uma crise de ordem global, que coloca a humanidade prostrada diante de um vírus e acentua todas as suas contradições – sociais, morais, políticas etc. –, não há outra saída possível para quem faz arte a não ser... ? Fazer arte! Por mais quixotesco que possa parecer, entrincheirar-se na sensibilidade e fazer dela uma possibilidade de resistência num mundo que anda de ponta-cabeça é, sim, uma estratégia de sobrevivência. Ou melhor: é uma necessidade vital.

Foi essa necessidade, por força de uma pandemia, que antecipou o reencontro de dois irmãos e fez nascer um disco: Helton Moura e Vertin Moura lançam, neste começo de 2021, Artista, primeiro álbum que assinam conjuntamente, como a dupla Helton & Vertin. Um leonino e um taurino, irmanados não apenas consanguineamente, mas também no ofício da arte. Os irmãos Moura fazem parte de uma geração de artistas de Arcoverde – Helton, 39, nascido lá; Vertin, 30, nascido em Juazeiro (BA) e radicado no município pernambucano – que conjugou música, poesia e teatro a uma série de referências que não se limitavam ao lugar onde viviam. Ao longo das 11 faixas de Artista, eles lançam mão de uma narrativa poética repleta de filosofias, questões existenciais, sentimentos humanos e inquietações sociais que vão além do território e desaguam numa verve cosmopolita de ser, dizer e viver sua arte.

Para os irmãos, Artista representa o reencontro de suas trajetórias que, mesmo distintas, sempre estiveram intimamente ligadas. Caminhos que remontam ao começo dos anos 2000, quando ambos participaram da ocupação artística do prédio da antiga RFFSA em Arcoverde, que veio a se chamar Estação da Cultura; e que passam pelo projeto Helton Moura e o Cambaio, do qual Vertin também fazia parte e com o qual gravaram o disco Maquete sonora (2011). Ao seguirem seus caminhos solo, Helton lançou Círculo (2017) e Círculo, ao vivo (2017), enquanto Vertin fez os discos Filhosofia (2012) e Pássaro só (2018), além do registro Pássaro só ao vivo (2020). Em 2018, os irmãos já deram mostras desse reencontro com o projeto Duo Artista, que percorreu algumas cidades pernambucanas. Em palco, eram apenas os dois, seus violões e composições.

No ano passado, com a explosão do novo coronavírus e a pandemia da Covid-19, o medo da impossibilidade de um reencontro fez Vertin voltar ao Brasil, às pressas. Ele estava em Portugal, cursando mestrado em Ciências da Cultura e retornou num dos últimos voo para o Brasil mediante o fechamento mais severo das cidades europeias. Com o retorno de Vertin, os irmãos trataram de ficar juntos e, como que por instinto, sem que precisassem verbalizar esse desejo, começaram a trabalhar no que viria a ser o álbum Artista.


A capa do álbum é da artista Cyane Pacheco. Imagem: Reprodução

O DISCO
“Esse álbum tem muito de um retorno à casa, por conta de tudo: o momento do mundo, da pandemia, de ficar em casa, de se juntar com os seus enquanto é tempo”, diz Helton sobre o disco da dupla. Artista foi produzido por Helton e Vertin e coproduzido pelo músico Chris Lemgruber, que assume a bateria na maioria das faixas. Quem completa a “banda base” do álbum é o baixista Lucas Crasto.

Inicialmente, Artista teria apenas os irmãos. No desenrolar do processo, porém, surgiu a necessidade de agregar mais gente ao trabalho. “Fizemos esse disco totalmente independente de governo, mas muito dependente das estratégias de como fazer... e dos amigos também, de pessoas que a gente admira e que a gente queria ali”, declara Helton.

Entram nesse rol de colaborações Alex Nicolas (baixo) e Erik Chapa (bateria), antigos companheiros d’o Cambaio, nas faixas Uma balada belchiana e Tudo é o melhor. Esta também traz a participação dos músicos Tuzé de Abreu (flauta) e Junior Kaboclo (sax). Em Agora aguenta, estão Amanda Ferraresi (violoncelos) e Marcilio Pereira (bateria). O poeta Nelson Maca é a voz declamadora em Nossa feiura bendita. Além desses, também estão em Artista, como parceiros de composição, Juliano Holanda (em Depois do fim, com Helton) e Joaquim Izidro (em Cuide-se, com Vertin). Os registros de todos esses músicos foram feitos em Arcoverde – onde Helton e Vertin ficaram baseados –, Aldeia dos Camarás, Recife e São Paulo, além de Salvador, Rio de Janeiro e Niterói.

Coube à canção Resista prenunciar o álbum. O single/clipe foi lançado em dezembro de 2020, e representa bem a tônica do disco e dos tempos que se vivem hoje no Brasil: a necessidade de resistência e luta pela própria sobrevivência diante de um cenário político, social e humano caótico e hostil. A música veio sob a influência do retorno de Vertin ao Brasil em meio ao futuro nebuloso que se apresentava (ainda se apresenta?) ao país. “O que a gente tinha era o tempo e vimos que ele poderia sumir a qualquer momento”, comenta Helton.



Artista é uma obra que se perfaz entre atmosferas densas, carregadas e cáusticas, entoadas por línguas afiadas que vão fundo ao dizer a tragicomédia que é viver. Canções como a faixa-título, que abre o disco, Agora aguenta e Tudo é o melhor sustentam o peso discursivo do que Helton e Vertin dizem ao longo do disco. “Para quem não gosta de filosofias dogmáticas, cristalizadas, elas (as canções) saem como poesia, saem livres”, diz Vertin. “O que nos dá uma liberdade que é divina, que é da nossa existência”, completa Helton.

Mesmo as canções de temática e poesia mais suave trazem uma intenção rasgante. A natureza cênica das músicas e da interpretação que Helton e Vertin conferem a elas reforçam isso. “Esse álbum tem uma coisa viva, visceral, orgânica. Muita música ficou do jeito que foi cantada de primeira, respeitando muito a expressão e a emoção daquele momento em que foi gravada. Não tem muitos elementos, mas muita expressão”, explica Helton.

Entre rocks, baladas, torés, “ijexás medievais” (expressão cunhada por Tuzé de Abreu) e diversos outros gêneros, os irmãos Moura reúnem nessa narrativa poética, que é Artista, a aridez do Sertão e do concreto que erige metrópoles e a obstinação sonhadora de quem escolheu fazer arte para sobreviver em meio a um mundo que parece desabar sobre nossas cabeças. “Nós temos o sangue fervente do nordestino. Esse lugar de ser nordestino, de ser do sertão de Pernambuco, da periferia do interior, de lá, da gema... somos a gema do cerne da questão terceiro-mundista que vivemos neste país”, arremata Helton.


Foto: João Guilherme de Paula/Divulgação

LEONARDO VILA NOVA é jornalista e músico.

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