Curtas

Em ritmo de frevo

Novas composições e releituras de clássicos, em singles e álbuns, são lançados para o Carnaval 2024

TEXTO Débora Nascimento

08 de Fevereiro de 2024

China lança single 'Roubaram minha jóia', que vai fazer parte do segundo volume do 'Carnaval da Vingança'

China lança single 'Roubaram minha jóia', que vai fazer parte do segundo volume do 'Carnaval da Vingança'

FOTO Pamella Gachido / Divulgação

 

Uma irresistível polêmica tomou conta das redes sociais nas últimas semanas. Chinaina lançou Roubaram minha jóia, reivindicando como sua a expressão "Minha jóia". Realmente, quem conhece o cantor, já o ouviu pronunciá-la, de perto ou pela TV, no Canal Multishow, onde trabalha como apresentador. Mas eis que, em uma TV pernambucana, um repórter, talvez desavisado, também resolveu emplacar a expressão em todas as suas matérias televisivas, tentando tornar essa a sua marca. Chinaina (mais conhecido como China ou Chinaman), então, como bom adepto de uma gréia, fez o que deveria fazer, criou um BO em forma de frevo.

Gravação pronta, contratou um motoboy, com caixa de som a postos, para circular pelo Recife tocando a música, inclusive em frente ao prédio da empresa do muso inspirador, a quem foi dedicada. “Roubaram a minha jóia / Na cara dura / Roubaram minha jóia / Na luz do dia / Num curioso caso de patifaria / Roubaram minha joia pra fazer bijuteria", diz o refrão. A repercussão gerada pela indireta musical também passeou alegremente pelo circuito alternativo da capital pernambucana e nas redes sociais.

Roubaram minha jóia, que vai ganhar videoclipe após o Carnaval, como forma de reafirmar que frevo deve tocar o ano inteiro, é o prenúncio do volume dois do álbum Carnaval da Vingança (2022), projeto que traz duas das grandes influências musicais do artista: o frevo e o hardcore. O novo disco vai chegar ao público no segundo semestre de 2024 com novas composições e releituras de obras do Pixies, Alceu Valença, Pitty, entre outros.

“Pra mim, cantar frevo é igual a cantar hardcore. Consigo chegar nesse lugar, porque é rápido. Na hora que você está ao vivo, é muito mais rápido com orquestra. Então, tem que ter essa ligeireza no cantar, de conseguir colocar todas as palavras. E são muitas palavras. O frevo é muito louco. A mesma coisa da metaleira, que tem muitas notas, tem uns compassos muito estranhos, umas quebradas de síncope da voz e tal. Então, pra mim, é muito parecido como se eu estivesse cantando hardcore”, observa China. 

Olindense, o cantor começou a gostar de frevo no Bairro Novo, onde morava. Ele tem como referência o trabalho de cantores como Claudionor Germano e Alceu Valença, além de também apreciar a obra de novos compositores de frevos. “Gosto muito do que a galera vem fazendo hoje, como a Eddie e Siba. É um frevo que tem um outro caminho, mas que dá o recado. Essa música da Eddie, Não vou embora, é um filme! Pô, dá pra fazer um filme só com essa letra!”, afirma.

Essa é uma das músicas que estão no repertório do show de China. “Porque eu acho importante a gente se juntar e quem está compondo frevo agora, um tocar a música do outro. É o jeito que vai fazer pegar. É igual às orquestras que estão cantando Ciranda de Maluco nas ladeiras de Olinda. Quer coisa mais bonita do que aquilo?”, diz China.

“Eu estava conversando com Otto e ele falou…” China, então, imita o timbre rouco e o jeito de falar do amigo: “‘Chininha, vou ser lembrado igual Capiba. Daqui a 100 anos, essa música vai estar na boca do povo’. Eu achei aquilo muito bonitinho. E ele está super falando a verdade. Na hora que você tem uma música sua que está tocando nas ladeiras de Olinda, realmente não tem cachê, não tem Ecad que pague isso. Chegou o sucesso absoluto”.

Se com Roubaram minha jóia, China fez escancaradamente um frevo clássico e contagiante, Siba criou, com Vodivez, um frevo atípico, sem a instrumentação básica do gênero musical e com arranjos ao estilo, digamos, sibiano. “Não é aquela batida de frevo exata, clássica, mas é um frevo, sim. Não pode ser outra coisa a não ser um frevo”, afirma Siba. "Na verdade, basicamente o que tem sido a linha rítmica do meu trabalho, a gente sempre tem essa referência na cultura popular, nos ritmos populares daqui e, ao mesmo tempo, tem uma construção rítmica já de alguns anos do meu trabalho com o Rafael dos Santos, que é o baterista, que é uma coisa bem central do meu trabalho, uma elaboração rítmica que se baseia nos ritmos populares, mas que busca uma conversa muito ligada ao texto", completa.


Na temática da letra, Siba aborda, com humor, a procrastinação: "Você aí / Sem coragem de viver / Sem saber o que fazer / Pra preguiça te largar". O artista fala sobre a inspiração: "Esse é um momento importante de a gente ser afirmativo, né? Não existe Carnaval pra baixo, né? Então eu procurei uma história afirmativa, tentando afastar a passividade das pessoas em relação a coisas que às vezes elas querem fazer, mas falta coragem", diz o letrista, que aborda exercício físico, trabalho, amor e, enfim, o Carnaval. 

Siba conta que sente anualmente uma forte ansiedade sobre ter uma nova música para cada Carnaval: "Eu sinto que é um momento que as pessoas estão muito abertas pra ouvir alguma coisa e me sinto escutado pelo meu público nessa época, sabe? Então, ao longo do ano, eu já estou, de julho a agosto, pensando, 'O que que eu vou falar no Carnaval?' Já tô mexendo com isso desde muito antes e, na verdade, essa música é quase como uma versão de uma música que eu fiz no Carnaval passado pra terminar o show e depois eu refiz novamente. Mas são ideias que vão se metamorfoseando dentro do próprio trabalho. E assim vai, é um fluxo, na verdade. Não tem muito um ponto de partida, mas é uma tentativa de fazer parte do Carnaval das pessoas e desse momento que eu acho tão importante, onde a gente está aberto para conviver de modo coletivo e alegre e é quase como sonhar um outro país possível. O Carnaval, pra mim, é isso", analisa o músico.

Romero Ferro lança EP Frevália

Assim como China e Siba, o cantor Romero Ferro também lançou material novo para o Carnaval, Não deixe o frevo morrer, que está incluso no EP Frevália - Lado A. O disco apresenta cinco faixas com inéditas e regravações, contando com a participação de Daniela Mercury (Banho de cheiro), Mart’nália e Maestro Parrô Mello (Colemim), Gaby Amarantos (Em plena lua de mel), Clarice Falcão, Maestro Forró (Irônico). “É uma honra imensa para mim. Simboliza a realização de vários sonhos, ter comigo artistas que eu admiro e sou fã. Às vezes nem acredito, ficou tudo tão lindo e verdadeiro. É potente pra mim e para o frevo”, comemora Ferro.

Idealizado pelo artista e o produtor Maurício Spinelli, o Frevália nasceu em 2016 com o objetivo de revitalizar e propagar o Carnaval de rua pernambucano para todo o país. Frevos consagrados e hits da festa de Momo ganharam versões contemporâneas. “Sempre tive uma conexão muito forte com o frevo, e uma inquietação por ele ficar tão restrito a Pernambuco e mais precisamente ao Carnaval. Eu sou cantor popular, com formação em canto popular no Conservatório Pernambucano de Música, e a cada passo que eu fui dando, isso foi ficando mais forte em mim. Há 8 anos, criamos o Frevália, que nasceu no Paço do Frevo e, desde então, tenho levado ele comigo pra onde eu vou. Coincidentemente, também faz 8 anos que saio no Galo da Madrugada, mas isso já é outra história…”, relata Ferro.

REGRAVAÇÕES
Além das inéditas que chegam neste ano, músicas já existentes ganharam novas versões no ritmo do frevo, como Tá todo mundo daquele jeito, de Juliano Holanda e PC Silva. A obra foi composta para o fim da pandemia, quando era esperado que as pessoas tirassem o atraso das demandas pessoais, estagnadas por conta do isolamento social. “Uma crônica sobre o sentimento pós pandêmico, quando abriu e a turma queria gréia e todo mundo brincando. Era uma coisa meio assim, ‘fazer uma música que tivesse uma explosão de tudo, de sentimento, de alegria e tudo’”, conta Juliano, que, no final de 2023, atinou, com PC, para gravá-la em ritmo de frevo. “Produzimos super rápido. Em 10 dias, estava pronta. Foi bem intenso e muito divertido o processo”.



Além de singles, foram lançados álbuns com regravações, como o de Alceu Valença, que traz diversos cantores, na reinterpretação de seus sucessos, em Bicho Maluco Beleza – É Carnaval. Dentre frevos, ciranda e maracatu, o artista canta em dueto com Ivete Sangalo (Bicho Maluco Beleza), Maria Bethânia (De Janeiro a Janeiro), Elba Ramalho (Caia por Cima de Mim), Lenine (Bom demais), Geraldo Azevedo (Táxi Lunar), Almério (O Homem da Meia-Noite), Lia de Itamaracá (Quem me Deu foi a Lia) e Juba (Diabo Louro).

Outro disco com regravações é o Carnaval Mundo Bita com Maestro Spok. O projeto infantil, em parceria com o Maestro Spok, reúne onze faixas de grandes sucessos do personagem, como Fazendinha, Viajar Pelo Safari, Fundo do Mar e Eu Quero Ver Você Me Pegar, apresentadas em ritmo carnavalesco. O saxofonista fez os arranjos de todas as faixas, juntamente ao arranjador Fábio Valois. O novo álbum tem a proposta de promover a diversidade da cultura brasileira. Para Chaps Melo, criador do Mundo Bita e um dos fundadores da produtora Mr. Plot, o Maestro Spok é um artista de criatividade plena. 

Lenine, Céu, Otto, Uana, Criolo, Agnes Nunes, Maria Rita, Moreno Veloso e Luiz Caldas interpretaram novas gravações de músicas de Moraes Moreira

Assim como Spok é um dos responsáveis pela renovação do frevo, Moraes Moreira também cumpriu essa missão nos anos 1970. Primeiro artista a cantar em um trio elétrico, o baiano ganhou homenagem no álbum Moraes é Frevo. Lançado pelo projeto Orquestra Frevo do Mundo, produzido por Pupillo e Marcelo Soares, do estúdio Muzak, o disco traz diversos nomes, como Maria Rita (Festa do interior), Criolo (Preta Pretinha), Lenine (Pernambuco meu), Uana (Eu sou o Carnaval), Otto (Pombo correio), Luiz Caldas (Vassourinha elétrica), Moreno Veloso (Todo mundo quer), Agnes Nunes (Coisa acesa) e Céu (Sintonia). As faixas apresentam arranjos dos maestros e músicos pernambucanos, como Spok, Maestro Duda, Henrique Albino e Nilsinho Amarante.

“Um cara que recebeu o título de cidadão do frevo, a gente tem que agradecer. A gente tem que retribuir o que ele fez, porque a relação dele [com o frevo] era legítima. Quando ele se chateou, vamos dizer assim, com o axé, com toda aquela questão do abadá, das cordas, ele veio para o Recife. Criou um laço muito forte e recebeu esse título das mãos do Maestro Duda. Então, a gente precisava praticar essa homenagem e é uma forma, também, de ratificar a nossa intenção de que o frevo precisa se renovar, precisa se repaginar e Moraes é um belo exemplo disso, um artista que ajudou a repaginar o frevo”, explica Pupillo, que vem desde 2000, com Baião de Viramundo, fazendo, ao lado de Marcelo Soares, álbuns de regravações com novos arranjos. 

A escolha do repertório teve a colaboração de Davi Moraes, coprodutor do disco. “Foi até complicado fazer essa escolha, porque ele tem material para mais de um volume, mas basicamente o que estava na nossa memória afetiva e também pensando nos artistas, quem poderia ficar com cada música. Então, houve essa adesão e esse engajamento de cada artista que participou, em dar o seu melhor, entender a responsabilidade que tem nesse projeto, de você pegar um material tão valioso desse, que já foi eternizado em vozes como a de Gal Costa, de Elba Ramalho e propor uma nova leitura. Além do prazer, houve também essa dificuldade de escolher apenas 10 músicas. Quem sabe a gente faz um volume dois”, conta Pupillo.

Moraes é Frevo foi mencionado por China, ao falar sobre a renovação do frevo, que parte, claro, da chegada de novos músicos, compositores e arranjadores, como Spok e Nilsinho Amarante. “Aí você vê essa renovação dos próprios maestros. Teve Spok, que levou o frevo para um lado. Aí tem Nilsinho Amarante agora, que escreve também e tem feito um monte de trabalho. Ele escreveu todos os frevos que eu já gravei. Ele fez arranjos para o Frevo do Mundo, que é o disco que Pupillo lançou agora, em homenagem a Moraes Moreira. Tem esse monte de orquestra nova, um monte de orquestra de rua nova, nascendo. Então, tipo, você sente essa renovação e é quase uma coisa gospel, esse louvor que a gente tem pelo frevo”, analisa China.

Residente em São Paulo, China tem passado essa temporada momesca em Pernambuco e nutrindo-se da música pernambucana e da vibração carnavalesca: "Eu tenho ficado direto aqui em Olinda por causa dos ensaios, tudo e tal. Cara, você passa na rua aí, passa no [Mercado da] Ribeira e tal, e estão os molequinhos com corneta na mão, tentando aprender a tocar, sabe? Tipo, ufa! Temos futuro aí, tem uma nova geração que vai vir melhor ainda. E que o frevo continue se modificando e achando o seu caminho, igual a um curso de água, pra todo ano a gente entregar pra essa galera daqui o melhor Carnaval possível, com as melhores músicas possíveis”.

DÉBORA NASCIMENTO, crítica de música e repórter especial das revistas Continente e Pernambuco

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