Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Curtas

Em novo álbum, NoPorn celebra a noite

'SIM' é o terceiro álbum de música eletrônica lançado pelo duo Liana Padilha e Lucas Freire

TEXTO Thaís Schio

20 de Abril de 2021

Liana Padilha e Lucas Freire, dupla que comanda o NoPorn

Liana Padilha e Lucas Freire, dupla que comanda o NoPorn

FOTO Aruan Viola/ Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Leia enquanto escuta

Quem já acompanha (e curte) o spoken-word-político-romântico e sussurrado do NoPorn, projeto de poesia eletrônica que está presente na memória de muitos clubbers brasileiros desde o início dos anos 2000, sabe bem que uma festa não é só uma festa, mas um lugar onde diferentes corpos e manifestações artísticas se atravessam. Por essa razão, não seria exagero dizer que SIM (2021), novo álbum do duo carioca formado por Liana Padilha e Lucas Freire, é um convite para esse lugar de encontros – mesmo que agora ele aconteça dentro dos nossos quartos. 

Gravado entre abril e novembro de 2020, o lançamento representa vários marcos na trajetória do NoPorn. Como nos primeiros discos, NoPorn (2006) e Boca (2016), o novo álbum narra histórias sobre sexo, paixão, desejo, despedida e solidão, temáticas constantes dentro dos trabalhos da compositora e artista plástica Liana Padilha. No entanto, a diferença principal em SIM está na recorrência de um tom nostálgico que passa pelas boates neon e underground dos anos 1990, numa “noite quente, num país quente desgraçado”, e acaba no esforço cansado de quem insiste em se libertar em (ou apesar de) um Estado em derrocada. 

Outro marco deste lançamento é a consolidação da entrada do integrante Lucas Freire, baterista e produtor musical que já acompanha a agenda de shows ao lado de Liana há cerca de três anos, assumindo, em SIM, a posição definitiva de Luca Lauri, DJ e co-idealizador da NoPorn. Com a presença de Lucas, o disco traz algumas inovações estéticas e sonoras que vão além da pegada techno, house e synth-pop que já conhecíamos. Em algumas faixas, pode-se perceber a inserção de elementos do new wave e electro-funk. 

Já outras faixas soam quase um update de músicas antigas. É o caso de Praia de Artista, composição de Liana Padilha com o estilista André Lima. Criada no Arpoador, no Rio de Janeiro, a música brinca com personagens reais (“curadora gringa, curador sarado”). Um ótimo paralelo com o hit de 2006, Baile de Peruas, também composto em colaboração com André – que, na época, havia reunido trechos de críticas destinadas aos seus desfiles para serem transformadas em música. Foi assim que a “temporada que apresentou uma coleção que não deu certo” acabou se tornando sátira às críticas de moda e um grande sucesso nas boates. 

capa do disco 'sim', do NoPorn
Capa do álbum SIM, recém-lançado pelo NoPorn. Imagem: Divulgação

Em entrevista à Continente, Liana Padilha conta que, nesse mesmo período, dezesseis anos atrás, chegou a tocar e cantar em vários clubes paulistanos, entre eles, o lendário Xingu, boate que marcou a cidade e a trajetória do NoPorn, ainda recém-nascido de “uma tristeza profunda que precisava ser posta para fora”. Essa tristeza, na qual se refere, tem a ver com o falecimento de seu ex-companheiro, o estilista Regis Fadel que mantinha, em conjunto com Liana e Luca Lauri,  uma espécie de laboratório musical para experimentações sonoras dentro de casa, mas sem pretensões artísticas. 

Com o falecimento de Regis em junho de 2000, veio o luto e a necessidade de encontrar conforto e compartilhar intimidades através do casamento entre som e poesia, uma paixão antiga na vida da compositora, diretamente relacionada com suas vivências e raízes nordestinas. “Minha avó é de Pernambuco, meu avô é do Rio Grande do Norte e morei em Natal até os 12 anos. Nessa época, era levada para ouvir literatura de cordel e repente nas feiras. Meu pai também é poeta e, por isso, existia um valor afetivo no exercício de recitar poemas”, conta a artista.

Fato que talvez explique o porquê, nas palavras de Lucas Freire, “a Liana e o NoPorn enlouquecem as pessoas”. Afinal, são quase duas décadas entre idas e vindas (há um hiato de dez anos entre os dois primeiros discos), encontros de novos e antigos públicos e a mesma inquietação: “Sempre me pergunto muito o que faz as pessoas se arrumarem, saírem de casa para se encontrar e dançar com outras pessoas em um lugar pequeno e apertado. É uma necessidade física de estar junto do outro, de ter o espelho do outro refletindo em você. Uma coisa de amor”, conclui Liana.

THAÍS SCHIO é jornalista e produtora cultural.

Publicidade

veja também

Alvorada

Nordeste ficção

Gilú Amaral celebra 25 anos de carreira