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Curtas

Convite para um salto

Um desabafo poético a partir de memórias do que foi e do que poderá ser a estreia presencial de 'Salto', espetáculo do Bote de Teatro

TEXTO Tanit Rodrigues

29 de Março de 2022

Bote de Teatro e Una Martins em cena no espetáculo 'Salto'

Bote de Teatro e Una Martins em cena no espetáculo 'Salto'

Foto Breno César/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

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escrita “Fudeu”. A estreia presencial de Salto, espetáculo do grupo recifense Bote de Teatro, que aconteceria em janeiro no Teatro do Parque, foi adiada devido ao avanço de casos da variante ômicron e as novas regras sanitárias. Passada essa fase, a peça sobe agora ao palco do Teatro de Santa Isabel, nos dias 30 e 31 de março. Mas Salto é mais do que isso, são os avatares unidos por uma utopia coletiva.

O Bote de Teatro – composto por Inês Maia, Pedro Toscano, Carlos Eduardo Ferraz e Daniel Barros – surge depois do encontro dos quatro atores numa residência artística. Todos moradores do Recife, ocuparam o último andar do Edf. Texas, onde surge a Sala Nova, espaço que possibilita ao grupo dar o pontapé para investigar as possibilidades físicas e as inquietações compartilhadas por quatro artistas de realidades diferentes.


Daniel Barros, Pedro Toscano, Inês Maia, Carlos Eduardo Ferraz e Una Martins. Foto: Fillipe Vilar/Divulgação

O experimento cênico-digital livremente inspirado em Os músicos de Bremen, dos Irmãos Grimm, traduzido e adaptado para o português por Chico Buarque em Os saltimbancos, já havia tido uma temporada no YouTube, em abril de 2021. Os quatro integrantes, com a participação da artista Una Martins, estão em cena interpretando quatro sujeitos-usuários ou um jumento, um cachorro, uma galinha e um gato deslocados da realidade num tempo-espaço que flerta com o distópico, psicótico, psicotrópico e psíquico. Lembra a narrativa de Gaspar Noé no cinema, mais especificamente o horror de Clímax.

“Quem está aí? Quem está aí?” é a primeira fala de Salto e a primeira de Hamlet na obra clássica de Shakespeare. A partir daí, se estabelece a conexão (ou até a desconexão) com o que é real, fictício, inspiração ou sobrenatural. Afinal, Hamlet também viveu a sua distimia, ao ver o fantasma do próprio pai antes mesmo de anunciada a sua morte. Lembram da cegueira de Saramago? E o mar de leite que arrepia a espinha só de lembrar? É pior. Sou obrigada a abrir meus olhos e a enxergar o real. O verdadeiro existe. A pós-verdade é uma farsa muito bem-construída sobre nossos corpos frágeis e Salto nos lembra disso constantemente. É o desassossego dos cybercorpos e fármacos. A era das bactérias digitais.

O espetáculo é um prognóstico da sociedade em que vivemos, é um salto para a solidão. É a constatação de que estamos todos encarcerados nas nossas próprias mentes, desde a alma mais elevada até o espírito mais ignorante. E isto nos faz todos iguais. Mais do que iguais; sós. É aquilo que dialoga com a essência de toda a obra kafkiana, em especial A metamorfose e toda a alegoria do inseto incomunicável que definha, assim como nós, na individualidade eterna.


Salto é o primeiro espetáculo do grupo recifense Bote de Teatro. Foto: Breno César/Divulgação

A estética adotada pelo grupo reitera todo o caos anunciado. A maquiagem que remete diretamente àquelas figuras de teste de Rorschach, a iluminação neon construída com led mapping e light design com referência no cyberpunk, o figurino com cores, texturas e recortes diferentes que vai do metal ao lurex brilhoso, do vinil às botas de pelúcia usadas pelo personagem do Gato. No entanto, é a trilha sonora que dá o tom do espetáculo, produzida por Libra, multiartista olindense que se ocupa do estudo sonoro da música eletrônica, tech house, afro&break beats e club music.

Quando o personagem do Jumento lança mão do questionamento “por que estamos todos aqui conversando como se essa interação fosse acobertada de racionalidade?”, se evidencia o transe proposto. A impermanência é o estado constante das coisas. Se não aceitamos, sofremos. Não importa quanto tempo passe, mas essa transitoriedade é positiva. Alguém é capaz de sair da caverna? Tirar a venda? A confirmação vem em seguida, pelo próprio personagem, “tudo isso foi em vão?”. Ao invés de achar que tudo perde sentido porque tem um fim, Salto reflete que talvez esse fim que dê um sentido para tudo.


Antes de subir aos palcos, Salto teve sua estreia em formato audiovisual. Foto: Breno César/Divulgação

O que inicialmente seria uma jornada por uma sociedade mais justa – talvez como mostre Os saltimbancos anos atrás – agora serve para mostrar a falência intelectual da própria geração. “A releitura de Os saltimbancos vem do desejo de dar uma nova interpretação a esse espetáculo tão popular e, em especial, por acreditarmos que ele trata de questões acerca de estruturas sociais que precisam, assim como nos anos 1970, ser pontuadas nos dias de hoje”, para a Funarte, o próprio grupo evidencia isso.

É difícil explicar ou até antecipar o que esperar do espetáculo do Bote de Teatro. Os textos são apenas fragmentações de experiências que nunca serão compartilhadas em sua totalidade, mas a melhor definição para a experiência de testemunhar o acontecimento que Salto é, é lembrar do vislumbre de Lester Burham, em Beleza americana, no momento em que morre e a eternidade se estica para sempre, como num oceano de tempo, em momentos de inquietação e serenidade. Ou como diria o poeta Vasco Gato, “bem-vindo ao continente dos frágeis/ pode parar de nadar”.

TANIT RODRIGUES é atriz, jornalista em formação pela Unicap e repórter estagiária da Continente.

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