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Curtas

Contos de axé

Coletânea de contos traz histórias criadas a partir dos mitos dos orixás

TEXTO Adriana Dória Matos

02 de Março de 2022

Na página que antecede cada conto, uma breve descrição dos orixás que os inspiram

Na página que antecede cada conto, uma breve descrição dos orixás que os inspiram

Imagem Reprodução

[conteúdo na íntegra | ed. 255 | março de 2022]

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Conta-se que o aiê – o mundo – foi criado por uma mulher. Ou melhor, por uma energia feminina, Odudua, a contraparte de Oxalá. O deus supremo, Olorum, tinha incumbido a missão a Oxalá, mas como ele não completou o intento, coube a Odudua fazê-lo. Oxalá, por sua vez, criou os seres humanos, essa espécie predadora por natureza. Na hierarquia dos mitos primevos, temos também as grandes mães Nanã e Iemanjá: a primeira, a anciã que conhece os mistérios da vida e da morte, aquela que se forja na lama, no mangue; a segunda, a mãe de todas as cabeças, o ventre fértil de onde saem os filhos-peixes, sendo ela, possivelmente, a orixá mais conhecida e cultuada no Brasil.

Assim como outras mitologias, as africanas são riquíssimas e trazem narrativas fascinantes, quase sempre assentadas no desejo de orientar práticas religiosas, ética e autoconhecimento. Por isso, elas atravessam o tempo, são contadas e recontadas por várias gerações. A permanência desses mitos e suas narrativas cumpre também a função de apoiar sentidos de identidade e pertencimento, dando sustentação à afirmação cultural e étnica.

Nesse papel de promover a afirmação cultural, observamos uma assimetria na disseminação de histórias de mitos no Brasil. Percebemos aqui, por exemplo, a presença e a assimilação integral de mitos greco-romanos e mesmo nórdicos, isso sem falar na dominação religiosa judaico-cristã, que não deixa de se assentar em mitificação.

Em contrapartida, há desconhecimento, resistência e às vezes preconceito em relação aos mitos dos povos africanos – que foram escravizados no país – e dos ameríndios. Não demoramos a entender esta realidade como resultado da política de sujeição desses povos que, com a valorização de suas culturas e suas histórias, não se cumpriria com sucesso.

Daí a necessidade de iniciativas que se contraponham a essa tentativa de desvalorização e apagamento. Contos de axé (editora Malê, 2021, 224 pp) contribui de forma prazerosa para isso. Com organização do jornalista e escritor Marcelo Moutinho, a coletânea reúne 18 narrativas criadas a partir de histórias tradicionais e de características atribuídas a divindades do panteão de diferentes povos de África, que vieram a se cruzar, ou não, gerando várias outras narrativas, como é característico dos mitos. Mas o que é legal nesses contos é que eles realizam – ou pelo menos os mais bem-sucedidos deles – a atualização desses mitos. Ao mesmo tempo que fazem isso, eles preservam a força e o encantamento dos orixás.

Lama que cura, a história que Adil Araújo Lima conta a partir de Odudua, afirma o poder de criação, geração e transformação da mulher. E a escritora faz isso numa linguagem simples e evocativa. “Mãe Zia lia com os sentidos. Às vezes, ela agia como se tivesse fecundado a terra, soubesse dos seus segredos, como mãe atenta à vida descobre num piscar de olhos se o filho está mentindo. Certo dia, ela disse: a chuva desce, molha a terra e salva as plantações da morte certa; então deduziu o poder de cura dos males da vida humana com essa mistura – água de chuva e terra”, começa ela.

Essa personagem, assim como outras Mães que aparecem nas narrativas reunidas operam curas, acolhem e aconselham, podendo mesmo dar boas lições em seus inimigos, como ocorre em Ogum à beira-mar, de Jeferson Tenório, e Amor é Merthiolate e não band-aid, de Rodrigo Santos, este, numa história para Oxum.

Outra situação recorrente e já esperada nos enredos desses Contos de axé é a suspensão da realidade, o ingresso no encantado, a experiência mística. Nesse aspecto, há uma variedade ótima de humores, e aqui vale destacar os contos de Nei Lopes, Era um pássaro muito grande; Socorro Acioli, Batiputá; e Juliana Leite, Caderno de mergulho.

A história de Nei realiza um justiçamento (várias das narrativas trazem essa motivação), numa trama que tece habilmente um reconto para a divindade da adivinhação Orumilá à crítica social. Um certo mau-caráter chamado Fabinho da Grota, que havia sido salvo da morte por intervenção espiritual do Pai Arabá, vira evangélico e pretende, a mando do arquidiácono, “romper o pacto celebrado com as ‘entidades malévolas’”. Mas a investida é frustrada por intervenção de seres mágicos que atuam contra o candidato a pastor. “Quem traça o destino é Orumilá. Mas Elegbara, seu criado, também influi. Orumilá é o destino, e Elegbara é o acidente. Um é a certeza; e o outro é a surpresa, o imprevisto”, ensina o velho Arabá.

Encontros inesperados, sonhos e visões mágicas encadeiam a narrativa de Socorro Acioli, que é ligada ao ambiente e à atuação do caboclo Oxóssi, senhor das matas. Sendo uma história de amor, Batiputá é também uma manifestação de respeito à “encantaria ameríndia”.


Organizada por Marcelo Moutinho,
Coletânea é ilustrada por Antonio Gonzaga.
Imagem: Divulgação

Quando a gente lê Caderno de mergulho, de Juliana Leite, facilmente entra na viagem, ou meditação autodirigida, da personagem Iaiá, que trabalha empilhando frutas numa mercearia, mas que pratica mensalmente sua transcendência ao deitar no sofá, ligar o ventilador e tomar banho de Lua, mergulhando no mar profundo de sua imaginação sensual. Claro que estamos falando de uma filha de Iemanjá encantada pela voz da sua sereia interior.

Além dessas, há outras histórias bem-urdidas e interessantes, como a que Gustavo Pacheco escreveu para Exu (Crisálida), Itamar Vieira Júnior criou para Iroko (A devoção sagrada de uma semente) e Paula Gicovate, para Omolu (O menino que insistiu).

A maioria dos 18 contos é criativa no enredo e convencional na estrutura textual – linear e com pendor realista, mas alguns deles quebram positivamente esse padrão, trazendo uma prosa fragmentária, disruptiva e/ou poética. Chamam a atenção, neste sentido, Cara ou coroa, de Carlos Eduardo Pereira; Caçar, pescar, de Marcelino Freire; Xangôs, de Fabiana Cozza; e Homenagem ao professor, de Edimilson de Almeida Pereira.

Cozza é cantora e compositora, Edimilson, poeta. É provável que a prática de ambos na lírica tenha favorecido isso, mas é bonito ler “Mas como haveria de contrapor-se à superioridade do letramento, da canetada de alguém diplomado? O pensamento de regresso ao sertão da Serra da Canastra e às lâminas cristalinas do Velho Chico. Ali tudo era céu e livros vivos: joão-cipó, lagarto-teiú, curicaca, seriema, tamanduá-bandeira, veado-campeiro, o rasqueado da colher de pau no tacho de barro fazendo farinha, torrando café, as peneiras num caxixi separando as sementes da terra. Escola de menino era vereda”, numa das passagens de Xangôs.

Do mesmo modo, a linguagem de Edimilson vai encantando a gente, no seu texto para Oxalá. “Envelheci dentro da velhice: me dispersei como o fumo nos telhados. Desisti e me refiz nesse lugar onde o fim e o princípio lutam no mesmo umbigo” é uma frase que se soma em sua riqueza ao trecho: “As noites brancas, a ilha branca – o sol, esse legado de clareza: tudo me envolve, porque participei de tudo. Se um ramo de ora pro nobis se recorda de mim, quando tateia minha língua – se alguém acorda comigo no pensamento –, estou vivo”. E tem mais tantas outras dessas, numa história, por si só, cheia de revelação.

Enquanto as histórias de Fabiana e Edimilson enlevam, as de Marcelino (para Logun-Edé) e Carlos Eduardo (para os Ibêji) aterram, nos lembram as asperezas da vida, em estruturas textuais que emulam claramente seus argumentos.

Ainda vale mencionar, para finalizar, o recurso editorial bem-sucedido de oferecer pequenas biografias dos orixás ao início de cada conto, familiarizando os leitores com suas principais características. Além do texto, essas páginas são ilustradas com desenhos de Antonio Gonzaga, com as figuras de cada uma dessas divindades. Uma leitura que abre caminhos para conhecermos um tanto desses fabulosos orixás.

ADRIANA DÓRIA MATOS, editora da revista Continente e professora do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco.

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