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Curtas

Breves fogueiras

Sessenta pequenas histórias críticas de Ezter Liu

TEXTO Taynã Olimpia

02 de Agosto de 2021

'Breves fogueiras' é o terceiro livro da autora Ezter Liu, moradora de Carpina

'Breves fogueiras' é o terceiro livro da autora Ezter Liu, moradora de Carpina

Fotos Rúbia Batista/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 248 | agosto de 2021]

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Na capa, uma guardiã de cabelos esvoaçantes que segura um arco e flecha. Seu coração, em chamas de fogo azul, os olhos fixos em um ponto. Ao abrir o livro, percebemos que o alvo somos nós, leitores do Breves fogueiras, terceiro livro de Ezter Liu. O texto é acompanhado pelas ilustrações de Juliana Lapa, conterrânea da autora, ambas moradoras de Carpina, cidade da Zona da Mata Norte de Pernambuco. A transitoriedade entre o “interior perto” e a capital pernambucana é um dos pontos presente no livro que aborda, através de breves contos, questões sociais ainda acesas, como fogueiras.

Mas chamas não apenas queimam, também convocam. Nestas 60 mini-histórias, somos convidados a refletir sobre assédio, política, pandemia, religião, arte, saúde mental, cidade. Diferentemente do seu livro anterior, Das tripas coração (2018) – com o qual ganhou o V Prêmio Pernambuco de Literatura, Ezter não põe a temática do feminino como ponto central, mas o olhar feminino e feminista sobre os assuntos continua presente. E as personagens são, em sua maioria, mulheres.

Breves fogueiras divide-se em três partes: Acender, Queimar e Apagar. A sequência de leitura dos contos é livre, mas a forma como eles foram dispostos no livro segue a ideia de começar com textos de chamamento, que servem como faíscas, e introduzem, de forma gradual, o tom da obra. Assim, de início, lemos contos mais brandos, como Farol, centrado em libertação e no amor próprio: “Luiza morava perto do porto. Tinha por ofício servir de farol. Chorava no escuro – a bichinha – enquanto lançava luz sobre os outros. Um dia Luiza inverteu o facho. Clareou-se inteira. Os barcos nunca mais acharam o caminho. Os barcos que se fodam, pensou”.

Capa de fundo branco com guardiã desenhada em preto e branco, segurando um arco e flecha, com coração em chamas azuis.
A capa do livro, ilustrada por Juliana Lapa, mostra uma guardiã com o coração em chamas. (Imagem: Reprodução)

Já em Queimar, parte central do volume, se concentram os escritos mais intensos, inflamáveis, que expressam de forma mais latente, e até mesmo raivosa, dores e injustiças. “A gente amanhece no grito. Ultimamente, neste país insano, temos exercido todas as modalidades de grito”, lemos em Grito, o primeiro conto do capítulo. Os sentimentos e sintomas do corpo estão muito presentes nas histórias, guiando-as ou até mesmo nomeando-as, como é o caso de Ódio e Disgeusia coletiva. “O que eles querem, Monga, minha amiga, é lhe ver de biquíni dentro da jaula (à mercê). Uma submissão ancestralíssima. Obsceno delírio de poder”: eis um trecho de Monga, em que, para criticar o patriarcado, a autora usa como metáfora a típica atração circense da mulher que se transforma em gorila.

É interessante observar, neste livro, a inconstância da fé, com alguns contos esperançosos e outros céticos. Ezter disse à Continente que isso reflete sua própria vivência: “São meus conflitos internos, meus questionamentos, aquela perda e o encontro da fé, que acontece comigo desde a adolescência. A fé pra mim é um tema, porque ela é uma problemática, uma questão interna. Eu costumo dizer que, quando resolver isso na minha cabeça, a fé vai deixar de ser um tema”.

As narrativas discutem também crenças religiosas, em especial o efeito social da religião. No conto My sweet love encontramos crítica sutil às igrejas neopentecostais, ao lermos a história de uma mulher que aceita um pastor em sua vida, deposita nele sua confiança e se vê transformada em uma “estúpida ovelha”, ao abrir sua casa e sua carteira para o homem. “Dizem que deus é bom. Eu digo que deus é só um argumento”, sentencia a personagem. Percebemos, em toda obra, que os contos, mesmo curtos (nenhum deles ultrapassa uma página), carregam sentido completo e comunicam de forma direta o que propõem, o que a autora revelou ter sido um “exercício de concisão” para ela.

Apagar, o capítulo final do livro, é composto por narrativas com direcionamentos conclusivos, finalizando com a otimista Atravessamos. O livro começou a ser construído antes da pandemia, mas atravessa e reflete também o atual período de crise sanitária mundial. “Meu sentimento era que acendesse, queimasse e que, ao final, pudéssemos estar com um pouquinho mais de tranquilidade. De que atravessamos, apesar de todos os danos. Talvez seja uma intenção, de querer me sentir assim”, discorre a escritora, sobre a escolha do final.

“Ela tem contabilizado os mortos numa planilha de Excel e são tantos, que o cheiro impregnou no seu teclado. E então, histérica, e no mais absoluto silêncio: ela escreve.” O trecho do conto Histérica funciona como resumo da motivação de Breves fogueiras: a de esbravejar em texto aquilo que sufoca o cotidiano. Mesmo havendo espaço para assuntos mais brandos, como a rotina e a natureza, a essência da obra é, de fato, discutir problemas coletivos ao expor individualidades.

“Eu tenho achado que os posicionamentos estão sendo muito de manada, de massa, todo mundo pensa igual. E eu queria contribuir para o pensamento crítico do leitor”, diz a autora, e acrescenta: “Quero que as pessoas terminem a leitura do livro com um desejo interno de desenvolver um pensamento próprio sobre as circunstâncias.”

TAYNÃ OLÍMPIA é jornalista em formação pela UFPE e estagiária da Continente.

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