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Curtas

A lua na caixa d'água

Em novo livro de crônicas, o escritor carioca Marcelo Moutinho joga luz sobre os microcosmos da paternidade, da escrita e do Rio de Janeiro

TEXTO Valentine Herold

28 de Maio de 2021

Escritor carioca lança seu oitavo livro e estreia na editora Malê

Escritor carioca lança seu oitavo livro e estreia na editora Malê

FOTO Leo Aversa/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Um livro começa muito antes de seu primeiro capítulo. O título, a capa, a dedicatória e as epígrafes muitas vezes são pistas dos segredos dos personagens que serão desvelados nas próximas páginas, nos revelando, com sutileza e cumplicidade, a essência da narrativa contada a seguir. Para leitores atentos, nenhuma informação prévia à história em si passa despercebida e existem autores que adoram essa troca silenciosa com seu público. Assim parece ser Marcelo Moutinho, cronista e contista carioca que, tanto em seus livros de ficção quanto nos de não-ficção, preza pelos detalhes, acima de tudo. O autor acaba de lançar A lua na caixa d’água, novo título de crônicas que chega um ano após a ótima coletânea de contos Rua de Dentro. Este lançamento também marca a estreia de Moutinho na Malê, editora especializada em literatura afro-brasileira.

“Se alguém já não tem a terra, mas tem a memória da terra, então sempre pode fazer um mapa”, diz a epígrafe deste seu novo livro. A frase é da poeta canadense Anne Michaels e dialoga com o fio que costura todos os textos de A lua na caixa d’água: a memória familiar. Dividido em três partes, o volume começa com lembranças da infância e adolescência do autor em Madureira, bairro da zona norte carioca, o cotidiano de sua filha pequena e reflexões sobre o fazer literário (Turbilhão de estrelas pequeninas); segue para um desbravamento dos outros cantos da cidade e causos urbanos (Essa cidade pecaminosa e aflita); e se encerra com Uma carta para 2065, direcionada à sua filha, Lia, para quando ela tiver 50 anos.

É sobretudo para ela que o cronista escreve do começo ao fim. Para que Lia possa sempre ter a memória da terra que corre em seu DNA, através deste legado literário, e assim poder desenhar o mapa desta vida familiar de seu pai e avós. Com a leveza que é tão característica de sua escrita, Moutinho nos convida a acompanhar Lia nessa viagem no tempo. Para os leitores de fora do Rio de Janeiro, este é um passeio duplo em que se é apresentada uma Cidade Maravilhosa vista por quem viveu a maior parte da vida no subúrbio. Esse olhar "outsider" do grande centro da cidade permeia toda a obra de Moutinho, que costuma jogar luz sobre as figuras comumente invizibilizadas do Rio das novelas do horário nobre. 

“Minha relação é de quem vê a cidade como a coisa mais interessante que o ser humano já inventou. No candomblé, fala-se muito da encruzilhada como um lugar mágico e eu gosto muito dessa interpretação, pois assim também é com o cruzamento de histórias dentro de uma cidade”, conta Moutinho, em entrevista à Continente. “A rua nos proporciona um senso de alteridade. E acredito que esse Rio de Janeiro que eu apresento nos meus livros faz sentido para quem é de fora, pois é um Rio interpretado a partir de quem quase sempre esteve na sua periferia."

A lua na caixa d’água é, portanto, um livro geolocalizado, cuja trilha sonora também não escapa de carioquismos: samba no pé do começo ao fim, com referências múltiplas a canções e artistas que marcaram a vida cultural da cidade. O compositor Aldir Blanc – uma das nossas primeiras perdas artísticas pela Covid-19 – é um deles. Além de estar presente na dedicatória do livro, também inspirou o título a partir de uma anedota de sua infância, contada na primeira crônica.

Neste texto inicial, Marcelo Moutinho também cita o verso "meu quintal é maior que o mundo", do poeta Manoel de Barros, que dialoga tão bem com a proposta do livro de colocar uma lupa de aumento nas "pequenezas" do cotidiano e falar sobre as "enormidades de universos construídos dentro de nossas histórias miúdas". Para o autor, "a crônica tem esse papel de buscar iluminar o que está na sombra, exercer um olhar etnográfico dos paradoxos da cidade".

Outros dois temas que ecoam alto é a descoberta da paternidade e a paixão pela profissão de escritor. A primeira ultrassom (“o futuro que reescreve a vida toda”), o desenvolvimento dos bebês, as diferentes formas de se arrumar uma biblioteca pessoal, as gírias cariocas que caíram em desuso, a tradição não oficial de grandes cronistas se emprestarem textos. Tudo contado com bom-humor, como se estivéssemos em uma mesa de bar. “O bar, dizia o mesmo Mendes Campos, é onde o espinho da solidão dói mais ou menos. E assim sucede porque quando uma solidão encontra a outra, e há afeição, a morte começa a parecer algo distante. Entre conversas, copos americanos, saideiras, um vislumbre de utopia. Nossa pequena ilusão de eternidade”, como diz no texto em que reflete sobre a importâncias dos encontros de bares impossíveis no contexto atual.

A rua, inclusive, está o tempo todo presente em A lua na caixa d'água. Logo ela que nos faz imensa falta desde o início da pandemia. Passear pelas crônicas do livro nos gera uma sensação dupla de nostalgia por um passado não tão distante, em que a efervescência urbana predominava, e de uma esperança de um futuro tão perto/tão longe de quando for seguro novamente viver as ruas em sua plenitude. "Outros dias virão", analisa Moutinho, "mas para que a gente sobreviva até lá, precisamos afirmar a vida".

VALENTINE HEROLD é jornalista e mestre em Sociologia.

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