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Crítica

Emoldurado por guitarras e afeto

'Sangue de amor', disco que Silvério Pessoa lança hoje (5) nas plataformas de música e também em CD, traz as influências roqueiras do artista pernambucano

TEXTO José Teles

04 de Abril de 2022

Silvério gravou o novo álbum durante os dois anos de pandemia

Silvério gravou o novo álbum durante os dois anos de pandemia

Foto Sidarta/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Sangue de amor, disco que Silvério Pessoa lança hoje (5) nas plataformas de música (e também em CD), não chega a ser uma mudança radical na rota estética do artista, mas deve causar estranheza nos seus admiradores, sobretudo os que veem no seu trabalho uma trincheira a favor da autêntica música nordestina, mesmo que Silvério Pessoa costume incrementar forrós e frevos com programações eletrônicas, sampleadas e uma variedade grande de instrumentos.

É neste álbum em que ele mais se aproxima da linguagem do rock, sobretudo pelo farto emprego de guitarras. O disco é aberto por um solo estridente, introduzindo a canção Cabeça de cavalo, já lançada como single, o segundo do álbum, que teve sua primeira música liberada em 2018. Aliás Sangue de amor tem uma trajetória de barquinho de papel atirado à rua num dia de muita chuva. Seu destino é imprevisível.

A origem do álbum remonta há seis anos, quando Silvério Pessoa e banda empreendiam uma turnê no Sul da França, e tiveram uma semana de folga: “Daniél Doddo, grande amigo, musicólogo, com quem tenho uma parceria no disco ForroOccitània, nos ofereceu o estúdio dele, poderíamos ficar lá residindo e gravando. Este disco nasceu neste período no sul da França. Eu estava com um caderno que tinha muita coisa escrita. As ideias fervilhando com este tema, do afeto, da impetuosidade, do repúdio, que envolve este sentimento chave que é o amor. As músicas estavam em rascunho. De volta ao Brasil passei a compor algumas parcerias, Sal, com Tibério Azul, O pior é que me lembro, com Bruna Caram, a música tema do disco, com Filipe Catto, a última foi Pedra polida, com Clarice Freire. Fiquei com 20 músicas, e selecionei 12 para o disco. Mas neste período de cinco, seis anos, recebi muitos músicos no meu estúdio caseiro. Pedia pra um botar um baixo, outro fazer um solo, tudo na brodagem”.

Sangue de amor é parte da grande discografia da pandemia. Foi inteiramente esculpido e polido entre 2020 e 2021, com o isolamento social fazendo-se necessário, com os números de mortes atingindo níveis alarmantes, com a polarização política acirrando-se, com as pessoas tentando se adaptar a uma nova maneira de vida: “Durante a pandemia foi exatamente o tempo em que eu vi a solicitação, o convite, o contexto pra gravar o disco. Precisei entrar em estúdio depois de um relax de cinco anos reescrevendo as letras, ouvindo as músicas. Esta entra, esta não entra. Ia pra casa de Ricardo (Ricardo Fraga, coprodutor do álbum), tenho um arquivo de oito músicas que não entraram no disco, várias parcerias. Na pandemia o que ficou marcante, foi um encontro na Luni com Lula Queiroga, combinamos de deixar as levadas mais determinadas, no estúdio muita coisa foi ampliada, esmerada, polida, esta coisa de baixo, bateria, guitarra, não refeita, ampliada, sofisticada. Eu reescrevi praticamente todas as letras. Depois de dois anos estudando com Raimundo Carrero, na oficina de literatura dele, também com trocas de ideias com Lula Queiroga, que é uma referência literária pra mim, com Karina que observou todo o processo desde a França. Então realmente é um disco maduro, um amadurecimento realizado nessa solidão do tempo pandêmico”

Sangue de amor parece um paradoxo. Dois substantivos, um concreto, outro abstrato que aparentemente não combinam, Silvério procura explicar o contraditório do título da canção e do disco: “Contradições, controvérsias, impactos, crises, superações advindos deste paradoxo que é o amor. O sangue é vital, venoso, que também é derramado como resultado de violência, de toda uma sociedade tensa. Se o disco abre com a morte do amor, conclui que o amor vai trazer a esperança”. O repertório é aberto com Caveira de cavalo (Silvério Pessoa) e fecha com Ela e o amor (com Ivan Santos, músico paraibano que vive há anos na Alemanha, também parceiro de Lenine).

Silvério Pessoa foi um garoto que como quase todos os garotos de sua época amavam os Beatles e os Rolling Stones, mas também Led Zeppelin, Jethro Tull, Yes, Tangerine Dream, Neil Young, os discos solo dos ex-Beatles, Frank Zappa, mas também Mutantes, Ave Sangria, Lula Côrtes, Flaviola, Marconi Notaro, Alceu Valença. Ele admite que Sangue de amor é muito rock and roll, mas garante que há um elo que o une à sua discografia.

“O que liga Sangue de amor aos meus discos anteriores é assumir uma sonoridade que antes era coadjuvante, o rock and roll, mas com esses satélites que giravam em torno dele, a psicodelia, o jazz fusion de Miles Davis, as peripécias de guitarra de Frank Zappa, ao mesmo tempo o movimento punk”, afirma o cantor. “Só que agora este rock and roll veio pra frente, é a capa, o que você vê primeiro, canais separados, gravado da forma mais bruta, sonoridade crua, bateria muito bem microfonada, as linhas de baixo de Yuri Queiroga com melodias cantáveis. Mas, ao mesmo tempo, trouxe instrumentos que lembravam Beatles, Mutantes, como o teremim, harpa. Em alguns momentos, escalas orientais que lembram o Oriente Médio, o que Jimmy Page fez, escalas que lembram o aboio do vaqueiro. Em algumas músicas, eu jogo um aboio no final, como em Sangue de Amor. Mas a sonoridade do meu povo, da minha região, está no disco. Não deixa de ter uma matriz ali, mas o resultado sonoro do disco foi de influências da minha juventude que eu não conseguia deixar claro nos outros projetos”.

Silvério Pessoa aponta insuspeitas ligações entre Sangue de amor e o Sarau com Jackson do Pandeiro, espetáculo que apresentou em 2019, no Teatro Hermilo Borba Filho, na programação do Janeiro de Grandes Espetáculos, baseado no repertório do CD Cabeça Feita – Silvério Pessoa Canta Jackson do Pandeiro, de 2015: “Foi inspirado no Morphine (banda alternativa americana), com dois músicos apenas no palco”. Nesse show, ele se apresentou com Alexandre Rodrigues (sax, barítono, clarone, pífanos e clarinete) e Renato Bandeira (guitarra e viola de 10). Algumas letras foram reescritas. Uma música que escrevi no sul da França seis anos atrás, ela continuaria atual? Alguns termos, frases, enunciados, a narrativa do disco, traduzi-la para 2022, todo este panorama não só do Brasil como também do mundo, geopolítico, politico, fatores emocionais, afetivos, está tudo no disco, estas questões todas. Tivemos convidados de honra, Fernanda Takai, Paulo Miklos, Bruna Caram, Natacha Falcão, uma grande artista pernambucana, que mora no Rio. Teve Laís na viola, teve uma turma maravilhosa. Mas com todos os critérios, usávamos máscara, foi gravado dentro de todos os protocolos mais rígidos da pandemia”. Na execução deste projeto, ressalta Silvério, foi fundamental o trabalho de Ricardo Fraga, Yuri Queiroga e Vinicius, o técnico de som.


A guitarra irrompe estridente, na pedaleira, na abertura de Sangue de amor, na faixa Caveira de Cavalo, é rock and roll? Tem o espírito de rock, mas a levada da música é de embolada, a bateria tem umas quebradas meio de maracatu. É como Silvério salienta. Elementos que antes ficavam em segundo plano na sua música agora vieram para a sala de visitas. Mas em Pedra polida, parceria com Clarice Freire, é puro pop, não por acaso a faixa tem participação especial de uma especialista no gênero, Fernanda Takai (Pato Fu). Na mesma linha é Sal, feita com Tibério Azul, com Silvério terçando vozes com Ylana Queiroga, numa canção com riffs de guitarra que remontam aos Rolling Stones.

As influências em Silvério são vastas e explicitadas neste disco. Na faixa título (parceria com Felipe Catto), vislumbra-se o rock progressivo dos anos 70, com solos longos de guitarra, o solo de flauta faz o Jethro Tull convergir para a psicodelia nordestina setentista. Poente, uma balada pop composta com Bruno Souto, outro especialista no assunto, tem célula de baiões na melodia, um pífano tocado por Alexandre Rodrigues. Em Ciranda psi (participação de Natascha Falcão), um rufar contínuo da bateria, pontua esta ciranda progressiva. Quando nasceram os deuses, balada rock, com uma flauta a Ian Anderson (Jethro Tull), e participação do titã Paulo Miklos. O pop melodioso Pior é que eu acreditei, na linha Secos & Molhados, é uma das mais radiofônicas do álbum (parceria com Bruna Caram, que participa da faixa).

Marco Polo, do Ave Sangria, foi poeta antes de ser músico. Sua poesia é muito musical, e fácil de musicar, garante Silvério Pessoa, que diz folhear algum livro de Polo, selecionar um poema e por uma melodia em cima. Fez isto em Sangue de Amor. O poema musicado foi Ranger de dentes, um rock balada, emoldurado por solos de guitarras encorpados, de surfe rock, e tem participação de Marco Polo nos vocais. O timbre peculiar da voz da francesa Aelis Loddo com A primeira noite (que tem a viola de Laís de Assis) com as escalas orientais da canção de ares marroquinos.

Frevo rock soa como uma heresia, mas é como se poderia definir Frevo enigma, com um arranjo inventivo, com duas guitarras, programações, flauta, percussão, bateria, mais os reforços de um sampler, e de Ylana Queiroga. Depois do frevo, Silvério volta às origens, com Ela e o amor (com Ivan Santos, que viajava pelo Leste Europeu quando escreveu a letra). A música é um coco embolada à Jackson do Pandeiro. Se o rock que abre o disco fala da morte do amor, a canção que fecha preconiza amor para um futuro próximo.

JÓSE TELES, é jornalista e crítico musical 

 

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