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Comentário

Os ecos da partida de Marília Mendonça

Artistas de diversos gêneros musicais demonstraram perplexidade diante da morte da artista. Houve também quem capitalizasse críticas

TEXTO Antonio Lira

08 de Novembro de 2021

Em 2018, na turnê 'Todos os cantos', Marília esteve em diversas capitais e chegou a tocar para 1 milhão de pessoas gratuitamente

Em 2018, na turnê 'Todos os cantos', Marília esteve em diversas capitais e chegou a tocar para 1 milhão de pessoas gratuitamente

Foto Adriano Vizoni/Folhapress

[conteúdo exclusivo Continente Online]

“Isso não é uma disputa./ Eu não quero te provocar”. É com esses versos, que possivelmente você já conhece, que a cantora e compositora goiana Marília Dias Mendonça dá início à canção Infiel. Em um gênero musical dominado pela presença masculina – o sertanejo –, Marília chama atenção por falar de sofrência, dor de corno e fim de relação sob a perspectiva de uma mulher que, cansada de ser traída, resolve encerrar seu relacionamento um ano depois de descobrir a traição.

A música, lançada em julho de 2015, se tornaria a segunda mais ouvida das rádios do Brasil naquele ano. Com apenas duas décadas de vida, Marília Mendonça tinha o seu primeiro hit, de autoria própria, sobre uma temática bastante conhecida da música sertaneja, mas sob um viés totalmente diferente daquele que dominou o gênero durante anos: o masculino. Era uma mulher falando para outra, era ela relatando sua decisão para a amante de seu marido, avisando-a que agora eles estavam livres para estabelecer uma relação. E, mesmo que seja possível perceber que ela está sofrendo com a situação, ela reitera que sua adversária não é a mulher amante, e sim seu ex-companheiro.

Mesmo com o tamanho desse lançamento, se olharmos hoje, no Spotify, Infiel nem figura entre as cinco canções mais ouvidas de Marília. Isso se dá porque, de 2015 pra cá, a carreira da cantora só fez crescer e ela se popularizou massivamente por todo o Brasil, cantando o sentimento de muita gente nos quatro cantos do país. Em 2018, na turnê Todos os cantos, Marília esteve em diversas capitais e chegou a tocar para 1 milhão de pessoas gratuitamente. 

Foi também nesse ano que, durante o processo eleitoral, ela participou da campanha #EleNão, na qual se posicionava contra a candidatura do então deputado federal Jair Bolsonaro à Presidência da República. Grande parte de seu enorme público, porém, não se agradou do posicionamento de Marília. Durante a campanha, vários setores do agronegócio, cuja relação com a produção e o consumo da música sertaneja é profunda, apoiava a chapa do então candidato do PSL. A cantora sofreu pressão e após ser, inclusive, ameaçada de morte, retirou seu posicionamento e pediu desculpas às pessoas que se sentiram ofendidas. 

Mesmo tendo apagado o seu post, o posicionamento de Marília foi exceção dentro do sertanejo e o recado já estava dado. Ali, ela, de certa forma, se descolava de alguns artistas do gênero que, em sua maioria, seja por afinidade ideológica, seja por medo de sofrer as mesmas ameaças e até por conveniência mercadológica, se posicionaram ou a favor de Bolsonaro, ou se mantiveram neutro. O posicionamento de Marília, no entanto, não surpreendeu àqueles que costumavam acompanhar mais atentamente a carreira da artista. Dona de uma personalidade entusiástica, ela sempre demonstrou ser uma pessoa que era fiel ao que acreditava e não tinha medo de expor suas contradições e de falar das coisas que achava que deveria, e de voltar atrás na tentativa de construir diálogo com seu público. Talvez por isso, ela tenha sido um sucesso nas redes sociais, onde acumulava mais de 30 milhões de seguidores. Ela era uma gigante nos palcos, mas também na internet e, durante a pandemia do novo coronavírus, realizou uma live que se tornou a mais vista da história do YouTube no mundo inteiro, com 3,3 milhões de acessos simultâneos.



E foi através da internet, também, que muitos de seus fãs acompanharam apreensivos o desenrolar dos eventos da última sexta-feira (5), quando recebemos a notícia de que o avião que levava a cantora havia caído em Minas Gerais.

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Por volta das 15h30, de acordo com os bombeiros, houve um chamado relacionado à queda de um bimotor no município de Piedade de Caratinga, no Vale do Rio Doce, oeste do estado. Depois, soube-se que a aeronave havia batido num cabo de uma torre de distribuição de energia e caído próximo ao Aeroporto de Caratinga, onde estava programado para pousar. A assessoria de Marília Mendonça chegou a afirmar que a cantora e os outros passageiros do avião haviam sido resgatados e estavam bem. Pouco depois, contudo, a informação se provou ser falsa: a morte de todos os presentes na aeronave foi confirmada. Além da cantora de 26 anos, morreram o piloto, o copiloto, seu produtor Henrique Ribeiro e seu assessor, Abicieli Silveira Dias Filho, também seu tio. 

Como é de praxe em acidentes aéreos, com ou sem vítimas fatais, as causas do ocorrido estão sob investigação. Mas, assim como aconteceu com a tragédia que vitimou os jogadores da equipe de futebol Chapecoense, já há evidências que apontam algumas das possíveis causas do problema. Neste ano, inclusive, o Ministério Público Federal havia cobrado da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) uma resposta sobre as irregularidades na empresa PEC Táxi Aéreo, responsável pelo transporte da cantora. Mesmo assim, e como não poderia deixar de ser, o tom de incredulidade diante da tragédia predominou nas inúmeras manifestações de artistas, políticos e fãs em homenagem à memória da cantora. De Caetano Veloso a Wesley Safadão, de Letrux a Anitta, de Zezé Di Camargo a Gilberto Gil, de Ludmila a Alceu Valença, artistas de diversos gêneros musicais demonstraram perplexidade diante do acontecido. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva remarcou a entrevista que daria ao vivo, na sexta-feira, ao podcast PodPah, e até mesmo o presidente Jair Bolsonaro, que já deixou de se manifestar diante da morte de importantes artistas da cultura brasileira, divulgou uma nota em seu perfil nas redes sociais lamentando o ocorrido.

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Houve, porém, quem se aproveitasse da situação para fazer críticas a Marília Mendonça e ao gênero sertanejo. Alguns dos argumentos apontavam sobre as ligações do gênero musical com o agronegócio, as problemáticas que envolvem o tamanho da propagação de suas músicas dentro do mercado brasileiro, ou mesmo o que seria a falta de talento e a qualidade em Marília e em suas canções. Em coluna escrita para o jornal Folha de S. Paulo, o colunista Gustavo Alonso fez críticas à voz e à aparência da artista, chegando a afirmar que ela “nunca foi uma excelente cantora” e que seu “visual também não era dos mais atraentes”. Alonso foi duramente criticado nas redes sociais e cobrado pelo fato de falar da aparência de uma artista mulher e aproveitar o momento de sua morte para tecer críticas misóginas às suas qualidades artísticas. A jornalista Milly Lacombe declarou, em seu perfil no Twitter, que “Gustavo Alonso fracassou como ser humano e como autor porque, ao ser incapaz de fugir de seus preconceitos, deixou de entender a grandeza do momento e a importância que um texto honesto sobre Marília Mendonça teria para o Brasil atual”. 

Esse tom foi predominante nas reações àqueles que aproveitaram a ocasião da morte da cantora para fazer críticas à artista e sua música. É evidente que, após o luto, há uma série de debates que precisam ser realizados: sobre a insegurança da aviação particular no Brasil, sobre a assessoria de Marília que errou ao dar uma informação sem a confirmação e mesmo sobre o gênero sertanejo, sua associação com forças políticas reacionárias e as distorções causadas pelo dinheiro no espaço que o gênero tem no mercado musical brasileiro. E discutir essas questões, problematizar a carreira de Marília e suas canções, não é necessariamente algo elitista. No entanto, é necessário respeitar o momento do luto. 

Porque, diante de uma tragédia que choca um país inteiro, diante de uma artista que, nas suas complexidades e contradições, consegue romper barreiras e chegar o mais próximo de uma unanimidade nacional, num momento do Brasil em que se achava ser impossível que isso pudesse acontecer, qualquer posicionamento que não seja o respeito pela memória e pela trajetória da artista é desrespeitoso e fora de tom. E uma parte da elite intelectual brasileira que não entendeu isso, que não entende como uma artista consegue atingir um público ao mesmo tempo extenso e heterogêneo, que acredita que é possível se atingir esse nível de popularidade apenas com artifícios artísticos e empresariais, talvez esteja, neste momento, dando o atestado maior de que perdeu completamente a capacidade de ter interlocução com o resto do país.

Em meio às suas contradições, Marília conseguiu conquistar um país dividido, mergulhado em crises e que ainda está em meio a uma pandemia que matou (e mata) mais de 600 mil pessoas. Não somos obrigados a gostar de sua música nem mesmo a concordar com aqueles que gostam, mas é impossível não reconhecer sua importância. E se esse reconhecimento não pode vir pelo entendimento mais complexo do fenômeno ao seu redor, que venha como respeito a uma artista imensamente popular e a saudade que ela deixa nos palcos e nos corações de milhões de brasileiros.



ANTONIO LIRA é jornalista, músico, pesquisador em comunicação e mestrando pelo PPGCOM/UFPE.am

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