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Comentário

O esforço da reinvenção da pompa no Oscar 2021

Sinônimo de glamour desde sua primeira edição em 1929, o Oscar passa há alguns anos por uma crise de representatividade e tenta se reinventar sem perder a pompa que tanto ama

TEXTO Rostand Tiago

28 de Abril de 2021

Chloé Zao no centro da foto, diretora do premiadíssimo 'Nomadland', com parte da equipe do filme

Chloé Zao no centro da foto, diretora do premiadíssimo 'Nomadland', com parte da equipe do filme

FOTO Matt Petit/ A.M.P.A.S/ DIVULGAÇÃO

[conteúdo exclusivo Continente Online]

A política diretriz do Oscar é a política da pompa. Entrando na década de seu centenário, a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da maior indústria do cinema construiu sua reputação pela construção de uma imagem de glamour e pompa, com o mais economicamente poderoso dos cinemas globais reconhecendo quem são seus principais  nomes. Era uma indústria premiando a si mesmo, quase que uma luxuosa cerimônia de funcionário do mês, que conquistou uma atenção global a partir da construção de um imaginário de relevância e reconhecimento financiado pelas décadas de dominação do cinema norte-americano no mundo. Mas o caminhar da história do mundo e da própria arte trouxe uma certa demanda para que esse estilo hollywoodiano passasse a demonstrar mais sintonia com mudanças na sociedade, um pouco de “humildade”, afinal, um nível não radical de consciência social e abertura para o novo é très chic.

Assim os anos se passaram e o clube do Oscar, sempre majoritariamente formado por homens brancos, foi nessa caminhada de concessões para não sujar sua pompa, mas também garantir o privilégio dos pares dos membros da Academia. A criação de uma categoria para filmes do estrangeiro aqui, muitíssimos pontuais reconhecimentos de profissionais negros ali, assim foi seguindo. Mas os últimos cinco anos trouxeram a maior tensão para o dia a dia do clubinho que é a Academia. O poder de cobrança foi amplificado e pluralizado através das redes sociais, com sua capacidade de articular demandas antigas e importantes em uma simples hashtag — como foi o #OscarsSoWhite em 2016 —, vem colocando esse regime de concessões em xeque, com pressões por uma mudança mais estrutural do que uma abertura para alguns tokens de representatividade. 

O clamor é para que essa estética luxuoso, não necessariamente garantidora de um mérito artístico, mas certamente impulsionadora em aspectos de visibilidade e comercialização, possa ser usufruída mais democraticamente. Nesse cenário, o Oscar 2021, realizado no último domingo (25), é um marco da continuidade de uma política batizada de A2020, iniciada em 2016 pela Academia após a avalanche de críticas por falta de representatividade na premiação do ano anterior. A medida tem como principal objetivo aumentar e diversificar os membros votantes da premiação, incluindo mais mulheres, pessoas racializadas e de fora dos Estados Unidos. Com tal política, que enfrentou resistência interna de membros mais antigos, hoje temos um maior número de brasileiros votando, incluindo um pernambucano, como é o caso do diretor Kleber Mendonça Filho. 

De lá pra cá, vimos alguns atrasados pioneirismos no acesso à pompa, ao lado de uma intensificação nas cobranças. Vimos Parasita, um filme sul-coreano se tornar o primeiro não falado em inglês a ganhar a principal estatueta, por exemplo, em 2020. Mas, no mesmo ano, a atriz Issa Rae, ao anunciar os indicados ao prêmio de Direção, fez questão de ressaltar que apenas homens concorriam. Neste ano, a categoria teve duas mulheres na disputa pela primeira vez, sendo uma delas Chloé Zhao por Nomadland, vencendo e se tornando a segunda mulher a conquistar o prêmio e a primeira não-branca. Mas também se trata de uma categoria que facilmente poderia englobar outra mulher, Kelly Reichdart com o fabuloso First Cow e pelo menos dois diretores negros, como Shaka King, que teve seu Judas e o messias negro indicado nas principais categorias, e Spike Lee com Destacamento blood, um dos principais esnobados do ano.

Então esse fluxo entre pioneirismos e lacunas ainda não permite cravar que o sistema de concessões foi substituído por uma verdadeira mudança estrutural, apesar dos sinais serem positivos. É animador ver as categorias técnicas, por exemplo, reconhecendo profissionais negros, como a categoria de Melhor Figurino premiando Ruth E. Carter em 2019, a primeira mulher negra a conseguir tal feito e, dois anos depois, o mesmo acontecer com a de melhor maquiagem e cabelo, com a vitória de Jamika Wilson e Mia Neal por A voz suprema do blues, com essa última reforçando em seu discurso que um dia tal vitória não será incomum ou inovadora, mas normal.  

A POMPA POSSÍVEL NESTE 2021
O caminhar de mudanças pelo qual passa o Oscar se dá em um momento no qual sua cara pompa vem passando por testes de popularidade, vendo sua audiência oscilando e seu formato de uma longa cerimônia se desgastando. A pandemia acabou por alargar essa instabilidade, trazendo a noite de pior audiência da história da premiação, segundo números preliminares. Talvez o principal desafio desse ano fosse pensar uma noite que conseguisse não ser tão mitigada por uma fadiga global, que assola ao mesmo tempo o espírito de indivíduos, mas também a grande máquina de cinema hollywoodiano. 

Por um lado, temos um público vivendo dias de ressaca e luto por mais de um ano vivendo em uma pandemia e, por outro, o setor audiovisual continua sendo duramente impactado (dos grandes estúdios às produtoras independentes), incluindo o adiamento de lançamentos e gravações. Não que as obras indicadas deste ano sejam tapa-buracos, mas, inevitavelmente, o Oscar 2021 carrega uma aura de “o que poderia ter sido” desde antes de sua cerimônia, com as condições impostas pelo mundo ao redor. E tal cenário fora do padrão “antigo normal” levou a cerimônia para um caminho de limitações e experimentações, tentando se equilibrar entre não perder sua pompa e não soar mal perante a opinião pública em relação aos cuidados sanitários. 


Entrada da cerimônia deste ano, em Los Angeles. Foto: Matt Petit / ©A.M.P.A.S/ Divulgação

Coube a Steven Soderbergh, diretor com uma propensão a explorar tecnologias e formatos, comandar a cerimônia, com promessas de fazer o evento parecer mais um filme do que um programa de TV, algo que não foi tão concretizado assim. Para manter sua imagem de glamour, o Oscar não poderia fazer algo parecido como fez o Globo de Ouro, seu primo distante mais humilde, que teve seus vencedores recebendo o prêmio por meio de videoconferências. O primo rico não poderia ter a participação de suas estrelas como se dá em uma remota reunião de trabalho de um cidadão comum, mesmo sabendo que os riscos, por mais que se adote protocolos, ainda existiam e poderiam ser minimizados. 

Além da mudança de localidade e do reduzido número de presentes, uma das principais iniciativas foi um certo enxugamento da cerimônia, acertadamente colocando os números musicais para serem apresentados antes do evento principal e equivocadamente deixando de passar trechos dos filmes indicados, principal razão da existência da premiação, como exibia antes — ou seja, sem atiçar a curiosidade para uma busca por eles. Mas o verdadeiro tiro pela culatra foi a decisão de não mais encerrar a cerimônia com a entrega do prêmio de Melhor Filme, colocando os principais de atuação por último. A grande motivação especulada para tal alteração era a certeza de que o falecido ator Chadwick Boseman seria o vencedor da categoria, dando ao final do espetáculo uma impactante comoção emocional. O prêmio acabou indo para Anthony Hopkins, que não estava presente nem remotamente para discursar, transformando o auge em anticlímax. Situação, de certa forma, sintomática de uma premiação que corre contra anos de atraso em seu pertencimento a um mundo mais diverso e democrático. 

ROSTAND TIAGO, jornalista e crítico de cinema.

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