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Comentário

A invenção de Juliette

Vencedora do BBB 21, a paraibana Juliette Freire se tornou símbolo de uma disputa narrativa sobre o Nordeste brasileiro

TEXTO Antonio Lira

20 de Setembro de 2021

Juliette se tornou um fenômeno durante sua participação no Big Brother Brasil deste ano

Juliette se tornou um fenômeno durante sua participação no Big Brother Brasil deste ano

IMAGEM Reprodução/ Instagram

[conteúdo exclusivo Continente Online]

A nota máxima não veio de primeira. O prêmio de um milhão e meio também não. Um saiu do Exu, no Sertão de Pernambuco. A outra, de Campina Grande, no Agreste paraibano. Duas cidades que compõem essa colcha de retalhos plural que é o Nordeste brasileiro. Antes que o destino os levasse ao Rio de Janeiro, a música já havia atravessado a vida dos dois. Mas o sucesso não aconteceu de forma imediata para nenhum deles. Na Cidade Maravilhosa, ele participou de programas de auditório; ela, do maior reality show do país. Ele já havia tentado por diversas vezes conquistar o público no programa Calouros em desfile, de Ary Barroso. Mas só conseguia, no máximo, uma nota 3,5. Um dia, porém, resolveu tocar uma canção “de sua terra”, o Vira e mexe (1940). A apresentação caiu nas graças da plateia e de Ary, que lhe deu a máxima pontuação.

Décadas depois, ela escolheu um cacto como símbolo de sua torcida e, desde o momento que sofrera xenofobia, protagonizou diversos momentos marcantes no reality, foi acolhida pelo público e pavimentou seu caminho de sucesso até a final. De forma breve assim, pode soar estranho ou, até, exagerado dar início a esse texto aproximando as trajetórias de Juliette Freire Feitosa e Luiz Gonzaga do Nascimento. No entanto, embora trazendo suas distintas vivências, estamos falando para além dos dois artistas e propondo uma reflexão. Afinal, o que se espera e como se constrói um artista do Nordeste?

No dia 2 de setembro, a maquiadora e advogada campinense Juliette – atual vencedora do Big Brother Brasil – entregou ao mundo seu primeiro álbum musical. Recheado de inéditas, o EP homônimo ao seu nome bateu recordes antes mesmo da data de lançamento, ao alcançar o maior número de pré-saves de uma brasileira nas plataformas de streaming. Este ano, aliás, tem sido inesquecível para a paraibana. Não apenas pela vitória no reality show e por diversas campanhas publicitárias que vem protagonizando, mas também pelo início de sua carreira musical. Antes do EP ser lançado, Juliette esteve em lives com artistas como Wesley Safadão, Gilberto Gil, Alceu Valença e Elba Ramalho. Mas ela seguir na música não é exatamente surpreendente, já que é coerente com sua trajetória no Big Brother Brasil, na qual cantou trechos de canções de Maria Gadú, Duda Beat e de seu conterrâneo, Chico César.

Durante o BBB, inclusive, a música Deus me proteja (2008), de autoria do paraibano, figurou no Top 50 viral do Brasil no Spotify e teve um aumento de 2200% no número de audições no Deezer. Isso graças a Juliette, que a escolheu como a música tema de seu primeiro paredão e sempre a cantarolava quando precisava enfrentar momentos difíceis dentro do confinamento.


Capa do EP Juliette, lançado no início de setembro. Foto: Divulgação

Apesar dessas vitórias, houve, porém, quem também questionasse o talento da maquiadora. Sua participação nas lives com artistas influentes da música do Nordeste foi criticada tanto por sua voz – que, no argumento dessas pessoas, seria sem técnica – quanto por quem defendia que ela não deveria estar ali. De acordo com uma parcela desse segundo grupo, há vários artistas no Nordeste, de diversos gêneros, com mais tempo de carreira, que talvez merecessem mais a oportunidade de cantar na live de São João de Gilberto Gil. É interessante perceber, porém, que, em sua maioria, essas críticas foram destinadas a Juliette e não aos outros artistas ou suas respectivas produções. O privilégio da ex-BBB em dividir o palco com esses nomes da música brasileira somente aconteceu por conta de convites ou mesmo da permissão para que ela estivesse lá. Por que, então, seria interessante para esses artistas aparecerem com Juliette logo na época de São João, essa festa tipicamente brasileira mas que tem até hoje as raízes fincadas no interior do Nordeste?

Como não poderia ser diferente com qualquer artista pop do século XXI, as críticas afetaram profundamente o comportamento de seu fandom. Este termo vem de uma junção das palavras fan e kingdom, que significam "fã" e "reino" em inglês. Se Lady Gaga tem seus little monsters, Beyoncé seus beehives e Anitta seus anitters, cada passo de Juliette é acompanhado com rigor por seus cactos, que se denominaram assim por causa do emoji escolhido pela cantora em sua participação no Big Brother Brasil. Nenhuma crítica que Juliette recebe passa despercebida por eles, que aparecem sempre que entendem que a paraibana precise ser defendida.

Esse fenômeno não é recente – teve origem com as torcidas de futebol no início do século XX – e existe todo um campo de estudos sobre a cultura dos fãs. Mas, desde a época em que Juliette ainda estava na casa do BBB, o comportamento belicoso e autoritário dos cactos tem sido um dos tópicos que surgem sempre que se discute a trajetória da paraibana.

O influencer e apresentador pernambucano Caio Braz, que curiosamente, semanas antes, havia elogiado Juliette em uma participação no podcast cearense Budejo, foi um dos que se tornou alvo dos cactos. Tudo isso porque Braz afirmou, na ocasião da participação de Juliette nas lives, que a cantora não saberia cantar. Mesmo que ele tenha reiterado que amava a paraibana e que havia torcido por ela no BBB, suas críticas tiveram bastante repercussão. O portal Metrópoles, por exemplo, publicou em 24 de junho – dia em que se comemora a festa de São João – uma matéria comentando o assunto intitulada Caio Braz detona Juliette em lives: “Ela sabe cantar? Não”. A mobilização virtual dos cactos diante da crítica foi tamanha. Dias depois, o influenciador se manifestou sobre o assunto, pedindo desculpas a Juliette e afirmando novamente que não havia nada pessoal na crítica à cantora. Ainda assim, ele não perdeu a oportunidade de criticar os cactos que, segundo sua colocação, fizeram com que as coisas adquirissem “uma proporção muito maior e muito mais violenta”, como desabafou em suas redes sociais.

Violenta ou não, a comoção dos fãs em torno de Juliette teve início após a paraibana sofrer xenofobia dentro da casa. No momento em que estavam se definindo os heróis e vilões da 21ª edição do BBB, Juliette foi interpelada, justamente, por sua identidade enquanto nordestina. A rapper curitibana Karol Conká, que foi eliminada com a maior votação da história do programa – 99,17% dos votos – chegou a afirmar que, ao contrário de Juliette, ela, por vir de Curitiba, seria “mais educada” do que a advogada na hora de falar com as outras pessoas.

A partir do momento em que essas questões começaram a aparecer e o grupo composto por Conká, Lumena, Nego Di, Projota, entre outros, se estabeleceu, aos olhos do público, como os vilões na narrativa do BBB 21, coube a Juliette o lugar da vítima. Vítima de xenofobia, de preconceito por ser do Nordeste e falar de um jeito outro, por se comportar, supostamente, de uma maneira diferente dos demais participantes, em sua maioria, oriundos das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. É aí que Juliette se reinventa, mas também que ela começa a ser inventada aos olhos de milhões de brasileiros.

Ao ser enquadrada nessa posição, ela reencena aquela que talvez seja a principal narrativa associada à região Nordeste. Sua jornada de superação dentro da casa aconteceu ao mesmo tempo em que o público descobria as adversidades que ela sofrera antes de ser escolhida para participar do reality. Grande parte disso por causa do trabalho de divulgação de sua equipe de mídias que cuidava de tudo do lado de fora da casa. E, como não poderia deixar de ser, em se tratando de uma artista pop que precisa suprir as demandas de um fandom apaixonado, essa história também aparece em seu EP, já na primeira canção. 

Na faixa Bença, a sanfona, a zabumba e o triângulo acompanham a voz de Juliette enquanto ela evoca os versos “Agora, se foi fácil, foi não / Rapadura é doce, mas não é mole, não / Na estrada a gente pena, a gente sofre / Mas a gente ama”. Com essas palavras, o roteiro que ela aciona é o da nordestina pobre, que saiu do Sertão – mesmo que ela tenha vindo de Campina Grande, que fica no Agreste –, que sofreu muito na vida, mas que ainda assim acredita que sua trajetória valeu a pena. Essas experiências, inclusive, teriam tornado-a mais forte, pois ela vem desta microregião onde “o coco é seco demais, irmão”.

Esse lugar de Juliette enquanto nordestina também aparece na faixa Diferença Mara, cujo clipe retrata o romance da cantora com um rapaz negro do Sul do Brasil, que gosta de ouvir rap enquanto ela prefere Maria Gadú. Mesmo ela vindo do Nordeste e ele vindo do Sul, a diferença entre eles seria positiva e harmônica, justamente o que traria a química do relacionamento.

No livro A Invenção do Nordeste e outras artes (1999), o professor paraibano Durval Muniz de Albuquerque Júnior analisa como a ideia em torno do Nordeste se construiu historicamente a partir dos anos 1920, no período em que o Brasil estava se modernizando. De acordo com o pesquisador, é através de uma extensa produção cultural que conta com a literatura regionalista, o cordel e a canção, que se consolida a ideia da região enquanto o “Outro” do Brasil moderno. A identidade do povo nordestino seria, portanto, constantemente associada à seca e à falta de investimento econômico na região. As pessoas vindas dessa região seriam formariam um povo “antes de tudo, um forte”, nascido na diferença, autêntico, pois não teria perdido contato com suas raízes da mesma forma que os brasileiros do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Para o professor, todos esses discursos não passam de mitos criados para legitimar o poder das elites locais – que teriam perdido prestígio com a mudança do poder econômico do país do antigo Norte para as regiões do Sul – e fixar o Nordeste enquanto um lugar pobre, seco e sofrido. Um dos principais incentivadores dessa invenção, seria, inclusive, o sociólogo Gilberto Freyre, cuja obra Casa Grande & Senzala (1933) tem sido bastante criticada nos dias de hoje por ter contribuído para disseminar a ideia de que as relações raciais no Brasil se dariam de maneira harmônica e não conflituosa.

Em um artigo escrito para o jornal cearense Diário do Nordeste, Albuquerque Júnior reitera seu ponto de vista e coloca Juliette como “parte da novela mais barata e lucrativa exibida pela Rede Globo”. A paraibana seria, então, mais uma criação do regionalismo nordestino e, portanto, contribuiria para a “despolitização e perda do senso crítico”. Em outro artigo, para a mesma publicação, o professor critica a apropriação do cangaço enquanto símbolo de resistência, utilizando como exemplo tanto Juliette quanto o filme Bacurau (2019), dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. De acordo com ele, a ideia do cangaço enquanto resistência seria uma mentira, já que, na realidade, os cangaceiros eram bandidos violentos e estupradores e, portanto, estariam bastante distantes da imagem de resistência que costuma se associar a eles. 

O limite da análise de Durval Muniz de Albuquerque Júnior é que sua perspectiva acaba por colocar a audiência em um lugar estático, como se as massas sempre estivessem sujeitas, passivamente, aos mitos criados pelas elites. Como bem colocou em seu perfil do Facebook o historiador e youtuber pernambucano Jones Manoel, em resposta ao artigo do pesquisador potiguar, Durval não parece encarar a memória como um processo social carregado de conflitos e anula completamente a possibilidade de que os símbolos possam ser ressignificados e disputados para além das intenções das classes dominantes.

Mesmo que o regionalismo nordestino tenha surgido na esteira de um projeto estético-político das elites culturais da região, como forma de manter sua dominação simbólica, há diversos artistas que provam que é possível ressignificar essas histórias enquanto símbolos de resistência. O ícone pernambucano Chico Science, que inclusive foi ironicamente comparado com Juliette nas redes sociais, talvez seja o maior exemplo disso. Na canção Monólogo ao pé do ouvido (1994), Chico coloca “Lampião, sua imagem e semelhança” ao lado de outros signos de resistência como Emiliano Zapata, Antonio Conselheiro, Zumbi dos Palmares e o partido marxista estadunidense Panteras Negras. Mas, se esses roteiros estão em disputa, é possível também que um bom trabalho de marketing consiga se apropriar dessa ideia de resistência para criar um produto vendável, que ofereça pouco ou nenhum risco e que, de fato, contribua para a despolitização. 

Diante disso tudo, qual o tipo de artista nordestina que Juliette representa? A que reitera os clichês associados à região ou que os transforma em potência de resistência? Isso, só o tempo dirá. E é claro que independente de como sua carreira seja planejada, seu público não é estático e também está sempre processando e ressignificando, às suas maneiras, tudo que ela manifesta nas suas aparições nos meios de comunicação de massa. É importante pontuar, também, que esses processos não acontecem de maneira isolada. Em geral, essas duas dimensões atuam simultaneamente, de maneira dialética, em um eterno processo de negociação que caracteriza as dinâmicas da cultura pop.

Sobre a persona de Juliette, porém, parece difícil compreender o que ela realmente pretende. No entanto, em uma época em que as dinâmicas da internet parecem eliminar completamente a possibilidade da existência de nuances, talvez essa estratégia ambígua tenha prazo de validade. Quando ela ainda estava dentro da casa do BBB e as manifestações virtuais dos cactos já criavam problemas na websfera brasileira, muitos falavam que isso não era sua responsabilidade, já que ela estava confinada e não tinha agência sobre aquilo tudo. Mas essa falta de agência permanece até hoje, tanto na falta de posicionamento da cantora diante das perseguições virtuais promovidas pelo seu fandom quanto pelo próprio EP, que parece ter sido feito por muitas mãos, por uma equipe afinada, com o objetivo de tirar, rapidamente, o máximo de proveito da fama que a paraibana conquistou após vencer o reality show.

Isso não significa que ela não possa se reinventar ou mesmo que não tenha talento. Para isso acontecer, porém, Juliette precisa tomar uma atitude, nem que seja em forma de enfrentamento diante das ações de parte de seus fãs, que, vez ou outra, ultrapassam o limite aceitável dentro do debate democrático. Ou Juliette se inventa, ou inventam ela. 

ANTONIO LIRA é jornalista, músico, pesquisador em comunicação e mestrando pelo PPGCOM/UFPE.

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