Virtuosi: Como construir um gran finale
Teatro de Santa Isabel agrega mais público na sexta e no sábado e Virtuosi Rafael Garcia atinge o pico de expressão emocional em sua apoteose, como em uma verdadeira ópera
TEXTO Carlos Eduardo Amaral
20 de Abril de 2026
A soprano paraense Adriane Queiroz
Foto Hannah Carvalho/Divulgação
Da quinta (16) ao sábado (18), o afluxo de melômanos ao Teatro de Santa Isabel, para acompanhar o Virtuosi Rafael Garcia, aumentou gradualmente — a ponto de os camarotes do terceiro andar finalmente estarem ocupados na última noite. Na sexta (17), o trânsito atribulado, agravado por um ou outro protesto e pela hora do rush pré-sabatino, impediu algumas pessoas (incluindo este repórter) de comparecerem a tempo da perfomance de Matheus Cabral, aluno da Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Ipojuca.
Porém, recorremos aos vídeos publicados pelo festival e por sua claque de amigos e professores da OCC (que incluía Antonino Tertuliano) para conferir a competência na execução do Gran allegro di concerto “alla Mendelssohn”, confirmada pelo testemunho de Luis Felipe Oliveira, que o acompanhou ao piano. Tanto Antonino o parabenizou sinceramente, quanto o teria feito o romeno Catalin Rotaru, convidado obrigatório do festival durante mais de uma década.
Escrita pelo italiano Giovanni Bottesini (1821-1899), virtuose e compositor alcunhado como “o Paganini do contrabaixo”, a peça se baseia no primeiro movimento do Concerto para violino, op. 64 de Mendelssohn (1809-1847) e, na cadenza, extrapola o limite ordinário da tessitura aguda do instrumento — exigindo precisão adicional e estabilidade de pressão dos dedos durante a emissão das notas mais extremas, com a mão esquerda a meio caminho entre o pé do espelho e o cavalete, quase não sobrando espaço para a fricção do arco.
Em seguida, o violista Rafaell Altino e sua mãe, Ana Lúcia, interpretaram as sonatas de número de opus 38, 78 e 120 de Brahms (1833-1897), compositor preferido da pianista e diretora artística. Como quaisquer instrumentistas de ponta, Rafaell e Ana Lúcia não falaram mais do que o autor das obras, isto é, pudemos ouvir Brahms em tudo o que ele tem de maestria: seu discurso musical, sua condução harmônica, sua amplitude emocional.
É de se especular sempre como teriam sido as carreiras de Ana Lúcia Altino e Elyanna Caldas (1936-2025) como solistas internacionais, não fossem as contingências que as levaram a permanecer em Pernambuco e a trabalhar em prol da produção de eventos de ponta, do incentivo a jovens músicos e da valorização de compositores locais. Quem teve a oportunidade de ouvi-las nas últimas décadas, sinta-se privilegiado.
VITRINE LUSITANA
No encerramento da récita da sexta-feira (17), Vasco Dantas apresentou o número intitulado Fados, folias e outras danças portuguesas, cuja ordem foi modificada, de modo que primeiro ouvimos as danças, mais especificamente as Três cenas portuguesas, op. 9, de José Vianna da Motta (1867-1948). Depois vieram os fados de número 3, 4, 7 e 8 de Alexandre Rey Colaço (1854-1928) e os de Óscar da Silva (1870-1958) e Eduardo Burnay (1877-1926), arrematados por uma fantasia, de muita personalidade, escrita pelo próprio Vasco, sobre Gaivota — eternizada na voz da lendária Amália Rodrigues (1920-1999).
Representantes do nacionalismo musical de seu país no período romanticista, Vianna da Motta e Rey Colaço compartilham marcas biográficas notáveis: ambos nasceram na África — um na então colônia de São Tomé e Príncipe, outro em Tânger, no Marrocos —, foram patrocinados pela monarquia portuguesa e se aperfeiçoaram como pianistas na Alemanha. Daí que as peças de ambos soem nitidamente influenciadas por Robert Schumann (1810-1856) no tratamento do substrato folclórico, tal qual as de seus contemporâneos da Silva — ex-aluno de Clara Schumann (1819-1896) e residente no Brasil de 1930 a 1950 — e Burnay (ex-aluno de Rey Colaço).
As pièces de résistance vieram na seção dedicada à folia. Aqui, esse vocábulo não se refere a farra ou festança: é um antigo tema melódico de origem ibérica insabida e inspirador para toda uma plêiade de compositores desde a Renascença. De dezenas de obras baseadas na folia, Vasco escolheu as Variações sobre um tema de Corelli, op. 42, de Sergei Rachmaninov (1873-1943), ou seja, uma paráfrase do compositor russo sobre uma composição do italiano Arcangelo Corelli (1653-1713) calcada naquele tema.
A interpretação de Rachmaninov foi tão enérgica e precisa quanto a da ainda mais exigente Rapsódia espanhola, S.254 , R.90, de Franz Liszt (1811-1886), inspirada por manifestações musicais interioranas que o compositor húngaro escutou durante uma turnê pela Península Ibérica em 1845 — e que, por isso, Vasco prefere denominá-la, mais adequadamente, de Rapsódia hispânica. Pelas atuais ligações de Vasco com Pernambuco (que não vamos enumerar para não desviarmos o foco), é muito provável que o reencontremos em breve e que volte a tirar o melhor do Steinway do Santa Isabel como o fez.
PIANO E ÓPERA
No sábado, o concerto teve início meia hora mais tarde e acabou meia hora mais cedo, comparado às récitas anteriores, de três horas (sem considerar a happy hour com Gabriele Leite na quarta-feira de tardezinha, no Recife Antigo). Coube à última dos jovens selecionados pela convocatória do festival, Alice Casado, abrir o espetáculo com três peças de dificuldade gradativa e que integram seu programa de competições pianísticas.

Foto: Hannah Carvalho/Divulgação
Alice tocou a Balada n° 1 em sol menor, op. 23, de Chopin (1810-1849), as Impressões seresteiras, do Ciclo brasileiro de Villa-Lobos (1887-1959) e a paráfrase de concerto de Liszt sobre o Rigoletto de Verdi (1813-1901). Notamos que, fora da setlist de Gabriele, as Impressões seresteiras acabaram sendo a única ocorrência do repertório nacional em todo o festival, o que é um ponto a ser observado pelo Virtuosi nas próximas edições (em tempo, faltam poucos anos para Villa-Lobos cair em domínio público).
A seguir, aconteceu o episódio mais impactante do Virtuosi Rafael Garcia até então: com a Orquestra Jovem de Pernambuco (Ojope) a construir toda uma atmosfera de tensão e afronta, Adriane Queiroz aparece da coxia esquerda encarnando a personagem-título da Esclarmonde de Jules Massenet (1842-1912) na poderosa invocação “Esprits de l'air! Esprits de l'onde! Esprits du feu!” (“Espíritos do ar! Espíritos das ondas! Espíritos do fogo!”).
Como é vibrante sentir uma dramaticidade desse nível. Não que estejamos privados disso (já falamos que, aqui no Recife, “a ópera vive”), precisamos é de ter coisa do tipo ao longo do ano inteiro. E, depois desse cartão de visitas da soprano paraense, foi lícito construir toda uma expectativa quanto às demais atuações — que foi correspondida.
NÃO APENAS CANTANDO
Interpretar canções de câmara, cantatas e oratórios é uma coisa, outra é a ópera, em que é preciso atuar; unir teatro e música. Adriane ofereceu isso lançando mão de um figurino acomodável em uma simples bolsa: quatro écharpes (de cores vinho, pérola, preta e vermelha), um leque e uma máscara de carnaval, além de uma taça de vinho providenciada pela produção do Virtuosi.
A écharpe preta veio no Massenet. A pérola, na ária de Elvira Qui la voce sua soave mi chiamava (“Aqui, a sua voz suave me chamava”), do segundo ato de I puritani, de Bellini (1801-1935), e em Měsíčku na nebi hlubokém na (“Lua no céu profundo”, mais conhecida como Canção da lua) da protagonista de Rusalka, de Dvořák (1841-1904). A cor de vinho, em duas antológicas árias de Verdi, cantadas em sequência: Pace, pace mio Dio (“Paz, paz, meu Deus”), que retoma o poderoso tema da abertura orquestral de A força do destino, e a Ave Maria de Otello, declamada de joelhos por Adriane.
O intermezzo estava previsto para ser o terceiro movimento (Elegia) da Serenata para cordas em dó maior, op. 48, de Tchaikovsky (1840-1893), mas foi substituído por um propriamente dito: o da Cavalleria rusticana de Mascagni (1863-1945) — ótima escolha para a ocasião.
Considerando que alterações de programa têm sido uma constante em concertos na capital, uma proposta (que o Virtuosi tem condições de executar) é que possamos acompanhar a atualização pelo backdrop de palco, com slides a cada música, conciliados com a marca do festival e dos patrocinadores e apoiadores. Dirigir-se ao público oralmente também é válido, mas dificulta a retenção das informações.
O pós-intermezzo continuou com mais dois números dramáticos, em que Adriane trajando a écharpe vermelha: Glück das mir verblieb (“A felicidade que me restou”) — a canção de Marietta, da ópera Die tote Stadt (A cidade morta), de Erich Wolfgang Korngold (1897-1957) — e a ária de Musetta, Quando me'n vo' (“Quando me vou”), de La bohéme, de Puccini (1858-1924), com a soprano utilizando a máscara carnavalesca e circulando pelo corredor da plateia.
Os três números restantes marcaram o momento de mais leveza. Primeiro, Me Ilamam la primorosa, d’O barbeiro de Sevilha de Gerónimo Giménez (1854-1923), em que o leque foi o adereço principal. Depois, Ah! quel diner je viens de faire (“Ah! Que jantar delicioso acabei de preparar”), de La perichole de Offenbach (1819-1880). Pelo título mais popular dessa passagem, Air de la griserie (“Ária da embriaguez”), sabemos que foi a hora de brilhar a taça de vinho, transbordada pela hilariedade de Adriane.
O concerto oficialmente terminou com Las carceleras, d’As filhas de Zebedeu de Ruperto Chapí (1851-1909). Giménez e Chapí foram talvez o mais prolífico e o mais famoso, respectivamente, dentre os compositores de zarzuelas, gênero de ópera cômica espanhola baseada em enredos folclóricos ou argumentos escritos por libretistas e dramaturgos daquele país.
ORQUESTRA
O Virtuosi Rafael Garcia chegara ao fim, com direto a bis da Air de la griserie, mas faltava nossa menção ao desempenho da Ojope, conduzida por Nilson Galvão Jr. Não é a mesma coisa ouvir uma sinfônica completa, soando com seus naipes todos, e uma orquestra de cordas beirando a quantidade mínima funcional, acrescida de um piano obbligato ora fazendo as vezes de harpa, ora dos naipes faltantes (madeiras, metais e percussão).

Não obstante, os 16 músicos do grupo (oito violinos, três violas, três violoncelos, contrabaixo e piano) conseguiram garantir a atmosfera sonora de cada música cantada por Adriane, mostrando-se à altura de uma solista de renome internacional, que integra a Ópera Estatal de Berlim há quase um quarto de século. Certamente eles terão espaço quando o festival voltar a reunir condições de arregimentar um conjunto sinfônico robusto.
Esse desempenho resultou de dias de preparação, escusado dizer, mas também da criteriosidade de seleção dos músicos: a maioria têm passagem pela Orquestra Criança Cidadã (alguns, pelo Conservatório Pernambucano de Música), e comparecem aos ensaios havendo estudado o repertório (uma obviedade que tem suas razões para ser dita). Alguns atuaram até mesmo sob a batuta de Rafael Garcia, notório por sua intransigência quando o assunto era comprometimento musical.
Escolhido por Ana Lúcia Altino, em 2022, para reorganizar e assumir a Ojope, Nilson, por sua vez, não só garante a disciplina no ambiente de ensaio, como vem sendo bastante requisitado em João Pessoa e no Recife — pela desenvoltura tanto no repertório standard quando no contemporâneo.
Um dos projetos nos quais o maestro está atuando, inclusive, é na gravação de sinfonias e concertos dos períodos clássico e barroco para o incremento do banco de dados sonoros do aplicativo Moises, à frente de músicos que atuam na própria Ojope e em outros grupos e produtoras culturais do Recife.
Por isso, a união de Nilson, da Ojope e de Adriane atestou a excelência da direção artística do Virtuosi Rafael Garcia na construção de um gran finale, a exemplo do que vimos no último sábado: atingindo o pico de expressão emocional, como em uma verdadeira ópera, e nos levando a ansiar pela próxima edição.
CARLOS EDUARDO AMARAL, crítico de música clássica, escritor do catálogo da Cepe Editora e compositor, realizou a cobertura do Virtuosi com exclusividade para a Continente