A vida fútil e hedonista de Rosebush Pruning
Filme dirigido por Karim Aïnouz, em cartaz nos cinemas, é coprodução internacional com elenco formado por jovens estrelas, como Elle Fanning, Riley Keough e Callum Turner
TEXTO Luiz Otávio Pereira
19 de Outubro de 2026
Elenco de "Rosebush Pruning": Elle Fanning, Jamie Bell, Callum Turner, Lukas Gage, Riley Keough e Tracy Letts
Foto Felix Dickenson/Divulgação
Uma imagem do mar. Dois homens interagem em uma praia. De alguma forma, essas imagens que iniciam Rosebush Pruning poderiam também descrever a abertura de Motel Destino, filme anterior do diretor Karim Aïnouz. A diferença é que, em sua segunda empreitada em uma produção de calibre internacional, o litoral nordestino é substituído pela costa da Espanha onde dois homens brancos, um deles orgulhoso em suas roupas de grife, conversam sobre amenidades, enquanto, em voice over, o jovem bem-vestido informa que existe um crescente afeto entre eles. Tal escolha narrativa parece destoar da filmografia do cineasta cearense, em que relações de afeto são demonstradas de forma apaixonada, visceral e gráfica. Mas esse encontro entre dois homens não é o centro do filme. A narrativa se constrói em torno de uma família rica e disfuncional, tropo narrativo que já servia de base para De punhos cerrados, de Marco Bellocchio - filme italiano que serve como inspiração para Aïnouz e o roteirista grego Efthimis Filippou (O Lagosta e O sacrifício do Cervo Sagrado).
O jovem bem-vestido que costura a história com uma espécie de diário em áudio se chama Ed (Callum Turner). Ele mora com seus três irmãos, Jack (Jamie Bell), Anna (Riley Keough) e Robert (Lukas Gage), em uma mansão isolada sob a presença imponente e opressora do pai (Tracy Letts), um homem cego que utiliza essa condição como forma de controle. Pai e filhos costumam realizar rituais em memória da mãe (Pamela Anderson), que teria sido morta em um ataque de lobos que não deixou vestígios do seu corpo. Todos os membros da família têm um interesse específico na figura de Jack, o primogênito. Para Ed, a vida de Jack seria muito melhor se não fosse a família. Essa dependência emocional e física, com contornos incestuosos, é ameaçada pela intenção de Jack de morar com Martha (Elle Fanning), sua nova namorada, em outra casa. Assim é dado o contexto que faz surgir a forma visceral e gráfica com que o cineasta costuma lidar com o desejo e as obsessões de seus personagens. Cada situação de desconforto, de desejo reprimido ou expurgado, cada revelação das interações doentias da família são exacerbadas por uma trilha sonora estridente. O problema é que nada parece surgir como surpresa ou novidade para os personagens. Tudo parece ser encenado para pegar o espectador desprevenido.
O elemento trágico da obra original de Bellocchio permanece, mas é tratado com excesso. O tom melancólico é substituído pelo cinismo. A derrocada da família não é mostrada para despertar incômodo ou inquietação com os atos que a consumam. Ao apostar no choque, o filme leva a um certo cansaço e a um certo torpor. Nesse sentido, o filme se aproxima de Dente Canino, filme de Yorgos Lanthimos, escrito em parceria com Efthimis Filippou, em que uma família disfuncional serve para demonstrar quão vis podem ser relações humanas, pois baseadas em opressão, controle e abuso. Nas seis décadas que separam o filme de Bellocchio do de Aïnouz, fomos da constatação inquietante da decadência do modelo de família tradicional burguesa para a aceitação de que não há outra alternativa. Se as ações dos personagens em Bellocchio tinham alguma gravidade, em Aïnouz o que fica é o espetáculo. Seus personagens não parecem deixar rastros, a não ser os registros de um dia de sol na piscina como em qualquer feed de rolagem infinita. A imagem que fecha o filme serve como atestado da sua autoconsciência.
Retomando a relação deste filme com a obra do diretor, também é curioso perceber como Karim Aïnouz, um dos cineastas brasileiros mais prolíficos da atualidade, lida com sua posição na divisão internacional do trabalho dentro da indústria cinematográfica. Como diretor em uma produção internacional, com elenco de estrelas hollywoodianas, mantém colaborações que ajudam a conectar este filme às várias produções brasileiras que realizou. A mais importante é a parceria com a diretora de fotografia francesa Hélène Louvart, com quem trabalhou nos filmes A Vida Invisível, Firebrand e Motel Destino.
Ainda no tema da divisão internacional do trabalho, é possível fazer uma observação importante sobre a forma como essa questão é representada na filmografia de um diretor com inserção no circuito internacional de cinema. Se em seu primeiro filme falado em inglês, O Jogo da Rainha, retrata a corte inglesa de Henrique VIII, aqui temos uma família rica dos Estados Unidos vivendo na Europa contemporânea. Em seus filmes passados no Brasil, os personagens, se não são totalmente marginalizados, enfrentam algum tipo de vulnerabilidade econômica ou escassez de perspectivas. Em Rosebush Pruning ("Poda das roseiras"), nos cinemas desde 15 de outubro, os personagens não precisam trabalhar para ostentar carros, roupas e acessórios de luxo. Em algum momento, o pai é tratado como o melhor no ramo imobiliário, é a única menção a uma carreira profissional. Aqui, a arquitetura de espaços amplos está longe de gerar escassez. E a única falta de perspectiva que os personagens enfrentam vem da própria vida fútil e hedonista.