O dia em que o Salgueiro desfilou no Texas
Em uma cena do filme "True Stories", de David Byrne, uma banda marcial toca um trecho de um samba da escola durante uma parada
TEXTO Humberto Santos
09 de Outubro de 2026
Banda Marcial toca um trecho de “Festa para um rei negro” e cantando "Viva Zé Pereira!"
Foto True Stories Ventures/Reprodução
Um desfile cívico no interior do Texas, cercado de chapéus de caubói, picapes e poeira, parece o cenário perfeito para uma marcha militar americana. Mas, na avenida imaginada por David Byrne em True Stories, a banda marcial ergue os instrumentos e berra em bom português: “Zé Pereira! Zé Pereira!”.
Enquanto tradicionais Mustangs vermelhos cruzam a tela, os metais tocam a melodia de “Festa para um rei Negro”. Composta por Zuzuca, a música deu ao Acadêmicos do Salgueiro o título de campeão do Carnaval carioca de 1971. O refrão “Pega no ganzá” entrou para a memória do Carnaval e ajudou a transformar a faixa em um dos sambas-enredo mais conhecidos da década.
Em entrevista no Rio de Janeiro, Byrne explicou que conheceu as músicas brasileiras por meio de um grupo do Texas e as escolheu para acompanhar a cena por serem mais animadas do que as marchas americanas.
Para o filme, Byrne recorreu a músicos do Texas e regravou a composição brasileira. O resultado saiu em nome de uma banda aparentemente criada para a ocasião: Banda Eclipse. Produzido por Byrne e arranjado por Jeff Barnes, o grupo registrou “Festa para um rei negro” para a sequência.
Embora a música já aparecesse no álbum Sounds from True Stories, de 1986, a trilha completa só chegou ao público em 2018, com True Stories: A Film by David Byrne — The Complete Soundtrack, que reuniu as 23 faixas do filme.
A relação de Byrne com a música brasileira se aprofundou em 1988, quando ele fundou a Luaka Bop. A gravadora criou a série Brazil Classics, que apresentou a públicos estrangeiros a diversidade da música brasileira - a maior parte atráves do lançamento de compilações. O catálogo incluía Tom Zé, cuja obra experimental ganhou novo impulso internacional, e nomes como Jorge Ben Jor, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Também reunia sambistas como Clara Nunes, Martinho da Vila, Paulinho da Viola e Nelson Cavaquinho, além de artistas de outras tradições, como Luiz Gonzaga e Dominguinhos, referências da música nordestina.