O charme extraordinário do comum
Quatro décadas após a estreia, True Stories, de David Byrne, continua encontrando beleza e estranheza no cotidiano americano
TEXTO Humberto Santos
08 de Outubro de 2026
Foto Criterion Collection/Divulgação
Quarenta anos atrás, um homem magro, de terno largo e chapéu de caubói, dirigia um conversível vermelho pelas estradas do Texas. Não estava atrás do sonho americano dos comerciais de televisão nem dos cartões-postais. David Byrne, então no auge dos Talking Heads, queria observar outra coisa: as pessoas comuns, seus hábitos, suas manias e aquilo que existe de estranho no cotidiano.
Era 4 de outubro de 1986 quando True Stories foi apresentado pela primeira vez no Festival de Cinema de Nova York. A estreia comercial em Nova York aconteceria seis dias depois, em 10 de outubro. Era o primeiro longa de ficção dirigido por Byrne, depois do impacto de Stop Making Sense (1984), o filme de Jonathan Demme sobre o Talking Heads. A experiência com Demme aproximou Byrne ainda mais do cinema. Mas o novo projeto seguia por outro caminho. Em vez de registrar uma banda no palco, ele inventava uma cidade inteira e seus moradores.
Virgil é uma pequena cidade do Texas prestes a comemorar seu sesquicentenário. Byrne chegou ao filme carregando histórias que costumava recortar de jornais e tabloides durante as turnês. Essas notícias viraram personagens e situações, trabalhadas depois no roteiro com Beth Henley e Stephen Tobolowsky.
Daí surgem figuras como a Mulher Mais Preguiçosa do Mundo, interpretada por Swoosie Kurtz. Ela passa os dias na cama, cercada por televisão, revistas e aparelhos que fazem quase tudo por ela. Há também Ramon, funcionário de uma fábrica de computadores que diz conseguir captar as “frequências” das pessoas ao redor.
Byrne aparece como narrador e visitante. Circula por Virgil, conversa com os moradores, observa. Não parece interessado em ridicularizar aquela gente. O humor está nas situações e nos próprios personagens, mas existe também uma curiosidade genuína sobre aquele modo de vida.
Essa forma de olhar para o cotidiano aparece na fotografia de Ed Lachman. Virgil é feita de grandes estacionamentos, fábricas, shoppings e construções que parecem ter sido colocadas ali sem muita preocupação com beleza. Nas mãos de Lachman, porém, essa paisagem ganha outra aparência. As cores, os enquadramentos e a arquitetura fazem o Texas parecer quase artificial.
A moda entra nesse jogo. No desfile realizado no shopping da cidade, os figurinos de Adelle Lutz transformam objetos comuns em roupas. Há estampas que imitam paredes de tijolos e peças feitas para parecer grama. É engraçado, mas também revela muito sobre aquele universo: em Virgil, qualquer coisa pode virar espetáculo.
A música dá outro movimento ao filme. Em “Wild Wild Life”, os moradores sobem ao palco de um bar e fazem playback da canção dos Talking Heads. A sequência mistura os personagens com estrelas pop, referências à televisão e brincadeiras com a linguagem dos videoclipes.
Parte das imagens foi aproveitada no próprio videoclipe da música, que ganhou o prêmio de Melhor Vídeo de Grupo no MTV Video Music Awards de 1987.
No centro da história está Louis Fyne, o solteirão interpretado por John Goodman. É um dos primeiros grandes papéis do ator no cinema. Goodman vinha do teatro e havia chamado atenção na Broadway, no musical Big River, de 1985. Pouco depois, Byrne o escalou para viver Louis, um homem grande, solitário e romântico que anuncia na televisão sua procura por uma esposa.
O personagem poderia facilmente virar uma caricatura. Não vira. True Stories trata Louis com afeto, e sua participação culmina em “People Like Us”, uma das cenas mais lembradas do filme. Goodman construiria nas décadas seguintes uma longa carreira no cinema e na televisão. Louis Fyne, porém, permanece como um dos personagens que ajudam a entender o começo dessa trajetória.
A restauração digital em 4K lançada pela Criterion Collection, supervisionada por Byrne e Lachman, também recolocou em evidência um dos aspectos mais marcantes do longa: sua construção visual.

O aniversário de True Stories coincide ainda com os 50 anos do Talking Heads. Em setembro, Byrne, Tina Weymouth, Chris Frantz e Jerry Harrison voltaram a aparecer juntos em uma conversa com o público nos estúdios da SiriusXM, em Nova York. A ocasião marcou o lançamento da Talking Heads Radio, canal temporário dedicado à música e à história do grupo.
A coincidência ajuda a recolocar True Stories em perspectiva. O filme nasceu quando os Talking Heads ainda estavam no centro da cultura pop. Sua maneira de observar a vida americana, no entanto, continua atual. Os personagens vivem cercados por televisão, publicidade, tecnologia, consumo e pela vontade de chamar a atenção.
Hoje, essa busca por visibilidade também acontece nas telas dos celulares e nas redes sociais. Não é preciso dizer que Byrne previu a internet para perceber a aproximação. O que True Stories captou foi algo mais antigo: a disposição humana de fazer o que for preciso para ser visto, de transformar uma excentricidade em espetáculo e de descobrir alguma coisa em si mesmo que possa interessar aos outros.
Em Virgil, isso aparece de várias formas. Há quem queira mostrar uma roupa, uma habilidade, uma história ou simplesmente uma maneira peculiar de viver. A televisão era o meio disponível naquele momento. Quarenta anos depois, qualquer pessoa pode colocar sua própria vida diante de uma câmera e encontrar uma plateia. Mudaram as ferramentas, mas não necessariamente o impulso.
É por isso que Virgil continua funcionando. A cidade é inventada, os personagens são exagerados e muitas das situações parecem absurdas. Ainda assim, existe alguma coisa familiar neles. Talvez porque aquelas pessoas, com suas manias e excentricidades, não estejam tão distantes de quem hoje faz de tudo para aparecer numa tela.
Talvez seja essa a força de True Stories: olhar para pessoas comuns e encontrar nelas histórias que merecem ser contadas.
SERVIÇO
True Stories (1986)
Direção: David Byrne
Duração: 89 minutos
Onde assistir: No Brasil, o filme não está disponível atualmente em serviços de streaming. Pode ser encontrado em lojas digitais ou em edições físicas, dependendo da região e da disponibilidade