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Alejandro G. Iñárritu mistura catástrofe ambiental, política e humor em uma história exagerada, mas cheia de semelhanças com a realidade do negacionismo e da política ambiental

TEXTO Humberto Santos

06 de Outubro de 2026

O ator Tom Cruise recebeu próteses e maquiagem para se transformar no personagem Digger Rockwell

O ator Tom Cruise recebeu próteses e maquiagem para se transformar no personagem Digger Rockwell

Foto Warner Bros./Divulgação

Atenção: a matéria contém spoilers.

Há uma cena em Digger em que um cientista tenta explicar uma catástrofe ambiental ao presidente dos Estados Unidos, interpretado por John Goodman. Ele mal consegue terminar. O presidente o interrompe, perde a paciência e praticamente manda o cientista calar a boca. Em vez de discutir os dados, recusa-se a ouvir o que está sendo dito.

Ao redor deles, uma crise ambiental de grandes proporções começa a se espalhar. Uma operação de petróleo na Groenlândia provoca um vazamento de metano e uma explosão que faz uma enorme parte da geleira se desprender, desencadeando uma série de consequências. O cientista Dr. Ganesh, vivido por Riz Ahmed, tenta alertar as autoridades, mas encontra um governo mais interessado em controlar a informação e a narrativa para esconder a dimensão do desastre do que em ouvir os dados.

Do outro lado está Digger Rockwell, o bilionário do petróleo vivido por Tom Cruise. Ele também tem muito a perder se a dimensão do desastre vier à tona. É nesse ambiente que Iñárritu constrói a comédia, exagerando situações que, nos últimos anos, deixaram de parecer tão absurdas.

A ciência é tratada como inconveniente, os interesses econômicos pesam nas decisões do governo e a preocupação ambiental disputa espaço com a necessidade de controlar o discurso público. A comparação com Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick, é clara: os dois filmes usam o humor para lidar com situações em que decisões políticas podem produzir consequências enormes. Mas Digger olha para um problema mais próximo do nosso tempo, na relação entre poder econômico, crise ambiental, informação e política.

O presidente de Goodman tem traços que lembram Donald Trump, sobretudo na maneira de lidar com informações incômodas e na preocupação com a própria imagem. Para o público brasileiro, algumas situações também podem lembrar o período de Jair Bolsonaro, especialmente os conflitos em torno da ciência durante a pandemia de Covid-19. A diferença é que, aqui, o filme transforma em ficção um comportamento que já vimos diante de uma crise real.

Tom Cruise aparece irreconhecível como Digger Rockwell. A transformação exigiu próteses e maquiagem para envelhecer o ator, deixá-lo careca e alterar seu corpo. O elenco ainda tem Sandra Hüller, como Emma, e Jesse Plemons, como Kenny.

Quando a história parece caminhar para uma sátira convencional sobre uma catástrofe ambiental, o filme muda de direção. Descobrimos que o que estamos vendo é uma peça chamada Fossil Fools, encenada décadas depois dos acontecimentos que ela retrata. O desastre ambiental aconteceu de fato naquele universo; o que acompanhávamos até então era a representação desse desastre no palco.

Tom Cruise também não é Digger Rockwell. Ele interpreta Curtis, um ator que vive o bilionário do petróleo na peça. Kenny, personagem de Plemons, é sobrinho do verdadeiro Digger e está envolvido na produção.

A mudança pode causar estranhamento porque a crítica ambiental e política passa a dividir espaço com outra questão: o que acontece quando uma tragédia real vira espetáculo? O próprio Curtis questiona a maneira como Digger é representado. Transformar o responsável por uma catástrofe em um personagem quase caricatural pode facilitar o riso, mas também simplificar demais aquilo que aconteceu.

É aí que Digger começa a discutir a própria função da sátira. Rir de quem ajudou a provocar uma tragédia é uma forma de expor sua responsabilidade ou uma maneira confortável de olhar para o problema depois que tudo já aconteceu? A peça não desfaz o desastre. Depois da apresentação, o mundo lá fora continua devastado. O público pode rir, aplaudir e sair do teatro, mas a realidade retratada no palco permanece.

O tom irônico de Digger também aparece na campanha de divulgação, que apostou em músicas conhecidas como “Burning Down the House”, do Talking Heads; “Money for Nothing”, do Dire Straits; e “O Green World”, do Gorillaz. São músicas marcadas pela ironia, pelo humor e, em alguns casos, por uma provocação que combina com o espírito do filme. As três aparecem em teasers e trailers e ajudam a reforçar o clima caótico de Digger, mas não fazem parte da trilha original. A música do filme é assinada por Cosmo Sheldrake, que mistura orquestração, eletrônica e gravações de sons da natureza. Entre as peças, há uma que usa cantos de aves ameaçadas e outra que incorpora sons de baleias. Iñárritu chegou ao compositor depois de ouvir “Nightingale”, faixa construída apenas com cantos de pássaros.

Tom Cruise interpreta dois papéis em "Digger", de Iñárritu. Foto: Warner Bros. Divulgação

A recepção de Digger foi dividida. Há críticos que elogiam a ousadia do filme e a atuação de Tom Cruise, enquanto outros consideram a sátira excessiva, confusa ou pouco engraçada. No Rotten Tomatoes, a produção aparece com 51% de aprovação da crítica.

No fim, Digger não está apenas perguntando quem provocou a catástrofe, mas o que fazemos depois dela. Transformamos os responsáveis em caricaturas? Rimos deles? Criamos uma narrativa que nos permita entender o que aconteceu? A arte pode ajudar a lembrar e provocar, mas também pode transformar uma tragédia em espetáculo e criar uma distância confortável entre o público e o problema.

Iñárritu inventa um mundo em ruínas, um bilionário do petróleo e uma peça sobre o fim de tudo. O mais desconfortável é perceber que, quando a ficção começa a discutir a maneira como transformamos tragédias em espetáculo, ela volta a se aproximar demais da realidade.

SERVIÇO
Digger
Direção: Alejandro G. Iñárritu
Elenco: Tom Cruise, John Goodman, Riz Ahmed, Sandra Hüller, Jesse Plemons e Sophie Wilde
Gênero: Comédia, drama e sátira
País: Estados Unidos
Ano: 2026
Em cartaz nos cinemas

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