Foto Mario Helio
A peça Vinte!, apresentada, ontem, no Teatro Cleon Jacques, deu prosseguimento ao Festival de Curitiba, o maior evento do gênero no Brasil, em sua 34ª edição. A sala, de pouco mais de sessenta lugares, estava lotada. Entre os 100% de mestiços presentes, havia talvez uns cinco com a predominante aparência de negros. O mesmo número dos que ocuparam o palco. Palco é modo dizer, pois a apresentação ocorreu numa sala cuja disposição das cadeiras acentuou a proximidade entre quem assiste e o espetáculo que se desenrola.
O espetáculo, que evoca, invoca e foca a história do Brasil: a desigualdade e as lutas dos afrodescendentes, obviamente. Exprime e expõe um "nós" que o país levou mais de um século para assumir. Ou, nem tanto assim, pois o que se vê atualmente, é, no que diz respeito a ideologias, menos a explicitação de um orgulho generalizado de um país negro, e mais a reivindicação de um "preteamento" - outra face da moeda do que se propunha há mais de um século: o "branqueamento".
Embora o material de divulgação da peça a vincule a um combate – o clichê do "apagamento" – ela é, felizmente, mais. Mais do que um discurso ou uma ferramenta de ativismo que vem sendo repisado nos últimos anos. Não que isso esteja ausente, ou seja desnecessário, mas a dramaturgia - Prêmio Shell – sustenta com vigor a obra e a faz mais do que uma pregação politicamente correta. Na relevância da poesia - no sentido estético da palavra – está o principal mérito do espetáculo.
Combinando de maneira equilibrada fala, dança, música e recursos sonoros, Vinte! ensina e diverte, ao mesmo tempo, e em qualquer ordem. As características de fragmentação e colagem são intencionais, pois trata-se de um pot-pourri da história da Companhia Negra de Revistas.
Que a apresentação ocorra exatamente um século após a breve e intensa atuação da Companhia Negra reforça o assunto, pois as efemérides estão entre as obsessões da cultura ibero-americana, onde está o Brasil. Também sua relação complexa com a própria identidade. Vinte! problematiza de modo inteligente a história cultural do país de Zumbi e dos zumbis de sua autoestima coletiva, que tentam simplificá-la em cores. Quem sabe para escapar do claro-escuro da tal cordialidade.
Vinte! não se limita a ensinar e a divertir. Estimula os sentidos do corpo e os sentidos da história e da cultura. A percussão musical e a coreografia não são meros adornos ou recursos cênicos. Homenageiam João Cândido Ferreira, o Du Chocolat (1885–1956). Outra data "redonda" poderia servir de pretexto para revisitar a história de Jocanfer, nos setenta anos de sua morte, aos 69 anos de idade. A peça não o mostra didática ou pedagogicamente – ainda bem –, mas a maneira como o articula pode ser um bom estímulo para conhecer a sua história e a História.
Uma das peculiaridades e dos muito paradoxos do Brasil é ser um país imediatista e apressado, para muitas coisas, e lento, preguiçoso e demorado para outras. Encontrar sua “cara metade” negra tem ocorrido nos últimos anos muito por impulso da agenda woke importada dos Estados Unidos. O baiano carioca João Cândido pode ser uma motivação para a redescoberta. Ou mesmo descoberta. De outros nomes e outras histórias, que caíram no esquecimento, ou nunca foram parte da memória coletiva. De um país tão pouco afeito a assumir os seus ridículos e equívocos, como é o Brasil. Por vezes resolve reconhecer a grandeza do que, antes, desprezava. Daí a impressão de que está sempre começando, ou recomeçando.
Não surpreende, portanto, que Vinte! repise tanto a ideia de “começo”, na convergência dos tempos, no seu paralelismo até. Algo que aliás, já o tinham feito antes, Haroldo de Campos, nas suas Galáxias, Gilberto Freyre no seu “tempo tríbio”, e outros. A novidade em Vinte! é o oportuno remeter não a Santo Agostinho – que, por sinal, era africano –, mas ao politeísmo da África, e a sua pluralidade inclusive temporal, na ideia de tempo cíclico.
Outro aspecto saudável em Vinte! é que, embora no discurso tome satisfações a favor do “preto total”, vai além disso. Implica, por exemplo, na história e na própria estrutura da peça, a palavra fuga, com a sua riqueza semântica. Até se refere explicitamente ao sentido musical de fuga. Que não é só uma coisa europeia – amaldiçoada pelos extremistas woke -, mas é também europeia, e tem no alemão Bach um dos seus máximos expoentes.
Vinte!, como um maracatu, só pode ser apreendida, nas suas sutilezas, por imersão e crença. Por empatia deliberada. Entre os critérios propostos por Fernando Pessoa para interpretar símbolos estavam a simpatia, a intuição, a inteligência e a compreensão. Fixemo-nos neste último, assim definido pelo poeta: "A compreensão é uma qualidade que ajuda a entender a relação entre o símbolo e o contexto em que ele se encontra."
A maioria conhece o maracatu como coisa da música e dança de Pernambuco. Poucos, porém, se dão conta do seu caráter religioso. Não basta a “suspensão deliberada da descrença” para compreendê-lo. É preciso uma imersão dos sentidos para perceber os seus sentidos. Um mergulho sem o oxigênio auxiliar. Por sinal, há um momento em Vinte! em que a respiração, no sentido mais literal, é trazida à tona. A monotonia polifônica aí – o maracatu também é assim – pede mais do que a contemplação para que seja mais completa e prazerosamente assimilada.
Uns 15 minutos, pelo menos, da peça, exploram, concentradamente, a coreografia e efeitos sonoros. Sim, o corpo fala. Não como o best-seller da comunicação. Fala também com suas fendas, falhas e faltas. Mas, sobretudo, com sua presença viva, seu movimento, sua energia. Uma das virtudes de Vinte! está na combinação dos gestos e das palavras. Estas como a compor um longo poema em prosa. Num certo momento, o texto se refere a “corpo-cidade”, a uma “cidade que dança”, a “movimento de povo e corpo”. É assim que deve ser vista, ou melhor, vestida a peça.