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Um público nacional ainda em construção

Estratégias criadas por realizadores para que os filmes brasileiros sejam vistos nos circuitos comercial e independente

TEXTO Luciana Veras

01 de Outubro de 2015

'Já visto, jamais visto', de Andrea Tonacci, tem distribuição com foco em salas de periferia

'Já visto, jamais visto', de Andrea Tonacci, tem distribuição com foco em salas de periferia

Foto Andrea Tonacci

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 178 | out 2015]

De acordo com o censo do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística/IBGE de 2014, o Brasil possui 203.450 milhões de habitantes, divididos em 5.570 municípios, dos quais 385 são dotados de salas de exibição – um total de 6,91%. Segundo a Agência Nacional do Cinema/Ancine, existem 758 complexos cinematográficos e 2.957 salas. Entre janeiro e julho de 2015, conforme dados dessa agência, esse parque exibidor recebeu 90,4 milhões de espectadores, contingente 12% maior em relação ao público do primeiro semestre de 2014. Cerca de 83 milhões viram produções estrangeiras, como os três primeiros no ranking de bilheteria, Vingadores – A era de Ultron, Velozes e furiosos 7 Cinquenta tons de cinza; e aproximadamente 7,4 milhões de brasileiros pagaram ingresso para ver filmes nacionais. Entretanto, o quantitativo de espectadores da produção brasileira diminuiu 35,7% em comparação ao mesmo período em 2014.

Como dar visibilidade à produção autoral ou ao “novíssimo cinema brasileiro”? Para Sílvia Cruz, da Vitrine Filmes, distribuidora de Hoje eu quero voltar sozinho (2014), de Daniel Ribeiro (206 mil espectadores), O som ao redor (2012), de Kleber Mendonça Filho (130 mil espectadores), e Branco sai preto fica (2014), de Adirley Queirós (16º colocado na hierarquia das 20 produções nacionais mais vistas em 2015), a via é recorrer à ferramenta de potencial mais democratizador – a internet.

“Colocamos as peças promocionais com custo menor e alcance muito mais amplo na própria página da distribuidora no Facebook, que atinge um público que já sabe que quer ver esse tipo de filme. Fora isso, nossos filmes têm uma cauda longa. O lançamento no cinema é só o começo: depois vêm a TV fechada, o NetNow, o iTunes, o Netflix. Passam a existir por um tempo indefinido”, diz Sílvia, cuja empresa funciona desde 2011 e tem 60 filmes no currículo – com os quais, brinca, “a Vitrine faz um casamento”.

Há uma década, o cineasta pernambucano Marcelo Gomes fazia história ao inaugurar a participação do estado no Festival de CannesCinema, aspirinas e urubus representava o Brasil, junto a Cidade baixa, do baiano Sérgio Machado, na mostra Un certain regard. Os DVDs de Aspirinas se esgotaram, mas quem quiser vê-lo, basta ir ao YouTube. “O filme está lá e todo dia penso em tirar, mas quando vejo que já tem 250 mil visualizações, fico com vontade de disponibilizar tudo. Viajo porque preciso, volto porque te amo passou seis meses em cartaz no México. Toda semana algum mexicano me escreve para saber dos filmes. Ou seja, os dados de bilheteria são muito relativos para medir o alcance desse cinema”, opina Gomes.


O cineasta Eduardo Valente coordena programa de intercâmbio com festivais estrangeiros. Foto: Ancine/Divulgação

Radicado há muito em São Paulo, o italiano Andrea Tonacci endossa o argumento: “Serras da desordem circulou em dezenas de aldeias indígenas. Em Belém, vi uma garotada que vinha do Amazonas, jovens ribeirinhos de pequenos vilarejos com DVDs que fizeram o filme circular. Passou totalmente por fora do crivo da Ancine. Os filmes, aliás, circulam à revelia disso”. Já visto jamais visto, seu novo filme, foi abraçado pela Empresa de Cinema e Audiovisual de São Paulo/SPCine, criada pela secretaria municipal de cultura da capital paulista em conjunto com o governo estadual. “Como o projeto deles é passar em salas de periferia, não vou ter a referência de pessoas mais próximas dessa cultura autocentrada. Vai ser uma experiência interessante”, antevê.

Esse deslocamento – levar o cinema autoral para a periferia ou inseri-lo nas salas de shopping centers – é defendido também pelo publicitário pernambucano Fernando Lima, responsável pelo desenho de comunicação e lançamento de Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda, de A história da eternidade (2014), de Camilo Cavalcante, e do novo Big jato (2015), de Cláudio Assis, entre outros: “Uma estratégia nova tem sido começar o lançamento de um filme autoral em salas mais comerciais, para despertar a atenção de quem não reconhece aquele cinema de arte”. Ele e a publicitária Ivana de Souza, sócios na änimä branding, ratificam a necessidade de se pensar a tática de acordo com as especificidades de cada obra. “Não é porque o filme é autoral que a estratégia é a mesma. Temos que buscar no DNA de cada um a chave para a comunicação. Em Tatuagem, por exemplo, a propaganda foi toda vernacular e a comunicação, baseada em guerrilha, porque se tratava de um filme passado numa década em que a propaganda e a comunicação eram assim”, comenta a dupla.

CIRCUITO INTERNACIONAL
As características exclusivas da produção contemporânea e a distância geográfica impeliram a Ancine a criar o programa Encontros com o cinema brasileiro, uma parceria com o Ministério das Relações Exteriores, que possibilita a visita de curadores dos principais festivais do mundo –CannesVenezaBerlimLocarnoRotterdamSundanceToronto e San Sebastian, entre outros. “No trabalho constante com os festivais, percebemos que os curadores tinham uma visão parcial e incompleta da contemporaneidade. Por um lado, muitos dos filmes não se inscrevem, pois há custos financeiros, e muitos cineastas, principalmente os mais jovens, acham que não têm chance ou que determinado festival só seleciona medalhões. Por outro, era a chance de permitir aos festivais ter esse entendimento do que é produzido a cada ano no Brasil. A ideia não é que eles passem a selecionar mais, e, sim, que possam selecionar melhor com as informações à mão”, detalha o assessor de relações internacionais da Ancine, o cineasta Eduardo Valente.

Encontros com o cinema brasileiro existe desde junho de 2013. Boi neon, de Gabriel Mascaro, foi visto pelos curadores de Toronto e Veneza no programa. O Brasil, para Eduardo Valente, não vive uma realidade distante da França: “Lá também existe a dificuldade de chamar a atenção do público para a oferta nacional. Não é fácil para um autor independente francês, ou mesmo americano, ser visto em seus países. O mercado está mais perverso”. Portanto, é preciso criatividade e arrojo para que as obras sejam referendadas lá fora, mas sobretudo vistas e reconhecidas aqui dentro. 

LUCIANA VERAS, repórter especial da revista Continente.

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