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Paixão: Uma bomba que explode no peito

TEXTO Fábio Lucas

01 de Fevereiro de 2014

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 158 | fevereiro 2014]

"Ao se deparar com a coisa mais bonita do mundo:
1. Certifique-se de que ela existe. 2. Observe-a minuciosamente. Pode ser que ela evapore. 3. Ouça a coisa mais bonita do mundo. 4. Deite a coisa mais bonita do mundo sobre a superfície mais confortável do mundo. 5. Ame-a imensamente.” Pela eterna reelaboração cultural, vê-se que o amor é uma espécie de pergunta perfeita, cuja resposta não pode ser suficientemente expressa. Mas a resposta parece óbvia, quando sua personificação surge diante dos olhos. É “a coisa mais bonita do mundo”, como escreve o autor do texto que abre este parágrafo, ator e poeta Gregório Duvivier, no seu livro Ligue os pontos – poemas de amor e big bang.

A paixão provoca ondas no corpo e na mente. Gera intranquilidade, insônia, calores, temores. O sistema límbico trabalha em carga máxima, a tal ponto, que níveis elevados de alguns hormônios, como a ocitocina e a dopamina, caracterizam a ocorrência da paixão. Dentro do corpo há uma explosão causada pela visão ou notícia de repente trazida pelo mundo e à qual não podemos mais mostrar indiferença.

Tamanha correnteza emocional, experimentada individualmente, é vista no espelho da cultura sob a luz da perspectiva coletiva. A paixão também dá tesão poético. “O meu amor faísca na medula”, confessava Carlos Drummond de Andrade, no primeiro verso do poema Os poderes infernais. E Mia Couto, no romance Antes de nascer o mundo: “Sou o papel que espera pela tua mão, sou a letra que aguarda pelo afago dos teus olhos”.

O amor provoca ânsias de expectativa, à espera da consumação, à espreita da liberdade de amar. É também a descoberta fundadora de um estado de espírito, como se não repetisse nenhum padrão. Gaston Bachelard cunhou uma frase inesquecível na sua Psicanálise do fogo: “O amor é um fogo que se descobre, o fogo é um amor que se transmite”.

Na essência da visão romântica, a loucura e a liberdade se confundem. Nessa indistinção, a necessidade de fazer do ideal realidade, e da realidade algo imutável e eterno, permanece, insuflada pelos mitos de predestinação mútua e do alheamento do tempo cronológico por obra mágica do condão amoroso.

Numa cena do filme Ghost: do outro lado da vida, o romantismo atravessa a fronteira da existência terrena e se revela presente até depois da morte. “É impressionante, Molly, o amor que sentimos levamos junto conosco”, garante o protagonista, um fantasma interpretado por Patrick Swayze, à inconsolável viúva vivida por Demi Moore. Já em Vanilla sky, um atormentado Tom Cruise declara ao espectro virtual de Penélope Cruz: “Estou congelado, você está morta... e, mesmo assim, eu te amo”.

Em ambos os casos, a tragédia do interrompido, ou não acontecido, que contabiliza vários modelos literários, como o medieval Tristão e Isolda, ou Romeu e Julieta, de Shakespeare, faz do amor ideal, mais uma vez, perfeito: imune à realidade, o sonho pode seguir intacto. No mirante trágico, o amor é “impotente diante da própria potência” – roubando a expressão de Affonso Romano de Sant’Anna.

O romantismo faz o amor oscilar entre dois polos absolutos: o destino que forja uma alma gêmea, e a eternidade que sustenta a ilusão de que a condição de turbulência apaixonada não mudará. O sentimento estaria isolado no tempo como um casal se esconde no espaço, numa ilha de dois ocupantes protegida dos perigos e tentações do mundo. A realidade, para o amor, é outra – nova na paixão, inquebrável na duração, inviolável na imaginação.

INCOMPLETUDE
“O amor não precisa começar a partir de nenhum estrondo hormonal, mas de uma sutileza, de uma amarração que nos arremessa para o enigma do outro sexo. Para a psicanálise, o amor é uma construção a partir do encontro com a diferença”, diz a psicanalista lacaniana Bianca Coutinho Dias. “O amor romântico tão alardeado pelo discurso capitalista é um empuxo à completude. O amor, para a psicanálise, é justamente aquilo que te descompleta, é algo que te faz operar a partir da falta e te coloca em movimento constante.”

Nada de encaixe, portanto, de almas separadas, arrancadas de um ser único de origem mitológica, das mil e uma maneiras conclamadas pela cultura todos os dias. “Não existe ninguém que possa completar outro alguém. Essa é uma relação imaginária com o amor. O encontro com o outro se dá nessa construção simbólica a partir da estranheza e da alteridade radical que o outro é”, explica Bianca Dias, que é coordenadora do núcleo de investigação em arte e psicanálise do Instituto Figueiredo Ferraz, em Ribeirão Preto (SP).

O professor da Universidade Católica de Salvador José Menezes recorda um dos mais recorrentes conceitos da atualidade, os “tempos líquidos” de Zygmunt Bauman, em que a velocidade das trocas estimulada pelo consumo torna tudo provisório, inclusive as relações afetivas.

“Uma propriedade do estado líquido das coisas é fluir, escorrer, jamais se assentar. Adicione a isso uma sacada de Marx: a contemporaneidade transforma as pessoas em coisas. Ora, vamos nos perguntar o que é o amor. Grosso modo, a literatura especializada tende a dizer que o amor é uma experiência humana mediante a qual eu coloco um outro sujeito no centro de minha existência. Nessa perspectiva, o amado jamais pode ser uma coisa. É, antes, um sujeito, singular, descrito de forma muito singela, mas bem próximo à rosa do Pequeno Príncipe, que ele não troca por qualquer jardim de rosas”, compara Menezes.

Enquanto a lógica do mercado ataca a mitologia romântica, ao menos superficialmente, em paralelo, o romantismo cultural devolve ao mercado cada vez mais apelos e demandas românticas. “Se a experiência de intimidade perde a consistência (porque é fluida, não há projetos, nem interesse pelo que o outro seja, mas pelo que eu projeto nele ou nela), se o outro é objeto e não sujeito, vale então a lei do mercado: circulação de corpos. Não nos encontramos com pessoas, mas com coisas úteis enquanto exploramos sua novidade. Gastou a novidade, adquirem-se outras coisas”, afirma José Menezes.

“Queremos que o sentimento da paixão seja eterno, pois a reciprocidade da paixão alimenta a nossa autoestima”, defende a publicitária Ana Lima. “Na verdade, não queremos nos apaixonar, queremos encantar o outro.” Nesse contexto, segundo ela, a propaganda parte da premissa da sedução. Nos comerciais – porque se tem uma coisa que vende é o romantismo –, todos aparecem felizes. “Isso faz com que o público endoide atrás dessa felicidade fabricada”, comenta ela.

Quando a paixão acaba, o anticlímax esbarra numa realidade imprevista, desafiando a estabilidade emocional e psíquica de quem acreditou no discurso fabricado. Mas o mau desfecho não precisa ser traumático, ressalva Bianca Dias: assim como uma relação não precisa começar com fogos, também não tem que terminar em melancolia. “Podemos fazer o luto do objeto e aí aprendermos a amar a partir de um ponto outro. Ao contrário da melancolia, o amor pode nos lançar para a vida naquilo que ela tem de terrível e maravilhoso. É um desafio que se situa além dessa paixão romântica e algo infinitamente maior, que vai além do narcisismo e onde dois não fazem um.”

A eternidade cara ao romantismo pode ser reelaborada pela verdade do amor vivido. “O amor é uma invenção. Não acaba nunca. Enquanto há desejo e amor ao enigma, ele pode ser reconstruído”, avalia a psicanalista. “Aliás, como dizia Paulo Mendes Campos, ele acaba, mas para recomeçar em outros lugares. É a nossa maior invenção e sem a qual não nos humanizamos. Como cada relação vai se constituir é algo absolutamente singular e que só podemos conhecer no um a um de cada parceria.” 

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