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Fefa Lins abre exposição na Amparo 60

"Maravilhosa Catástrofe" tem abertura, na quarta-feira (3), com 15 trabalhos produzidos entre 2024 e 2025 e nos quais o artista visual pernambucano fabula sua própria imagem

02 de Junho de 2026

Foto Reprodução

A Amparo 60 inaugura nesta quarta-feira (3), às 19h, Maravilhosa Catástrofe, exposição individual de Fefa Lins com curadoria de Guilherme Moraes. A mostra reúne pinturas produzidas entre 2024 e 2025 em que o artista fabula sua própria imagem e reinscreve o corpo na tradição do retrato — atravessando a iconografia cristã, o carnaval de Olinda e a história da arte pernambucana para construir um território de desejo, transformação e excesso.

São 15 trabalhos — 10 pinturas sobre tela e 5 pinturas sobre escombros —, em dimensões variadas, em sua maioria inéditas. "A ideia de Maravilhosa Catástrofe surgiu a partir de uma percepção que atravessa toda a exposição: certos colapsos não representam apenas destruição, mas também transformação. Tenho pensado na catástrofe não como um fim absoluto, mas como um momento de ruptura capaz de deslocar estruturas e abrir espaço para outras formas de vida", diz o artista.

Em obras como Encontre a beleza da fera (Tormentos de Santo Antão), Fefa desloca a cena clássica do eremita incorruptível diante das tentações — pintada por Michelângelo — para um campo de entrega e contato. No lugar da renúncia, o êxtase. O artista se autorretrata levitando, nu, sobre o centro do Recife, doando o corpo às criaturas que o cercam. Como observa o curador Guilherme Moraes, "sua pintura faz ruir um pedaço de mundo para, sobre esses escombros, entre a desgraça e a glória de viver, cair em festa".

Facas e cortes são imagens recorrentes ao longo da mostra — associadas, entre outras coisas, à experiência do artista com a mastectomia e à elaboração do próprio corpo através da pintura. Para Fefa, o corte carrega uma ambiguidade essencial: "Um corte pode ser violência, mas também pode ser abertura. Pode representar uma ruptura, mas também a possibilidade de acesso a algo que estava escondido. Me interessa a ideia da ferida como transformação. Existe também uma relação com a pintura. Pintar é, de certa forma, abrir camadas, revelar e esconder coisas continuamente. O corte funciona como uma imagem que torna visível esse processo de transformação". Autorretratos grandiloquentes convivem com cenas embriagadas do carnaval de Olinda, onde o artista se representa na multidão — embaralhando códigos de gênero, heroísmo e vulnerabilidade em figuras que oscilam entre o êxtase e a ruína, entre a teatralidade e a intimidade.

Embora o autorretrato siga sendo um ponto de partida, a exposição expande a pesquisa para além da figura humana. Paisagem, arquitetura e objetos emergem como extensões do corpo, atravessados pelos mesmos processos de transformação. Recife está presente nas pinturas — não de forma documental, mas filtrada pela memória e pela imaginação. "De certa forma, continuo fazendo autorretratos, mas agora eles acontecem também através das ruínas, dos escombros, das plantas, da cidade e das relações que estabeleço com esses elementos", explica o artista. Segundo ele, a exposição não olha para a ruína como um lugar de nostalgia. “O que me interessa é a potência que existe nesses estados de instabilidade. Muitas vezes é através da rachadura, da ferida ou do desabamento que algo novo encontra espaço para existir”.

Com cromatismo vibrante e uma sensibilidade exacerbada que ecoa tanto a teatralidade queer quanto a abertura ao encontro e ao prazer, a exposição propõe um espaço onde destruição e criação deixam de ser opostos. "A palavra 'maravilhosa' aparece justamente nesse sentido. Não para suavizar a violência da catástrofe, mas para reconhecer que a transformação, mesmo quando dolorosa, também pode carregar beleza, desejo e potência", conclui Fefa.

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