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Em mostra, Carolina Drahomiro extrai arte da pós-memória

"Hoje eu subi numa pilha de livros pra estar à sua altura" tem abertura na quinta-feira (4), às 19h, na Torre Malakoff

29 de Maio de 2026

Foto Olivia Leite/Divulgação

Uma fotografia de casamento dos anos 1950, guardada há gerações no álbum de família, revela mais do que a união de um casal de avós. Há, na imagem, um gesto simbólico: a noiva sobre uma pilha de livros para, enfim, estar à altura do noivo. Desse registro — e das histórias transmitidas oralmente entre as mulheres da família — nasce o projeto Hoje eu subi numa pilha de livros pra estar à sua altura, de Carolina Drahomiro, cuja exposição abre na quinta-feira (4), às 19h, na Torre Malakoff.

Com incentivo do Funcultura, a mostra — primeira individual da artista — propõe uma reflexão sobre a força de trabalho da mulher no contexto social, partindo de uma investigação que atravessa memória familiar, pesquisa teórica e experimentação artística. O título, que coloca a mulher como sujeito da própria narrativa ao falar em primeira pessoa, anuncia o tom da proposição: celebrar a voz ativa feminina no âmbito coletivo.

O ponto de partida do projeto é a fotografia dos avós maternos da artista no dia do casamento — imagem que Carolina Drahomiro nunca viu fisicamente, mas que habita seu imaginário a partir dos relatos da mãe e das tias. Na imagem, em plano americano, sua avó materna aparece quase do mesmo tamanho que o seu avô no dia da celebração do seu matrimônio. Apesar de não ser visível, a noiva subiu numa pilha de livros para ficar da mesma altura que o noivo e passou essa memória para suas descendentes. "É uma pós-memória, conceito da teórica Marianne Hirsch que fala sobre aquilo que herdamos por narrativa e não por vivência", explica a artista. Esse conceito fez parte de toda a sua pesquisa de mestrado, na qual investigava como a pós-memória se manifestava nas práticas artísticas. 

Após a conclusão da pesquisa, ao revisitar a imagem, ela concluiu que aquela fotografia íntima de sua família poderia ser entendida como uma pós-memória e decidiu construir um projeto a partir dela. "Passei a vida escutando que minha avó estava sobre livros para ficar à altura do meu avô na foto do casamento. Adulta, percebi que essa imagem carrega um simbolismo que vai muito além da minha história familiar: fala sobre o que mulheres precisam 'subir' — em conhecimento, em esforço — para serem vistas como equivalentes", diz. 

O gesto de colocar a avó sobre livros — um "pedestal de conhecimentos", como define a artista — é o disparador para uma investigação mais ampla. A pesquisa se ancora teoricamente no livro Calibã e a Bruxa: Mulheres, corpos e acumulação primitiva, da escritora italiana Silvia F ederici, que ajuda a compreender a fundação de um sistema trabalhista desigual e a histórica não remuneração de funções atribuídas às mulheres, como o cuidado com a casa, com os filhos e com familiares vulneráveis.

Em contraponto à tradição dos monumentos e pedestais que celebram atos heroicos, a exposição propõe a ideia de "contramonumento" — conceito surgido na Alemanha a partir das obras antifascistas de Jochen Gerz, que busca provocar o debate em vez da mera contemplação. Nesse sentido, a obra só se completa na interação com o público. 

“O antimonumento é um conceito da arte contemporânea pública, em um espaço público, que busca remexer uma memória. Um marco de memória, sem necessariamente ser um objeto edificado, grandioso, sabe? O paralelo que faço com o meu trabalho é que na foto você não consegue ver esse pedestal, a monumentalidade dessa mulher, isso fica num campo subjetivo. Eu quero lembrar esse ato de transgressão da minha avó que foi passando para as suas filhas a ideia de que não dependesse de homem, que tivesse autonomia…”, detalha.

Segundo ela, a pesquisa foi se desenvolvendo de modo muito orgânico. A primeira criação foi justamente utilizar o desenho para representar os pés da sua avó apoiados numa pilha de livros, quase como um complemento à foto. Depois a artista sentiu a necessidade de realizar uma fotoperformance, na qual colocou o seu corpo e a si, meio noiva, meio bruxa, sobre uma pilha de livros, trabalhando o conceito de contramonumento.

O projeto seguiu se desenvolvendo e elementos vindos de outras mulheres de sua família foram se apresentando e abrindo um campo de possibilidades. Sua avó paterna, que desenvolvia um trabalho com boleador fazendo arranjos florais de tecidos, faleceu aos 103 anos. As ferramentas de trabalho e os tecidos usados por ela chegaram até a artista, que foi se apropriando deles e desenvolvendo sua maneira de trabalhar. Ao criar com esses tecidos entendi como se eu estivesse dando continuidade à produção da minha avó, mas agora através do meu repertório”, conta. 

Pouco tempo depois chegou até ela uma sacola cheia de tecidos, herdados por sua mãe de uma tia. O linho precisava ser engomado para virar uma espécie de “tela”, mas enquanto passava o tecido a artista foi percebendo que podia desenhar com o ferro, queimando o tecido. Além disso, algumas dobras foram sendo trabalhadas e através delas a queimadura marcava de formas diferentes as várias camadas, no tecido mais exposto de forma mais forte, ficando cada vez mais leve a cada camada, assim como uma memória que vai sendo passada de geração para geração.



No texto que acompanha a mostra, Guilherme Moraes escreve sobre esses trabalhos: “Carolina Drahomiro desenvolve desenhos de vocação construtiva por meio do vinco e da queima das fibras naturais desse linho. O calor se torna instrumento de uma grafia não pelo depósito de pigmento sobre o suporte, e sim pela queima, assim como confere à planaridade do pano aspectos escultóricos através do vinco”.

A exposição terminou agregando ainda obras da série Histéricas, na qual a artista pedia imagens de vibradores a algumas mulheres e passa a retratá-las. “Numa pesquisa despretensiosa eu descobri que o vibrador foi inventado por um homem para tratar a histeria. As mulheres eram levadas pelos seus maridos para essa clínica para serem tratadas com essa ‘ferramenta médica'. Hoje, esse elemento é usado de forma totalmente recreativa, e representa uma autonomia do feminino. Aí percebi que essa série caminhava no sentido da desobediência da ferramenta, da subversão, da transgressão, e estava em diálogo também com as investigações de Hoje eu subi numa pilha de livros pra estar à sua altura”, detalha.

“Acompanhar essa jornada — esse mergulho na produção artística a partir de uma ideia já tão amadurecida — foi profundamente instigante. Foram muitos encontros online, muitas conversas atravessadas pela vida. Há algo de muito potente nessa convivência entre criação, cuidado e insistência”, destaca Beth da Mata, lembrando que este ano a artista participou de exposições, integrou uma coletiva na Amparo 60 e segue afirmando seu lugar no circuito artístico. “Gosto quando uma artista respeita o tempo de seus próprios processos — e Carol f az isso com rigor e escuta”, pontua.

ARTISTA
Carolina Drahomiro é artista visual multidisciplinar emergente, com práticas que permeiam o desenho, a performance, a fotografia e a vídeo-arte. Arquiteta e urbanista formada pela Unicap, é mestre em Arte e Design para o Espaço Público pela FBAUP (Portugal). Há mais de dez anos, sua pesquisa acadêmica e artística investiga a ocupação do espaço coletivo — tanto em seus suportes físicos quanto no campo subjetivo e identitário. Em seu mestrado, desenvolveu a pesquisa "I'm not site specific: Manifestações da pós-memória nas práticas artísticas", na qual a figura da mulher migrante protagonizava uma narrativa sobre liberdade de trânsito. Hoje eu subi numa pilha de livros pra estar à sua altura marca sua primeira mostra individual.

SERVIÇO
Hoje eu subi numa pilha de livros pra estar à sua altura, de Carolina Drahomiro
Onde: Torre Malakoff - Praça do Arsenal, s/n, Bairro do Recife
Quando: Terça a sexta, 10h às 17h / Domingos, 14h às 18h. Abertura: 4 de junho de 2026, às 19h. Visitação: 5 de junho a 16 de agosto de 2026

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