Autobiografia no palco
O ex-jogador de futebol Walter Casagrande, num exercício de superexposição, conta um pouco da sua vida
TEXTO Mario Helio
04 de Abril de 2026
Foto Annelize Tozetto
No palco havia apenas uma bola, duas cadeiras com microfones e um telão aceso com uma imagem de um campo de futebol. O cenário para uma peça de teatro que se chama Na marca do pênalti. Sobre o comentarista de esportes e ex-futebolista Walter Casagrande. A vida dele como é, por ele próprio contada. No Teatro Guaíra, lotado, ontem, à noite, no Festival de Curitiba, que acontece na capital paranaense até o dia 12 deste mês.
Não foi preciso quase nada daqueles mínimos elementos. Casagrande só fez uso da bola apenas como rápido ponto de partida. Durante mais de uma hora, falou, de pé. Encarou o público que lotava o teatro e contou sua história. Como um a palo seco, aquele tipo de flamenco sem acompanhamento. Ou melhor, cumprindo a proposta feita há quase 200 anos pelo escritor Edgar Allan Poe:
“Se algum homem ambicioso tiver o desejo de revolucionar, de uma só vez, o mundo universal do pensamento, da opinião e do sentimento humanos, a oportunidade é sua — o caminho para a fama imortal estende-se reto, aberto e desimpedido diante dele. Tudo o que ele precisa fazer é escrever e publicar um livrinho. Seu título deve ser simples — algumas palavras claras — Meu coração posto a nu. Mas — esse livrinho deve fazer jus ao seu título.”
O poeta Charles Baudelaire – provavelmente o maior admirador da obra de Poe – cumpriu essa ideia. Restaram fragmentos publicados depois de sua morte. No caso de Walter Casagrande, expôs o seu coração em três livros, escritos em conjunto com o jornalista Gilvan Ribeiro, datados, respectivamente, de 2013, 2016 e 2020: Casagrande e Seus Demônios, Sócrates e Casagrande - Uma história de amor e Travessia.
Mas há uma diferença fundamental entre a proposta do escritor estadunidense e o que realizou Casagrande. Não se trata de “um homem ambicioso”. Apenas um homem comum, que se expôs como uma forma de terapia. Algo que, aliás, confessou, no seu monólogo improvisado, ontem. Eis um gênero que sempre rende êxito: uma celebridade contando, sem censura, sua vida. Ou parte dela. O lado mais sombrio, os claro-escuros e as luzes.
No que diz respeito ao ex-jogador, sua experiência extrema com as drogas narrada sem freios enriquece um outro tipo de alimento cultural. Que tem sucesso garantido, há séculos: a vida como exemplo, e, em alguns casos, superação. As Confissões, de Santo Agostinho, são um pouco assim. Retrato tanto da sua biografia católica quanto mundana e busca pagã, antes da conversão. Em Casagrande não há, porém, nada disso. Apenas uma biografia simples, simplesmente contada. Como em stand up comedy. Sim, como comédia, pois, a despeito das adversidades autoimpostas, resultou feliz.
Alguém poderia até associar o que foi contado a coisa de autoajuda, não fosse a honestidade a palo seco. Expressão que também usou Belchior no título de uma de suas músicas. Belchior que Casagrande confessou ser um dos ídolos populares que mais admira. Canções suas foram, em algum momento, no decorrer da peça, usadas para reforçar o leitmotiv. Certos versos da letra parecem resumir situações vividas por Casagrande, especialmente um episódio central de infância, que foi a morte de uma sua irmã:
Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos lhe direi
"Amigo, eu me desesperava".
Quem, nos tempos de hoje, no strip tease paradoxal da intimidade em público e de "sincericídios" tão proclamados, tem a coragem de falar dos seus medos e desesperos? Walter Casagrande tem. É o anti-Narciso. Proclama o amor, quando as redes sociais estão cheias de ódio, e não tem vergonha de falar dos seus momentos desajeitados, nada "instagramáveis". Virtuoso da amizade, contou de seu amor por dois amigos seus chamados de Magrão. Um deles, o seu colega igualmente famoso, Sócrates. Por coisas assim, Casagrande tem coragem similar ao personagem vocalizado por Álvaro de Campos no “Poema em linha reta”, que assume os próprios ridículos.
Ontem, o Festival de Curitiba promoveu, assim, a nova estreia do "ator" Casagrande. Contando de si mesmo. De sua saison en enfer nas drogas. Mas, diferentemente de outros ídolos futebolísticos de primeiro nível, como Maradona e Garrincha, ele não sucumbiu. Sua receita? O amor por si e pelos que o amam. Trocou a "cultura" da droga pela "droga" da cultura, conforme relatou. Apaixonado pela música, pelo cinema, pelas artes. Foi como se ecoasse o espírito da letra de outra canção:
Eu não vou lhe dizer
Que não tenho defeitos
Mas com eles me arrumo
Me acerto, me ajeito
Meu problema é um segredo
Guardado no peito
Que se chama paixão
Meu vício
É você!
Meu cigarro
É você!
Eu te bebo, eu te fumo
Meu erro maior
Eu aceito, eu assumo
Isso pode servir como analogia ao amor e à paixão explicitados por Casagrande. Não para uma pessoa em particular. Dedicado à arte, à cultura no significado amplo. A cultura no sentido do humano, demasiado humano.