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Curtas

XIV Virtuosi Brasil

Festival de música erudita volta ao formato presencial e homenageia o maestro Rafael Garcia

TEXTO Julia Faeirstein

02 de Maio de 2022

Atração internacional, o Quarteto Boulanger é formado só por mulheres

Atração internacional, o Quarteto Boulanger é formado só por mulheres

Foto Alexandre Rezende/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 257 | maio de 2022]

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Eu era a cabeça e ele, o soldado.” É assim que a pianista e recém-viúva Ana Lúcia Altino procura descrever a relação que existia entre ela e Rafael Garcia no planejamento do Virtuosi, festival de música clássica originalmente pernambucano que se encontra em sua 14ª edição. Pela primeira vez, apenas ela estará no comando da direção artística do evento.

São apenas quatro dias que separam a data de início deste Virtuosi do aniversário de falecimento do seu fundador, o maestro Rafael Garcia, chileno na certidão, mas brasileiro e pernambucano em todos os outros sentidos. Como forma de celebrá-lo, o XIV Virtuosi Brasil contará com realizações para homenagear aquele que já esteve à frente de mais de 200 concertos e, como expressão de seu amor pela música e importância que sempre deu aos serviços culturais, decidiu propagar a música clássica no Estado.

As consequências dessa paixão foram muitas, não apenas dentro do festival, mas especialmente fora dele. Para criar a sua família – que soma filhos, filha, netos e netas –, Garcia chegou a recusar ofertas de trabalho em orquestras dos mais diversos países da Europa, a exemplo da Suécia e Alemanha. Nada disso se tornou um empecilho, muito pelo contrário. Laços fortes se criaram ao longo do tempo e foram eles que permitiram que o Virtuosi alcançasse a importância que tem hoje.

Foi entre risadas, em entrevista dada à Continente, que Ana Lúcia Altino contou das várias vezes que músicos de referência e reconhecimento mundial vieram até Pernambuco para participar do festival. Seu cachê? Na teoria, alguns milhares de euros. Na prática, nada além da amizade e consideração que possuíam por Rafael, a sua família, além do prestígio e magnitude que o Virtuosi tem para o público pernambucano e brasileiro.

Surgido no ano 1998, o Virtuosi foi criado pela necessidade de elaborar algo diferente numa cidade com grande potencial cultural. “O que há para se fazer no Recife?”, indagou Ana Lúcia, antes de deixar que a sua vontade de batalhar pelo desenvolvimento da música no Brasil unisse uma coisa à outra. Assim, nasceu um festival responsável por reunir grandes personalidades de artistas advindas de todo o país e do mundo. Mais de 20 edições foram realizadas em Pernambuco, inclusive em cidades do interior do Estado, como Gravatá, Belo Jardim e Garanhuns. Cerimônias especiais também aconteceram, a exemplo do Virtuosi Brasil, Virtuosi Sem Fronteiras e Virtuosi Século XXI, acompanhadas de masterclasses, workshops e concertos com instrumentistas de múltiplas nacionalidades.

No entanto, o sucesso conquistado nem sempre esteve à vista. Foi cercado por várias dúvidas que o casal de músicos Ana Lúcia e Rafael colocou o projeto em prática. Segundo a pianista, por muito tempo ainda existia o receio de se alguém, de fato, compareceria ao evento. Os motivos variavam, mas um deles permanecia: existe público para música erudita no Recife?

Hoje, é possível dizer que o Virtuosi tem fomentado esse interesse, especialmente por ter desmistificado o conceito de que a música erudita seria uma modalidade acessada apenas pela elite. Segundo Ana Lúcia Altino, em entrevista ao Jornal do Commercio, em 2017, “as pessoas têm dificuldade em ver a música clássica como espetáculo de massa, mas a realidade é que ela é, sim. Nós trabalhamos com uma música que sobrevive há séculos e que não importa a formação do indivíduo, a classe social, atinge a todos; pega pelo sentimento. Música clássica não é, ao contrário do que pensam, música para a elite”.

Não é exagero afirmar, portanto, que são tangíveis os efeitos desse esforço em fazer um gênero musical acessível a todos – sejam pessoas inseridas nas classes A, B, C ou D –, especialmente quando é levado em conta o público agregado pelo Virtuosi, sobretudo por ser um evento aberto ao público.

PROGRAMAÇÃO
Inicialmente com apenas dois dias de concertos, o festival transpôs o objetivo inicial e atingiu novos patamares. Para esta sua 14ª edição, realizada nos dias 12, 13 e 14 de maio, no Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu, Boa Viagem), o público conta com uma programação inteiramente feminina, composta pelo Quarteto Boulanger, a harpista Cristina Braga e a pianista Juliana Steinbach. O quarteto é formado pelas musicistas Jovana Trifunovic, da Sérvia, Flávia Motta, do Brasil, Lina Radovanovic, também da Sérvia, e Ayumi Shigeta, do Japão. Apesar de possuírem diferentes nacionalidades, todas acabaram por se encontrar em território brasileiro através da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, e já estão há quase uma década juntas. Seu nome, Boulanger, é uma homenagem à regente e professora francesa Nadia Boulanger.

A harpista Cristina Braga está na programação. Foto: José Luiz Pederneiras/Divulgação

A harpista e também cantora Cristina Braga é uma das precursoras da harpa brasileira de jazz, tocando samba, choro e bossa. Hoje, dispõe de 16 discos gravados, tendo alguns deles sido lançados em diversos lugares do mundo, a exemplo de Europa, Japão e Estados Unidos. Já performou ao lado de artistas como Nara Leão, Ana Carolina e Zizi Possi.

Para encerrar os três dias de festival, o Virtuosi apresenta a pianista Juliana Steinbach. Nascida em João Pessoa, Paraíba, a artista deu início aos seus estudos musicais na França, quando tinha apenas cinco anos de idade. Desde então, passou pelos Conservatórios de Música de Lyon e Paris, a Accademia Pianistica de Imola, na Itália, e a Juilliard School de Nova York.

Além das atrações principais, o evento abrirá espaço para que jovens solistas consigam realizar uma convocatória em nível regional, na qual os selecionados poderão estar no palco e abrir cada noite do festival, bem como uma série de masterclasses que acontecerá nos dias 12 e 14 de maio, pela manhã, no Teatro, com a presença de instrumentistas das categorias de cordas e piano. A 14ª edição do Virtuosi tem o apoio da Continente. A revista contará com ações promocionais realizadas através de ponto de venda montado no teatro para os dias do evento.

JULIA FAEIRSTEIN é jornalista em formação pela Unicap e repórter estagiária da Continente.

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