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Curtas

Nordeste ficção

Juliana Linhares e sua reinvenção da região brasileira em novo disco

TEXTO Camila Estephania

03 de Maio de 2021

Cantora potiguar propõe um diálogo com 'A invenção do Nordeste', de Durval Muniz.

Cantora potiguar propõe um diálogo com 'A invenção do Nordeste', de Durval Muniz.

Foto Clarice Lissovsky/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 245 | setembro de 2020]

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Há cerca de 10 anos, a cantora e atriz potiguar Juliana Linhares se mudou para o Rio de Janeiro para estudar teatro e, desde então, desejou influenciar mudanças nos conceitos que o Brasil tem sobre o Nordeste. A infância e a adolescência vividas em Natal, no Rio Grande do Norte, fizeram-na testemunha de uma região plural, cuja multiplicidade de cenários, discursos e trilhas sonoras se contrapõe à imagem de atraso disseminada no país. Assim, a vocalista da banda Pietá propõe uma alternativa a essa narrativa com o disco Nordeste ficção, lançado em março deste ano para marcar sua estreia musical solo.

O seu principal enredo são as festividades populares que marcam a cultura nordestina e que estão nas obras de artistas como Elba Ramalho, Amelinha, Cátia de França, Alceu Valença, Belchior, Zé Ramalho, entre outros, que são referências assumidas da artista.

No disco, Juliana vai do São João ao Carnaval. “Acredito que criar narrativas, que não só a da seca e a da estética da fome, abre o olhar para outros nordestes possíveis, cada vez menos estereotipados”, defende a cantora, que traz essa questão na faixa-título, composta a partir da leitura do livro A invenção do Nordeste e outras artes, de Durval Muniz, que tem trecho citado na capa do álbum.

Romper estereótipos nordestinos ao som de ritmos como o forró pé de serra e o frevo pode parecer contraditório, mas a cantora não quis negar as tradições, e, sim, inseri-las nos contextos social e musical contemporâneos.

Um exemplo claro disso é a versão de Tareco e mariola, de Petrúcio Amorim, que ganha arranjo de cello e compasso marcado por reverbs, delays de guitarra e dub jamaicano. “Eu não queria cantar nenhum forró, mas não tive como não gravar essa música, porque ela me acompanhou a vida inteira. É sobre a minha verdade”, explica ela, que, a princípio, planejava fazer um disco de rock, mas não o fez, quando a necessidade de rever sua regionalidade falou mais alto. “Sou vista como nordestina aqui (no Rio) e essa questão se tornou relevante. Por isso pensei em falar desse Nordeste que muitos não conhecem, para tentar diminuir essa fronteira entre regiões e ver se a gente se entende melhor. Não acho que o meu disco faz tudo isso, mas é o ponto de partida dessa história que eu quero contar”, pontua.


Capa do disco. Imagem: Divulgação

Como intérprete, Juliana evidencia a herança regional quando levanta fogo em faixas como Frivião, que lembra do calor provocado pelo aperto e pelo empurra-empurra da folia. O frevo em questão é um manifesto antibolsonarista e faz parte do time de canções que convidam o ouvinte a extravasar de uma forma que Juliana ainda não tinha explorado com a Pietá, que tem uma proposta mais acústica.

“Desde que eu fiz o disco da Iara Ira (projeto em parceria com Duda Brack e Júlia Vargas), que tinha arranjos de bateria mais pesados, senti que queria uma percussão mais cheia que se juntasse à minha performance no palco, que é mais enérgica. Eu não queria ter que segurar nada por conta de um tipo de sonoridade”, explica. Logo na música de abertura, Bombinha, de autoria de Carlos Posada, Juliana anuncia que o canto é a sua explosão particular. Em todo o álbum, essa combustão atinge os ouvintes não só com o peso das palavras, mas principalmente pela performance da voz, que transparece emoções até mesmo em canções mais suaves, como a regravação de Bolero de Isabel, de Jessier Quirino.

Para valorizar ainda mais essa interpretação expressiva, Juliana contou com a direção artística de Marcus Preto que, dentre vários trabalhos na MPB, é conhecido pela recente modernização musical de Gal Costa. “Ele chegou somando no desejo de fazer um disco de cantora mesmo, em que cada faixa fosse um universo, como se fazia antigamente”, observa ela sobre o diretor musical. Preto levantou a bandeira da multipluralidade sonora, primorosamente executada por Elísio Freitas, que assina a produção do disco. Realizado durante a pandemia, o álbum foi todo gravado em home studio e os artistas convidados registraram suas participações em suas próprias casas.

O resultado desse processo virtual é uma ficha técnica extensa e abrilhantada por nomes como o sanfoneiro Mestrinho, no xote Balanceiro; a cantora Letrux, na composição inédita de Tom Zé, Aburguesar; e Zeca Baleiro, em Meu amor afinal de contas. Essa última se tornou a primeira música de trabalho do álbum e foi composta por Juliana em parceria com o músico maranhense. Outro parceiro de composição da potiguar foi o paraibano Chico César, que deu melodia para Embrulho e A lambada da lambida, na qual Juliana celebra o amor entre mulheres.

A convivência harmoniosa entre temas urgentes e sons do passado fazem de Nordeste ficção uma espécie de nostalgia futurística. Em tempos de distanciamento social e restrições, Juliana acredita que a obra pode ser uma injeção de ânimo no brasileiro. “Esse é um momento que a gente precisa de memória para lembrar que a gente está vivo, sem esquecer a sensação poderosa da rua e do encontro. Se esse trabalho acordar o desejo de confraternizar quando tudo passar, eu acho ótimo, porque isso representa perspectiva de futuro”, reconforta-se ela.

CAMILA ESTEPHANIA é jornalista cultural.

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