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Relato

No interior tem uma gente que cria

Produtora, dramaturga e artista circense conta sobre a articulação das artes cênicas no interior de Pernambuco

TEXTO Odília Nunes

01 de Abril de 2021

Odília Nunes é uma das fundadoras da Ripa – Rede Interiorana de Produtores, Técnicos e Artistas de Pernambuco

Odília Nunes é uma das fundadoras da Ripa – Rede Interiorana de Produtores, Técnicos e Artistas de Pernambuco

FOTO Rayra Martins/ Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 244 | abril de 2021]

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Quantos artistas do interior de Pernambuco você conhece? 

Eu sou uma. Atriz, palhaça, dramaturga, cordelista, diretora teatral e produtora. Uma das muitas artistas de artes cênicas do interior deste Pernambuco. Como eu, existem muitos criadores de teatro, circo, música, dança, artes plásticas, literatura, artesanato. Existem Mestres e Mestras populares, produtores, técnicos. Uma teia completa de trabalhadores e trabalhadoras da cultura. Sim. No interior de Pernambuco tem uma gente que cria.

Certa vez, atuando no Rio de Janeiro, uma mulher me perguntou se eu era mesmo nordestina. Respondi prontamente que sim. Sorriso na cara, orgulhosa por ser de onde vim. Mas a mulher me fez, sem faca, um corte no peito. Disse, abismada: “Você é nordestina? Com estes dentes?”. Como se as condições de dentes saudáveis e limpos dependessem da região onde vivemos.

Absurdo, né? Tanto quanto a gente acreditar que a arte, as possibilidades, os bens culturais do Estado só possam estar nos grandes centros urbanos e, em sua grande maioria, nas capitais e área metropolitana. Tão absurdo quanto achar que no sertão do Pajeú, numa comunidade rural, não possa existir um festival de artes integradas. Ou que a maior expressão artística do Estado esteja concentrada na região metropolitana. Esquecemos que Pernambuco não é apenas uma capital litorânea, com uma área metropolitana. Por isso, uma “reparação histórica” precisa urgentemente ser feita, com a criação de políticas públicas para a cultura que abracem os artistas e o povo do interior.

Esta mania nossa de centralizar o mundo. “A cidade é melhor que a área rural. Mas as grandes cidades são melhores que as cidades pequenas. Mas a capital é melhor que as grandes cidades. Mas algumas regiões são melhores que o Nordeste.” E por aí seguimos, sem eira nem beira. Somando, quando a luta nos ofende, e tirando o time de campo, quando temos de dividir com quem tem menos privilégios.

Quando eu tinha 17 anos, tive de sair de Tuparetama, minha cidade natal. Fazer/viver teatro aqui no Pajeú nunca foi simples. E nem me venham com essa conversa de que “não é fácil em canto nenhum deste país”!  Estou falando de ter acesso a um livro de teatro na biblioteca, de ter acesso a um espetáculo. De ter acesso ao edital de incentivo do Estado sem ter de viajar 470 km para entregar um projeto, ou assinar um contrato. Isso é tão caro quanto optar por enviar pelos Correios. Sim. Sabe quanto custa enviar um projeto para o Funcultura desde Exu, Ouricuri, Floresta, Itapetim, para citar algumas das muitas cidades pernambucanas distantes da capital? É sobre ter acesso. É de equidade que estou, aqui, querendo falar. Quando teremos o órgão responsável pela cultura estadual mais perto de nós? Quando o edital do Funcultura será de fato estadual? Distribuindo de forma igualitária, ou pelo menos mais justa, os recursos nas nossas quatro regiões?

Saí com 17 anos e passei outros 17 pra voltar. Voltar foi tão importante quanto foi um dia partir. Voltei por entender minha função de artista no mundo. Sobre o que posso fazer pelo meu território. Voltei e fiz meu êxodo urbano. Vivo hoje no Minadouro, comunidade rural da Ingazeira localizada no alto sertão pernambucano. Há cinco anos desenvolvo aqui o projeto No meu terreiro tem arte, que compartilha arte com comunidades rurais do sertão do Pajeú. O projeto realiza, além de atividades mensais, dois festivais. Um de artes integradas – o Chama Violeta – e um de palhaçaria, o Palhaçada é Coisa Séria. Tenho, nestes cinco anos com o projeto, vivido na prática o que busquei durante toda minha trajetória com o teatro: uma formação de plateia. E assim, vendo o povo se apaixonar pelo teatro, entendo que a falta de acesso à arte priva o povo de direitos básicos. Privar o povo do acesso à arte, ao entretenimento, à educação, à cultura é seguir colonizando o povo.

E como fazer? De quem é a responsabilidade pela desigualdade social que deságua na falta de acesso a bens culturais? De um lado da pirâmide, tem o povo que, quando tem possibilidade de encantamento, se encanta. Na outra extremidade, estão os artistas, que seguem na peleja de sobreviver de sua arte. No topo está o Estado, com suas leis burocráticas e políticas excludentes.
 
Teatro de Retalhos realizou o projeto O interior. Foto: Willian Tenório/Divulgação

Como eu, existem muitos companheiros e companheiras que partiram de seus territórios por acreditarem ser necessária essa busca por oportunidades. Mas existem também os que sabiamente escolheram ficar. Artistas das mais diversas linguagens atuando ativamente no interior pernambucano, mesmo tendo de lutar com um leão por dia para conseguir comer e pagar suas contas. E há também os que retornam para casa por entenderem a possibilidade de revolução. Sim, é uma revolução atuar no nosso próprio território. Insistir. Compartilhar arte com pessoas que nunca tiveram acesso. Transformar os terreiros em picadeiro. As estrelas do sertão em lona de circo. Formar uma plateia. Criar as possibilidades. Tirar de onde não tem pra colocar onde falta.

Apesar da distância física entre muitos destes criadores, quando pensamos nas dificuldades para produzir do lugar onde estamos, entendemos que os problemas se repetem. E assim, sempre que possível, diversos artistas discutem as mesmas necessidades. A mais constante, o edital de fundo de cultura do Estado. As escassas políticas públicas de regionalização. O desejo por uma resistência constante a todas as colonialidades. O trazer à tona e aprofundar o processo histórico e político de constante resistência no interior. 

RIPA
A partir dessa observação, muitos de nós sabíamos da necessidade de uma rede de afeto e solidariedade entre estes trabalhadores da cultura no interior. Em 2019, na segunda edição do festival Chama Violeta, que acontece na área rural da Ingazeira, uma mesa de debate, intitulada Teatro no interior – Realidade x possibilidades, reuniu os coletivos teatrais da região que participavam do festival e foi, intuitivamente, a porta de entrada para o nascer dessa rede, a Ripa – Rede Interiorana de Produtores, Técnicos e Artistas de Pernambuco. 

Na conversa, falamos das lindezas que cada coletivo estava realizando no seu canto e as dificuldades da jornada. A Cia Biruta, de Petrolina, atuando fortemente na periferia onde vive, além de todo trabalho de criação da companhia, formou um núcleo de teatro com adolescentes da comunidade. O Teatro de Retalhos e a Tropa do Balacobaco, de Arcoverde, dois dos grupos ocupantes da Estação de Cultura, com projetos bem importantes para a cidade e região, só para citar alguns exemplos.

Perguntamo-nos ali o que poderíamos fazer por nós mesmos. Artistas em movimento, visões sobre o mundo, pensamentos sobre Pernambuco e sobre o Brasil, possibilidades criativas, dificuldades financeiras, anseios, limites individuais, desejos coletivos… E a coisa de se fortalecer em rede foi a principal e mais potente das ideias. Lembro que, naquele mesmo dia, pensei num provérbio africano que diz: “Quando as teias da aranha se juntam, elas podem amarrar um leão”. Senti que era o que estávamos começando a fazer. Juntar nossos fios. Ali plantamos uma semente.

Em 2020, quando o mundo parou por conta da pandemia do novo coronavírus e o festival Cena Interior – promovido pelo Teatro de Retalhos em Arcoverde e no qual haveria o segundo encontro em que o debate sobre a rede tomaria corpo – teve de ser cancelado, ficamos a ver navios. Mas, seguindo o fluxo da era online, juntamos num grupo de WhatsApp pessoas de diversos coletivos distribuídos por todo interior do Estado para consolidarmos a Ripa.


Núcleo Biruta de Teatro em cena com o espetáculo Medusa. Foto: Jackson Vicente/Divulgação

Pontua um dos trechos da carta de princípios da Ripa: “Através da construção de uma rede solidária de fazeres e saberes, nossa missão é promover, difundir e valorizar a produção artística, técnica e cultural do interior de Pernambuco. Buscando estimular o diálogo com representantes do poder público, sejam eles municipais, estaduais ou da União, bem como sociedade civil, conselheiros, associações, redes e outros, a fim de ampliar e consolidar a representatividade do interior nos debates.” 

Hoje com 350 cadastrados, sendo 70 coletivos, de 41 cidades do interior, nossa rede está cada dia mais forte. Impressionante como neste momento, mesmo atuando somente por reuniões, debates e representatividades online, muito já foi feito.

Começamos com o projeto Conversa de alpendre, através do qual traçamos um panorama do interior. Com artistas componentes da Ripa e convidados que já atuaram afetivamente no interior, realizamos lives nas nossas redes sociais, nas quais pudemos dialogar sobre nós, a partir de nossa realidade. Foi a maneira de nos lançar ao mundo. A partir disso, atuamos junto aos artistas, com apoio, incentivo e instrução técnica e legal sobre a Lei Aldir Blanc. 

Avançamos no discurso de mudança no Funcultura junto ao Conselho de Cultura e ao governo do Estado, levando informações e dados sobre participação do interior no edital como ele está constituído neste momento, uma vez que a Ripa já conseguiu reunir dados significativos a partir das discussões na rede dentro do grupo de trabalho #mudafuncultura

Participamos de diversos projetos, atuando como representação do interior do Estado, no Nordeste e até nacionalmente. Participamos de comissões de festivais, a exemplo do Janeiro de Grandes Espetáculos. Além disso, a Ripa se tornou um espaço de acolhimento e troca de informações e saberes.

Como nos organizamos? Algumas reuniões foram feitas. A primeira e principal decisão foi a de não termos uma hierarquia na rede. A ideia é que todos os integrantes se responsabilizem por ela. A inquietação e a diversidade são elementos fundamentais da nossa rede. Não é possível ditar regras. É preciso fazer a rede caminhar. Abrir espaços para o crescimento dos indivíduos, torná-la permeável, passível de mudança. Fortalecer é a palavra que nos guia. Nossa gestão é composta por quatro grupos de trabalho: GT de comunicação, GT de política, GT de produção, e GT de secretaria. A partir das demandas do grande grupo, o grupo gestor se mobiliza pensando estratégias e novos GTs vão surgindo para ampliar a discussão.

O grupo gestor se reúne a cada 15 dias e uma reunião do grande grupo, para repasses e debates, acontece uma vez por mês. Como um grande formigueiro (sem rainha), estamos trabalhando e nos organizando cada vez mais para que o interior seja escutado, visto, respeitado.

Esperançamos um futuro no qual artistas e público do interior tenham melhores oportunidades de acesso aos bens culturais de Pernambuco. Onde oportunidades que facilitarão nossa jornada criativa cheguem até os rincões do nosso Estado.

Penso que construir propostas e soluções que efetivem a sustentabilidade de nossa atividade profissional, e não apenas a realização de nosso próximo trabalho, se faz urgente. E não tenho dúvida de que uma organização coletiva tenha o papel primordial nesta construção. Por isso, estamos descobrindo, aqui e agora, os melhores meios para que a Ripa esteja em movimento o tempo todo e possa amparar nosso fazer artístico a partir de nós mesmos. Porque é isso, o interior falando pelo interior. Aprender a respeitar e entender o processo criativo, o público, os espaços de cada região e de cada artista se faz urgente no nosso estado. 

Como em todo agrupamento, a ideia do coletivo Ripa deixa de ser teoria e passa a ser prática. Juntos, caminhamos melhor. Nosso objetivo maior é a busca da sensação de pertencimento que é, creio eu, o que de fato constitui a cultura.

ODÍLIA NUNES, brincante, palhaça, atriz, diretora, dramaturga, cordelista, produtora cultural, mãe de Violeta e Helena.

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