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Coisas sobre Moacir Santos

TEXTO Andrea Ernest Dias

01 de Agosto de 2016

Andrea com o seu biografado, alvo de estudo do doutorado em música

Andrea com o seu biografado, alvo de estudo do doutorado em música

Foto Rachel Guedes/divulgação

[conteúdo vinculado ao especial da ed. 188 | agosto de 2016]

Meu primeiro
contato com a obra de Moacir Santos foi como instrumentista nos shows e CDs do projeto Ouro Negro, em 2001. A iniciativa de Zé Nogueira e Mario Adnet permitiu ao Brasil redescobrir o compositor e semeou sua influência sobre as novas gerações de instrumentistas, arranjadores e pesquisadores acadêmicos. Desde então, já são 15 anos dedicados ao estudo de sua vasta obra musical e inúmeros os seus desdobramentos. Destaco, além da discografia que compilou sua produção musical – os CDs Ouro Negro e Choros & alegria, o relançamento do CD e LP Coisas e o DVD Ouro Negro –, a realização de duas edições do Festival Moacir Santos, o site Trilhas Musicais de Moacir Santos, de Lucas Bonetti, sobre sua atuação como compositor para o cinema, e o livro Moacir Santos, ou Os caminhos de um músico brasileiro, que lancei em 2014, pela Folha Seca e que agora, em 2016, terá segunda edição publicada numa parceria entre a Folha Seca e a Cepe, por ocasião das comemorações dos 90 anos de Moacir.

UMA CABEÇA MUSICAL
Os primeiros sons que povoaram a infância de Moacir Santos foram os da tradição cultural nordestina, o baião, o dobrado, o choro, o maracatu e o frevo, ouvidos e praticados nas bandas filarmônicas e jazz-bands do Alto Sertão pernambucano, as jézi. A partir da chegada do rádio no Sertão, nos anos 1930, Moacir começa a ouvir também gêneros orquestrais clássicos e populares.

Desde criança, ele já demonstrava suas impressionantes habilidades como clarinetista e saxofonista, além de tocar todos os outros instrumentos da banda de música. No Recife, nos anos 1940, foi apresentado como “O saxofonista negro” no programa Vitrine, de Antônio Maria e José Renato, da Rádio Clube de Pernambuco.

Foi também o efervescente ambiente do rádio que o acolheu no início de sua vida profissional, na Rádio Tabajara, na Paraíba, e depois no Rio de Janeiro, na Rádio Nacional, ainda na década de 1940. Ali, entre os grandes maestros arranjadores de ascendência europeia, como Radamés Gnattali e Lyrio Panicalli, Moacir Santos compreendeu que novas dimensões da música poderiam surgir para si próprio. Foi então que criou um sistema multidisciplinar para o aprendizado de harmonia, contraponto, orquestração, fuga e estilo, estudando simultaneamente com vários professores.

A leitura voraz de teorias e tratados de todos os períodos da história da música – da ars antiqua ao atonalismo – deu a Moacir os elementos de que necessitava para incluir sua música na categoria dos mestres.

CONSCIÊNCIA MUSICAL
Nos anos 1950, Moacir Santos teve em Guerra-Peixe um de seus principais mentores. O maestro petropolitano exerceu forte influência sobre seu pensamento musical, ensinando-o a organizar suas ideias para além da intuição, a estruturar suas composições e a valorizar sua bagagem cultural. Igualmente próximo do sistemático dodecafonista H. J. Koellreutter, de quem se tornaria assistente, Moacir demarcou assim o início de sua “fase de consciência musical”.

Entre fins dos anos 1950 e meados dos 1960, Moacir Santos começou a conceber a impactante sonoridade pela qual viria a ser reconhecido como um grande e original autor. Ao gravar o LP Coisas, apenas com suas composições, lançado pela pequena e inovadora gravadora Forma, em 1965, acrescentou forte acentuação afro-brasileira à sonoridade dos sopros influenciada pelas filarmônicas e jazz-bands de sua juventude. Assim, ao mesmo tempo em que marcava o seu “gol de placa” na discografia brasileira, determinava os rumos de seu futuro como compositor.

Nos anos 1960, Moacir, hoje também reconhecido como o “patrono da bossa nova”, dava aulas para músicos que desejavam aprender mais sobre “música superior”, nas palavras de Baden Powell. Os conhecidos afrossambas de Baden e Vinicius trazem a influência direta dos ensinamentos de Moacir sobre modalismo. Além de Baden, entre seus alunos estavam Sérgio Mendes, Paulo Moura, Dori Caymmi, Nara Leão, Airto Moreira, Flora Purim, Paulinho da Viola, Carlos Lyra e Nelson Gonçalves. “Era uma febre, todos queriam estudar comigo”, Moacir dizia. Nesse período criou e aplicou os Ritmos MS, pequenas células rítmicas que, combinadas entre si, resultavam em um excelente material para a composição de melodias.

Trabalhando incansavelmente nos estúdios do Rio de Janeiro (e num breve período em São Paulo também), Moacir Santos foi se tornando os “tantos” da famosa frase do parceiro e amigo Vinicius de Moraes em Samba da bênção. Entre esses “tantos”, estava o compositor de trilhas sonoras para o Cinema Novo e para a produção hollywoodiana Amor no Pacífico. Este filme constitui um novo ponto de inflexão em sua trajetória: os Estados Unidos se tornaram, então, uma nova perspectiva profissional para o maestro e sua moradia definitiva, a partir de 1967.

ASSINATURA MUSICAL
Inicialmente instalada na região de Newark, Nova Jersey, em pouco tempo a família Santos se transferiu para a costa oeste. Na Califórnia, Moacir trabalhou na equipe de compositores de Lalo Schifrin e Henry Mancini, foi acolhido pelos músicos jazzistas e consolidou sua reputação de maestro, arranjador, compositor e professor.

Assim como no Brasil, onde era cercado por admiradores e amigos musicais, nos EUA, Moacir criou fortes laços de amizade com artistas da estatura de Horace Silver, Clare Fischer, Gary Foster, Curt Berg, Justo Almario, Mark Levine, Steve Huffsteter, o casal Paul e Sheila Smith, e muitos outros. Sua casa era uma espécie de embaixada frequentada por músicos brasileiros em busca dos bons papos, da boa música e do famoso feijão de Cleonice Santos, sua esposa e musa de toda a vida. João Donato, Gilberto Gil e Roberto Carlos estavam entre esses frequentadores.

A discografia norte-americana de Moacir Santos pelos selos Blue Note e Discovery Records o inseriu definitivamente na categoria dos estilistas do jazz. O ritmo foi seu grande aliado, e o compositor de Nanã surpreendeu os americanos ao apresentar – no LP Maestro, indicado ao Grammy de 1972 – o mojo, padrão que estabeleceu como uma de suas marcas mais originais.

O mojo foi uma grande inovação musical que se contrapôs ao ritmo da bossa nova com o qual os músicos americanos estavam familiarizados. No mojo de Moacir estão os elementos do baião, do maracatu, da ciranda, de sua negritude pernambucana, enfim. Aplicado a polirritmias em compassos pares e ímpares, ele se integra às harmonias e aos contrapontos sofisticados, aos andamentos lentos e rápidos, às surpreendentes linhas de baixo, às adoráveis melodias e aos timbres de suas orquestrações.

Em muitas das entrevistas que Moacir Santos concedeu ao longo de sua vida, uma pergunta era inevitável: “Por que chamou sua música de ‘coisas’?”, a que ele respondia: “Os compositores eruditos chamam suas músicas de opus. Desejei ser um compositor erudito, mas não ousei. Então, ‘coisas’ é minha tentativa de ser um deles”.

E foi Guerra-Peixe quem solucionou o “conflito” de Moacir Santos, em um aparte durante o Depoimento para a posteridade de Moacir ao MIS-RJ, em 1992: “Não existe música popular ou erudita. A música não tem vontade própria para escolher ser isto ou aquilo. Existe, sim, o músico erudito, aquele que estudou, que domina as próprias ideias para além da inspiração por meio de técnicas próprias para isso”.

Inventividade, permanência, desdobramentos insuspeitos e o condão de nos dar notícias de nós mesmos. A música de Moacir, hoje reconhecida onde quer que ela ressoe, tornou-se um clássico e, como tal, um território a ser infinitamente explorado. 

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