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Do Sertão para o mundo

De órfão de pai e mãe aos três anos, no interior de Pernambuco, a aclamado compositor, maestro, professor e arranjador nos EUA, Moacir Santos construiu uma surpreendente trajetória musical

TEXTO Débora Nascimento

01 de Agosto de 2016

Pernambucano que viveu durante anos na Califórnia, passando antes pelo Rio de Janeiro, Moacir Santos tornou-se um dos maiores compositores e arranjadores do mundo

Pernambucano que viveu durante anos na Califórnia, passando antes pelo Rio de Janeiro, Moacir Santos tornou-se um dos maiores compositores e arranjadores do mundo

Foto Divulgação

[conteúdo da ed. 188 | agosto 2016]

No livro Jazz: a critic’s guide to the 100 most important recordings, da série The New York Times Essential Library, o crítico Ben Ratliff inseriu na sua lista, que abrange aclamados álbuns do gênero musical norte-americano, como Miles ahead (1957), de Miles Davis, e A love supreme (1965), de John Coltrane, o disco de um pernambucano nascido em pleno Sertão do Pajeú. Coisas, de Moacir Santos, lançado em 1965, não somente foi adentrado nesse seleto rol, como induziu o jornalista a levantar a seguinte questão: “Why is this man not famous?” A indagação pertinente, feita em 2002, veio um ano depois do lançamento de Ouro Negro, álbum duplo com composições do artista, determinante para trazer de volta ao mercado fonográfico brasileiro o essencial nome do compositor, arranjador, produtor, multi-instrumentista, professor e mestre de gerações de músicos.

“Ele é um dos Jedis: ele, o Villa, o Tom. É um desses caras gigantescos, aquela mão de proteção em cima da gente, das nossas criações, do que a gente tem pra fazer daqui pra frente”, afirmou Ed Motta, nos bastidores da gravação do DVD Ouro Negro (2005), registro do espetáculo baseado no disco homônimo, no qual interpretou Orfeu, uma das canções moacianas, assim como Nanã, que têm mais fama que o seu autor. “Quando descobri a música de Moacir Santos, fiquei em transe com isso. Só escutava o Moacir Santos. Comecei a fazer vários temas usando as unidades de tempo que ele usa: seis, cinco, nove, as unidades de tempo diferentes, essa coisa afro. Uma coisa que me identificou muito foi o cuidado que ele sempre teve com a organização da base, que não é muito uma tradição da música brasileira. A música brasileira tem mais uma preocupação assim: o arranjo, que está na frente, as flautas ou o sopro, ou cordas e tal, o piano meio livre, e a base está sempre meio livre, ninguém fala com a base, ninguém fala pro baterista ou pro baixista é assim ‘bum, bum’. Com Moacir Santos era tudo amarradinho. Tudo aquilo faz parte da construção, da arquitetura da música dele: o desenho do contratempo, o desenho do baixo”, esmiúça.

O carioca Ed Motta foi um dos músicos que voluntariamente se transformaram em seguidores e propagadores da obra do “Mestre Jedi” da música brasileira. O mesmo aconteceu com os conterrâneos Zé Nogueira e Mário Adnet, responsáveis por resgatar o maestro para o Brasil com o projeto Ouro Negro. “A memória no Brasil não é cultivada. Você vê que até os grandes nomes correm perigo de desaparecer. É uma questão de educação que passa obrigatoriamente pela política praticada aqui. Fora isso, tem a questão de mercado, que é muito imediatista e vem evoluindo assim. Moacir é arte, é patrimônio cultural. Temos tentado divulgá-lo sempre através dos shows e dos projetos que fizemos, Ouro Negro, Choros & alegrias, o CD de minha irmã, Muiza Adnet, As canções de Moacir Santos, e os cancioneiros Moacir Santos em três volumes, além do relançamento de Coisas, o único disco de Moacir gravado no Brasil. São projetos de vida”, atestou o coprodutor do álbum Ouro Negro e autor, ao lado do saxofonista Zé Nogueira, das transcrições dos arranjos originais, lançadas em três livros de partitura (Coisas, Ouro Negro e Choros & Alegria), iniciativa que contribuiu para difundir a obra de Moacir entre instrumentistas.

Mário Adnet concorda que Ouro Negro ajudou a despertar o interesse de muitos especialistas, ouvintes e músicos, como Wynton Marsalis, que se refere ao pernambucano como “mestre” ou “The Brazilian Duke Ellington”. O trompetista nova-iorquino, quando veio ao Brasil em março e abril de 2015, com sua orquestra, passando por cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, executou temas de dois compositores nordestinos: o alagoano Hermeto Pascoal (Bebê e O ovo) e Moacir Santos (Coisa Nº 2 e Coisa Nº 8). A apresentação na capital pernambucana aconteceu em plena praia de Boa Viagem, no palco aberto do Parque Dona Lindu, para um público de cinco mil pessoas, dentro do projeto Do Frevo ao Jazz, do maestro Spok.

“Moacir se tornou mais conhecido na costa oeste, onde viveu por quase 40 anos. Fizemos um concerto com o Marsalis na França, no festival de jazz de Marciac, em 2005, para 7 mil pessoas, e depois com a Banda Ouro Negro no Jazz at Lincoln Center, em 2010. Em 2014, a Jazz at Lincoln Center Orchestra, comandada por Wynton, incorporou boa parte da obra de Moacir Santos ao seu vasto repertório e já fizeram vários concertos pelos EUA e pelo mundo. Acho que essa circulação internacional leva vantagem, com certeza, pelo nível cultural”, comemora Mário Adnet.

Moacir Santos decidiu morar nos Estados Unidos em 1967, aproveitando a boa recepção da trilha que compôs para o filme Love in the Pacific. Dois anos antes, havia lançado uma obra-prima, Coisas, mas sem grande repercussão. Quando este disco surgiu, o cenário musical no Sudeste do país em 1965 era o seguinte: Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius, interpretada por Elis Regina, vencia o I Festival da Música Brasileira; Chico Buarque lançava o seu primeiro LP; Roberto Carlos soltava o álbum Jovem Guarda, desdobramento do estrondoso sucesso do programa homônimo da TV; os Beatles invadiam as rádios e as vitrolas das casas. Ou seja, o ambiente estava bastante favorável às “músicas dos festivais”, ao rock e à rebarba da Bossa Nova (como O fino da bossa, de Elis Regina e Jair Rodrigues). O máximo de jazz que chegava ao país era Ol’man Mose, de Louis Armstrong, que ficou famosa na versão A história de um homem mau, do LP Roberto Carlos canta para a juventude.

Diante de uma dificuldade financeira que o fez pensar até em trabalhar como taxista – a ditadura militar havia desmantelado a Rádio Nacional, emissora de radiodifusão mais importante da época e onde Moacir trabalhava como regente desde 1948 –, o artista resolveu tentar a sorte nos Estados Unidos. Cumpria, então, mais uma vez, a sua sina de viajante, iniciada desde que saiu de Flores, aos 14 anos, rodando todo o interior de Pernambuco, o Nordeste, até chegar ao Rio.

Enquanto reunia a documentação para a imigração, em 1967, Moacir descobriu a sua data de nascimento num registro de batismo de uma igreja em São José do Belmonte. Encontrou um documento em que estava escrito “Muacy” (sem sobrenome), datado de 1926. Mesmo sem ter certeza de que aquele Muacy se tratava dele mesmo, quis crer que sim e relatou que aquela foi uma das maiores alegrias de sua vida.

Quando chegou aos Estados Unidos, residiu inicialmente em Newark (Nova Jersey), depois se estabeleceu em Pasadena, na Califórnia, onde morou até sua morte em 6 de agosto de 2006.

Naquele país deixou para trás a pouco provável chance de conquistar em terras brasileiras a fama e o reconhecimento à altura de seu talento. “Tom Jobim dizia que, no Brasil, é proibido o aborígene sair da taba. Moacir Santos foi um dos que saíram e o Brasil fez desabar sobre seu nome um manto de silêncio. Pois chega de silêncio. Nanã sabe das coisas e diz que chegou a hora de o Brasil saber de Moacir, reaprender Moacir, merecer Moacir”, escreveu o jornalista e escritor Ruy Castro no encarte do CD Ouro Negro.

Moacir voltou ao Brasil em algumas raras ocasiões, para visitar os familiares de sua esposa Cleonice e amigos na Paraíba e em Pernambuco. Em 1985, foi convidado para abrir a primeira edição do Free Jazz Festival. Em 1996, recebeu do Governo Federal a comenda da Ordem do Rio Branco, mas a cerimônia aconteceu na embaixada brasileira em Los Angeles. Naquele ano, foi homenageado do Brasil Summerfest, em Nova York.

Nos Estados Unidos, o pernambucano construiu uma sólida carreira como compositor, trilhista, arranjador e docente, sendo membro da Associação de Professores da Califórnia. Na década de 1970, lançou, pela renomada Blue Note, os álbuns The Maestro (1972, indicado ao Grammy), Saudade (1974) e Carnival of the spirits (1975), além de Opus 3 nº 1 (1979), pela Discovery Records. Trabalhou, inclusive, numa função que não contribuía para conquistar a tão merecida fama reivindicada por Ben Ratliff: foi ghost writer de Henry Mancini e Lalo Schifrin, escrevendo trechos de arranjos para composições. Por conta disso, há a desconfiança de alguns músicos de que sua mão esteja por trás das gravações originais dos temas da Pantera Cor-de-Rosa (Mancini) e de Missão: Impossível (Schifrin).

A flautista carioca Andrea Ernest Dias é outra discípula de Moacir Santos que conheceu a obra do maestro no começo dos anos 2000, quando foi convidada para participar da gravação do projeto Ouro Negro. A musicista ficou estupefata com a qualidade daquelas músicas e, tal como os demais convocados para essa iniciativa de Mário Adnet e Zé Nogueira, após o registro de seu instrumento, permanecia no estúdio para assistir aos outros takes, algo incomum entre instrumentistas contratados.

O crescente interesse pela obra moaciana fez a musicista focar o compositor como alvo de sua tese de doutorado na Universidade da Bahia. O estudo acabou se transformando no extraordinário livro Moacir Santos, ou Os caminhos de um músico brasileiro (2014), uma mistura de biografia com análise musical, que será relançado neste mês de agosto pela Cepe Editora, em coedição com a Folha Seca, para festejar os 90 anos do nascimento do artista (comemorado no dia 26 de julho).

Em parceria com a Cepe, o Conservatório Pernambucano de Música realiza no dia 23 deste mês, às 19h, no Teatro Santa Isabel, o concerto com a Banda Sinfônica do CPM, sob regência de Marcos Ferreira Mendes. O programa terá as músicas premiadas nas duas edições do Prêmio de Composição Moacir Santos, promovidas pelo CPM em 2008 e 2012, Caldeirão (Julião Adelino), Pitombando no baião (Paulo Arruda), Abaiãonado e Frevando (José Nilson Lopes), Frevando em Recife (Marcos Ferreira Mendes) e mais três composições do homenageado, Paixão segundo Moacir, Coisa Nº5 e Coisa Nº6. Encerrando a apresentação, será executado O berço (3º movimento da Suíte Ouro Negro), resultado do doutorado em Música do ex-professor do Conservatório, Sérgio Gaia Bahia. A entrada é a compra da publicação (R$ 30).

PROJETOS
Neste ano, ainda estão sendo preparadas mais reverências a Moacir, como o novo disco do Grassmass, projeto do músico pernambucano Rodrigo Coelho. “Tributos a Moacir dentro do jazz existem aos montes. O objetivo principal é aproximar as gerações mais novas de sua obra. É uma re-visão de seus temas mais mântricos, com synths no lugar dos sopros, mantendo a percussão tribal, mas numa paisagem sonora mais densa. Tudo gira em torno dessa apropriação da musicalidade africana, não no sentido arqueológico de revisitá-la, mas de entendê-la como semente de uma nova estética musical, um novo ‘afro-futurismo’”, explica o ex-baixista da Jorge Cabeleira.

O repertório de Tribute to Moacir Santos, que traz duas inéditas de Coelho, é baseado principalmente em Coisas com versões permeadas por sintetizadores, drum machines, piano, baixo, guitarras, bateria e percussão (gravada por Lucas dos Prazeres). Duas faixas estão disponíveis: Coisa nº 4 (download através do site The Wire) e Coisa nº 2, no SoundCloud. “O encontro entre o passado e o futuro, entre a música de raiz e a música universal, é algo que sempre me fascinou. Quando ouvi Coisas, onde toques de candomblé se fundiam a um gênero contemporâneo como o jazz, percebi que essa busca ressoava de forma universal”, complementa.

De mais uma audição de Moacir, surgia outro arrebatamento e um trabalho decorrente. O compositor e músico paulista Lucas Bonetti estudava Instrumento Popular do bacharelado em Música da Faculdade Santa Marcelina (SP) quando, durante uma aula de percussão, ouviu pela primeira vez uma composição do artista: Maracatu, nação do amor (April child). Ficou tão impressionado que passou a pesquisar a obra moaciana. “O mais interessante para mim na carreira do Moacir é sua diversidade de facetas. Em todas as suas áreas de atuação, ele tem produções muito relevantes, desde seus arranjos na época da Rádio Nacional até suas músicas compostas para cinema, além de ter atuado brilhantemente como professor e gravado diversos discos seminais. Sempre há algo novo para ser descoberto em sua obra”.

Esse estudo evoluiu para um mestrado na Unicamp, em 2012, com o objetivo de pesquisar suas composições para cinema. “Primeiro, houve um resgate dos filmes, pois muitos estavam perdidos e não tinham sido relançados comercialmente em novos formatos. Depois disso, todas as inserções musicais foram devidamente decupadas para se iniciar o processo de transcrição. Levei seis meses para transcrever todos os parâmetros musicais, como estrutura formal, instrumentação, linhas melódicas e harmonizações. Depois disso, consultei diversos músicos especialistas, como Proveta, André Mehmari e Fernando Corrêa, para refinar as transcrições, e esse processo de revisão durou mais seis meses”.

Em 2014, depois de defendida a dissertação, o projeto foi contemplado no edital do Rumos Itaú Cultural. Inicialmente, o apoio visava a divulgação das partituras em livro. “Mas como a ideia era uma publicação de distribuição gratuita, para poder facilitar o acesso a esse material, decidi, junto aos produtores do Rumos, que uma plataforma online viabilizaria também o acesso a trechos dos filmes. De fato, essa é uma das funcionalidades mais interessantes do site: poder assistir aos excertos audiovisuais simultaneamente com as transcrições da trilha em partitura.”

O Trilhas Moacir Santos (trilhasmoacirsantos.com) abrange partituras das composições do maestro para o cinema brasileiro no início da década de 1960, no período anterior ao lançamento de Coisas. Os filmes que tiveram suas composições transcritas e analisadas foram: Ganga Zumba (Cacá Diegues, 1963), Seara vermelha (Alberto D’Aversa, 1964), Os fuzis (Ruy Guerra, 1964) e O beijo (Flávio Tambellini, 1965). Nessa pesquisa, Bonetti identificou células embrionárias da obra-prima que Moacir lançaria em seguida.

 “Imediatamente depois de finalizar o mestrado sobre suas trilhas musicais, com o foco em suas produções brasileiras, iniciei um projeto de pesquisa de doutorado, também na Unicamp, investigando a sua produção norte-americana. Em 2015, pude morar por aproximadamente quatro meses na Califórnia para realizar uma pesquisa de campo, financiada pela Fapesp, como parte do doutorado em andamento”, relata Bonetti, que ainda está preparando a produção do disco de estreia do seu grupo, Ágar-Ágar Trio, focando seu repertório especificamente nas adaptações das trilhas musicais de Santos. “É uma forma de ressignificar as partituras transcritas por mim para o projeto”, completa.

Assim como escreveu músicas para o cinema, o próprio Moacir Santos renderia, com sua história, um filme. E este deve ser realizado. O cineasta pernambucano Daniel Aragão afirma que já deu início ao projeto. “O filme é uma ficção, finalizei o roteiro já nessa minha última passagem pela Califórnia, mas não sei quando o longa será produzido. Vou ter que esperar o destravamento de tudo, possivelmente dentro de dois anos iniciarei. Minhas negociações com os produtores norte-americanos dependem de uma certa estabilidade no Brasil. Mas o roteiro está lindo”, adiantou o diretor.

A trajetória cinematográfica do nosso Ouro Negro foi brevemente descrita pelo sambista e letrista de algumas composições de Moacir, Nei Lopes: “Só mesmo o destino, com os vários nomes que tem, para transformar um negrinho do interior de Pernambuco, nascido menos de quatro décadas após a abolição da escravatura e órfão aos 3 anos de idade, em um dos músicos brasileiros mais reconhecidos, nacional e internacionalmente, em todos os tempos. Pois este é o resumo da história do maestro Moacir Santos, que, aos 14 anos, nem sabia ao certo sua idade nem a grafia de seu nome. E que, impulsionado por uma força estranha, veio vindo, do interior de Pernambuco para o Recife, do Recife para João Pessoa, de João Pessoa para o Rio de Janeiro, do Rio de Janeiro para Los Angeles e de Los Angeles para o mundo.”

E, assim, bem do jeito de Moacir, serena e elegantemente, seu legado e sua fama vão se expandindo. 

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