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Por uma crença na arte

A despeito da presença conservadora e religiosa na Turquia, artistas do país avançam nas fronteiras da criação

TEXTO Olívia Mindêlo

01 de Fevereiro de 2016

Nas imagens do vídeo, Nilgar Güres recita nomes de mulheres enquanto tira vários lenços da cabeça

Nas imagens do vídeo, Nilgar Güres recita nomes de mulheres enquanto tira vários lenços da cabeça

Fotos Reproduções do vídeo 'Undressing'

[conteúdo vinculado à reportagem especial | ed. 182 | fev 2016]

"Viver na Turquia hoje é bastante difícil
para qualquer um que tenha um pouco de consciência. Pessoas estão sendo mortas por suas diferenças, por suas inclinações políticas ou por estarem participando de manifestações. A violência do governo não é só direcionada aos que moram no Leste do país, mas a todos que pensam diferente do governo. Como civis, nós queremos parar os crimes de Estado e simplesmente protestar para criar uma consciência.” Na fala da jovem artista turca Merve Kılıçer, “criar uma consciência” diante desse cenário pode significar ir às ruas, mas, principalmente, produzir arte. Apesar das adversidades, permanece entre os artistas da Turquia a crença na produção artística como instrumento de transformação e enfrentamento, sobretudo em relação às questões políticas envolvendo a gestão do presidente Recep Tayyip Erdoğan, de forte inclinação islâmica e conservadora, e aos problemas sociais, particularmente das chamadas minorias (mulheres, curdos, refugiados, gays, não mulçumanos etc.).

“Você pode sentir que as pessoas estão tristes e uma energia negativa está correndo pelo ar de Istambul. Isso, também, porque eles estão arruinando essa cidade linda com gentrificação e destruição de todo o habitat. Depois das manifestações do Gezi Parkı (2013), vários jovens, como eu, nos enchemos de esperança e sentimos o poder da unidade. Não é tão fácil transferir essa energia para a produção artística. É também difícil expressar a dor acumulada que sentimos hoje”, desabafa Merve, que atua sozinha e em grupo. No coletivo Kaba Hat, ela e mais oito desenvolvem trabalhos de maior engajamento, como os realizados nas manifestações do Gezi. Individualmente, ela tem se aprimorado nas técnicas de impressão, transformando seus desenhos e gravuras em trabalhos de extrema sensibilidade. No caso da Bienal de Istambul de 2015, Merve expôs, na biblioteca pública de Büyükada, o conjunto Mater.ial, com livros de artista inspirados em deidades ancestrais. “Como uma mulher destas terras, eu era curiosa sobre as identidades femininas dos tempos antigos, no desejo de entender o significado profundo dos conflitos. À medida que pesquisei sobre as histórias, ou lendas contadas na Mesopotâmia e em Anatólia (interior da Turquia), sobre velhas deusas, vi que todas apontavam para o ciclo da natureza. A influência delas pode ser percebida nas religiões monoteístas atuais e podemos ver como o papel do poder feminino foi destruído”, analisa.


A turca Nezaket Ekici foi aluna de Marina Abramovic e hoje explora várias poéticas em suas performances. Foto: Pi Artworks/Divulgação

Merve lembra que a Turquia enfrenta sérios problemas de violência contra a mulher e que se tornou uma responsabilidade dos artistas falar sobre o assunto. “Sinto que a abordagem acadêmica ao tema é muito limitada, precisamos de métodos mais concretos e ativistas para lidar com esse problema sensível. O mundo precisa ser curado, nós precisamos. E essa cura não vai acontecer, ao menos que as mulheres achem uma maneira de se encontrar em pé de igualdade com os homens.”

MULHERES
Quando se fala em gênero e sexualidade na Turquia, um dos nomes imediatos é o da artista Nilbar Güreş, selecionada no livro Art cities of the future (Phaidon) e uma das participantes da última Bienal de São Paulo, em 2014. Nascida em Istambul, em 1977, ela se graduou e fez mestrado em pintura – aliás, os artistas turcos são repletos de títulos acadêmicos. No entanto, foi na fotografia, no vídeo e na performance que consagrou suas criações, muitas vezes colocando a figura da mulher (quando não dela própria) no centro das suas imagens. Sua poética é do tipo que o mundo certamente espera, quando se fala em arte contemporânea turca. Seus trabalhos mexem com tabus ainda presentes na sociedade da Turquia, como o desejo sexual, o papel feminino no ambiente doméstico e, no caso específico, os hábitos das mulçumanas turcas, como o uso do véu ou mesmo a sua proibição nas universidades do país.

Para a curadora Duygu Demir, a artista é também uma ativista cuja prática é focada na consciência e na injustiça. “Trabalhando principalmente com mulheres, Güreş cria controvérsia não apenas encenando ações privadas em espaços públicos, como também através da justaposição de suas modelos, vindas dramaticamente de diferentes contextos sociais. Ela adota pessoas improváveis de famílias, amigos, parentes distantes e vizinhos, além de ativistas e voluntários de vários grupos, como lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, agregando participantes geralmente separados ordenadamente em compartimentos sociais, literalmente e figurativamente”, escreve a curadora. Nesse sentido, vários são os trabalhos de comunicação eficiente e imediata feitos por Nilbar Güreş. Impossível esquecer, por exemplo, o videoperformance Undressing (Despindo), da coleção do Istanbul Modern, no qual a artista aparece usando dezenas de lenços sobrepostos por toda a cabeça. Na medida em que vai tirando cada um deles, pronuncia o nome de uma mulher de sua família ou de seu raio de convívio, até finalmente chegar ao seu próprio rosto-identidade. Sufocante.

Vale lembrar que a Turquia se diz 97% muçulmana, mas nem todo religioso possui os mesmos hábitos ou um comportamento-padrão no país. Parece óbvio, mas não é, particularmente para os ocidentais. Muitas das artistas, aliás, possuem origem mulçumana, mas estão longe da prática religiosa; pelo contrário, conseguem olhá-la criticamente, com certa distância. Outras mulheres usam lenços, mas são muito diferentes das que usam burca. A performer Nezaket Ekici, por exemplo, é filha de pai professor, considerado “liberal”. Ela foi morar com a família na Alemanha, nos anos 1970, quando o pai migrou pelo Guest Worker (programa adotado pelos alemães para atrair mão de obra estrangeira temporária). Lá ficaram. Mesmo assim, sua vizinhança de turcos (gueto) não aceitava o fato de Nezaket ter mais de 30 anos e nunca ter se casado. De alguma maneira, a origem muçulmana estava ali, para pressioná-la ou colocá-la em contradição. Hoje, aos 45 anos, é casada com um alemão, mas seu estilo de vida está longe do “padrão médio” de seus conterrâneos.

Além de viver viajando pelo mundo com suas performances, a artista preferiu estudar, antes de qualquer coisa. E não pretende ter filhos, pois não teria tempo para eles. “Meu lar é meu coração. Eu preciso estar em movimento, a performance precisa de diferentes públicos, é importante viajar para conhecer diferentes pessoas”, afirma Nezaket, que, numa de suas visitas ao Brasil, ganhou dos mineiros a alcunha de “Nezaquetchi”. Durante sua formação, foi aluna da sérvia Marina Abramović, famosa pelas experimentações com o corpo. Essa influência pode ser percebida no trabalho e na imagem da turca. Nezaket Ekici não tem uma “questão” em sua obra, como vemos em Nilbar Güreş. Mas é possível perceber sua preocupação com temas como a religião, por exemplo. Uma de suas performances nasceu de suas visitas a um cemitério de São Paulo, onde observou a presença de túmulos de cristãos e islâmicos. De outra vez, chegou a rezar um rosário, através de projeto do Metropolitan, enquanto recitava uma “prece” contendo regras de diferentes tradições religiosas. “Nasci em origem muçulmana e acredito em Deus, mas não sou uma crente convicta. Sou uma artista e acredito na arte”, professa.

Ela, aliás, detesta rótulos. “Não gosto dessa história de arte turca, alemã. Importante é a arte. Também não quero ser vista como feminista. Eu não trabalho nessa luta. Política, sim; engajamento, não”, diz a artista. A turca Deniz Gül, que também expôs na 14ª Bienal de Istambul, parece estar de acordo: “Você pode se engajar no mundo com suas decisões, com seu amor por plantas, animais, músicas e com todas as suas curiosidades. Sua cidade, sua identidade dada e a sua língua (ser mulher, ser turca) são uma herança, tal qual um carma que você tem que resolver ou superar. Isso é extremamente difícil! É mais fácil viver quando você olha as coisas em uma grande figura”. Na bienal, Deniz fez uma instalação chamada Pedra (manuscritos não queimam), em uma casa abandonada de Istambul, onde certamente viveu uma família grega. No trabalho, havia uma reimpressão, em madeira, de desenhos primitivos do Leste da Turquia.


O pernambucano Manoel Quitério está entre o Recife e Istambul, onde já faz diferentes intervenções artísticas. Foto: Divulgação

Com relação a identidades, a artista Gamze Yalçın diz inexistir “uma coisa típica na arte da Turquia”, embora, como lembra Marcus Graf, diretor de programação da Contemporary Istanbul, geralmente seja isso que os estrangeiros queiram ver por lá. “Seria muito kitsch e artificial definir isso. Nós, turcos, temos problema de identidade desde o princípio”, afirma Gamze. Também artista de rua e namorada do artista pernambucano Manoel Quitério, ela já chegou a sofrer preconceito enquanto pintava ao ar livre e mesmo comentários de policiais. “Existe um medo das mulheres”, diz ela, que incentiva a arte de rua entre outras artistas, ainda pouco presentes no cenário urbano.

Já Quitério vive entre Istambul e o Recife desde 2014, pintando prédios, participando de residências e festivais, e trabalhando com música. Ele acredita ainda existir, na Turquia, um clima de ditadura, particularmente devido a atitudes do governo, considerado autoritário. “Coisas estranhas têm acontecido... Assassinato de jornalista sem explicação, acidentes, mortes... Uma amiga turca, por exemplo, estava ao telefone com outra pessoa e a polícia foi bater na casa dela, após ouvir a conversa relacionada a maconha”, conta o artista, para quem “a arte se obrigou a fazer o papel que a mídia não faz naquele país”.

Apesar de se concentrar em Istambul, a arte turca ecoa também de outras partes do seu território, particularmente de Diyarbakır, a “capital” do leste da Anatólia, região de maioria curda e palco de muitos dos conflitos atuais entre a Turquia, a Síria e os próprios curdos, povo em busca de uma nação. De lá, saíram alguns de seus artistas representantes, com trabalhos mais engajados politicamente, a exemplo de Ahmet Ögüt, Şener Özmen e a fotógrafa Dilan Bozyel, que decidiu voltar à terra de origem, depois de não se sentir “pertencida” a Istambul. Como diz o prefácio do livro Art cities of the future, “mais do que nunca, a habilidade de enxergar para além das fronteiras geográficas é vital para entender a arte de ponta, mas essas fronteiras tampouco podem ser inteiramente esquecidas”. 

OLÍVIA MİNDÊLO, jornalista, com mestrado em Sociologia.

Leia também:
Bienal: A emersão da Istambul

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