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O pouco e o muito

TEXTO José Cláudio

01 de Maio de 2015

Carteira de identidade do meu tio Agostinho Hermes Pinto. Única foto que tirou na vida

Carteira de identidade do meu tio Agostinho Hermes Pinto. Única foto que tirou na vida

Foto Reprodução

Tinha um velho no Engenho Aratanji, onde meu tio Agostinho era barraqueiro, perto de Camela, Ipojuca, que só conseguia dormir se esfregasse os pés na cinza. Eu só estou feliz com as mãos meladas de tinta. Às vezes até saio para a rua com as mãos meladas de tinta. Não me chamem para outra coisa, nem para ir para o céu, que vou a contragosto. Não me tirem dali, do pé do cavalete. Quando tento explicar isso, pensam que estou escondendo algum outro motivo, que não gosto da pessoa, que estou me dando ares. E pode ser qualquer dia, sábado, domingo, feriado, casamento, batizado, chegada no aeroporto, aniversário. Detesto o tal do aniversário. Em Ipojuca só quem fazia aniversário era o padre, isto é, o vigário; na minha época, Frei Venâncio.

As pessoas não entendem. Eu digo que é pelo dinheiro, que quando não estou pintando estou perdendo dinheiro e que vivo disso, não tenho outra fonte de renda, esperando que assim acreditem, embora argumento um tanto grosseiro. Mas não é nada disso. Mesmo quando não se ganhe nada, cada um com sua sina: a ideia de lucro ou perda não se aplica ao caso. É a síndrome da profissão, ou melhor, o instinto de conservação. Podem lhe oferecer mundos e fundos que você recusa. E ai de você se aceitar, se cair no logro.

Tem uma história de um chinês que vivia num casebre perto de um riacho. O imperador mandou chamá-lo para ocupar um alto cargo, ministro, uma coisa dessa. Os emissários foram encontrá-lo sentado na beira do riacho pescando e transmitiram o convite imperial. Ele mostrou uma tartaruguinha balançando o rabinho na lama e perguntou: “Vocês acham que ela vai querer sair daqui para ficar embalsamada pregada na parede de um palácio?”

Cada qual com sua estrela que já vem impressa na moleira. Não há mérito em segui-la. Mérito, se existe, estará na sensibilidade de descobri-la o quanto antes, o que põe a prova a estrutura toda do indivíduo. Muitos fraquejam, desistem, por não encontrar apoio em canto nenhum, ou se contentam com o pouco – ou muito, dependendo da maneira de ver – com medo de quebrar a cara, quando você, fazendo o que não nasceu para fazer, já está quebrando não somente a cara, mas a espinha dorsal, se anulando todo, candidato a monstro, transformando-se num ser rancoroso porque frustrado, vingando-se nos outros dos talentos reprimidos, da infelicidade enfim.

Falta de apoio, falta de companhia, até não raro disfarçada em “más companhias”, falta de sorte (por isso que o verso considerado mais importante de Homero é “nenhum mortal pode prescindir da ajuda dos deuses”), por desconhecer que tais companhias existam. Eu, por exemplo, não sabia, ou não me ocorrera, apesar de ter lido nos livros ou ter ouvido falar de Rafael, Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci, Victor Meirelles e outros pintores (em Ipojuca, Seu Virgílio do hotel, como emporcalhava os papéis de embrulho da loja de meu pai com minhas garatujas, me chamava de “Zélis Telles de Meirelles”, alusão a Telles Júnior e Victor Meirelles, como muitos anos depois vim a saber), não concebia a possibilidade da irrupção entre nós de tal fenômeno, um pintor, coisa da Europa, outras eras, outras civilizações, Rio de Janeiro, lugar de que até nos orgulhávamos como capital do País mas onde ninguém nunca tinha ido, alguma coisa totalmente fora de cogitação, cujo Pão de Açúcar era como as pirâmides do Egito e outras maravilhas que saíam nas estampas do sabonete Eucalol mas igualmente a gente não sabia para que serviam e se faziam parte deste mundo, o Coliseu, a Torre Eiffel. As pirâmides, eu nunca vi, mas o Pão de Açúcar, que durante algum tempo eu via todo dia, assim como o Coliseu e a torre Eiffel, por ter morado nos lugares, continuam na minha memória não como os vi na realidade mas nas mil ilustrações impressas em mil lugares de todos os ângulos. Me pergunte qual é a cor do Pão de Açúcar que não sei, apesar de vê-lo todo dia na mídia. (Sobre a Torre Eiffel, alguém disse que o escritor Émile Zola detestava-a mas almoçava lá todo dia no restaurante que há num dos andares. “É o único jeito de não vê-la”, explicou.)

Eu ia dizer que sou de Oxóssi. É que, sobre companhias, boas ou más, pelo prisma da caretice do catolicismo em que me criei, ou melhor, as limitações eram minhas, é o mais certo, comparativamente à religião africana, xangô, candomblé, é esta muito mais abrangente, baseando-se em tipos psicológicos mais de que em dogmas impessoais; aceitando, como qualidades, imperfeições, digamos, quando não coisa pior, pecados, interdições, aí aliando-se religião a preconceitos sociais, a impedirem de germinar uma vocação, uma vida, jogada esta no lixo das convenções mais absurdas. Sei que “a casa do Senhor tem muitas moradas”, hoje sei, mas foi no xangô que percebi que a lei não é uma só, depende da pessoa a quem se aplica, justamente de acordo com as tendências de cada um.

Agora me lembrei do que me contou China, garçom do Gregório, no Beco do Veado Branco, onde se comia sarapatel e buchada. Uma vez encomendei a Gregório uma buchada especial para o cearense Aldemir Martins. Mas voltando à história de China, garçom consumado que nasceu para ser garçom, dava para ver até por quem nada entende de hotel. A história é que um rapaz, filho de família rica, bem criado, boa escolaridade, tinha um desejo na vida que era o de ser garçom. A família fez tudo para ele largar essa ideia. Ele estudou em faculdade, formou-se em outra coisa que a família queria, médico, engenheiro, advogado, mas disse ao pai, depois de receber o diploma, que queria ser garçom. Vendo o pai que não podia desgrudá-lo dessa ambição e sendo um senhor de posses, convenceu-o de pelo menos ser dono de restaurante, o que o rapaz aceitou. Passada a novidade, viu que não dava para dono de restaurante. Apesar do aparente êxito da casa, continuava desgostoso. Até que largou tudo e foi ser garçom. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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