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Estamparia: Valor simbólico aos utilitários

Nova geração de pernambucanos, que flerta com as ferramentas digitais, tem se destacado na produção de design de superfícies

TEXTO Geisa Agricio

01 de Maio de 2015

Imagem Divulgação

O olhar autoral e a expressividade técnica na estamparia vêm proporcionando a designers pernambucanos um espaço de destaque no Brasil. Num momento profícuo, surgem coleções com design de superfície exclusivo, assinado por artistas como Joana Lira, Guilherme Luigi, Gabriel Azevedo, Lin Diniz, Adriano Marcusso e a marca D.uas Design. Essa geração, que flerta com as ferramentas digitais, consegue imprimir na ousadia de um desenho próprio a conjugação harmônica entre a criação artística e a padronização em larga escala para se destacar no mercado de moda e decoração.

A necessidade de colorir, adornar o corpo e o meio onde vivia, foi uma das principais causas para o homem criar as estampas. As primeiras experiências de padronagem surgiram na Índia e Indonésia, por volta dos séculos 4 e 5 a.C., quando os egípcios já dominavam técnicas de impressão. Na arquitetura e na decoração, houve um grande impacto na produção de estamparia a partir da segunda metade do século 19, com o movimento Arts and Crafts, na Inglaterra. Em defesa do artesanato criativo, foi um contraponto à mecanização e produção em massa da industrialização. Propondo não distinguir o artesão e o artista, teve como principal expoente a figura de Willian Morris. Padrões decorativos da art nouveau, como o whiplash, formado por linhas dinâmicas e fluidas influenciam a arquitetura, pintura, escultura e outras formas de design até hoje. De lá para cá, clássicas padronagens comerciais de várias épocas e origens ganharam o mundo, como o pied poule, o vichy, e referências sempre exploradas como as estampas africanas, étnicas, animais, florais e geométricas.

“O termo design de superfície (DS) incorpora a estamparia, por configurar uma visão macro dessa técnica. Afinal, estampar nada mais é que a inserção de formas, texturas e cores em uma superfície plana (tecidos, papéis de parede, azulejos) e tridimensional (porcelanas, garrafas). Com relação à moda, o design de superfície pode ser feito a partir de técnicas do DS, capaz de ser impresso em meio digital ou ser confeccionado a partir das tramas com os fios do próprio tecido, como o tweed, clássico lançado pela Chanel”, explica a professora de Design de Superfície da UFPE Andrea Camargo.


Atuando em São Paulo, Linn Diniz desenvolve estamparias para moda e decoração.
Foto: Divulgação

A estampa, portanto, estende-se atualmente para outras estratégias de valoração simbólica de utilitários. Além de roupas, móveis, vidros e paredes, pode ser recriada com o uso de tecnologias para customização e diferenciação, o que é um estímulo à produção criativa. Mesmo sendo suscetível às tendências de mercado, a padronagem que vem se propondo relevante parte de coleções em projetos voltados à exclusividade, que saltam um tanto fora da curva das cópias e recópias em profusão como modismo.

A estamparia dessa geração de designers pernambucanos transparece, em seus traços autênticos, as perspectivas desse momento, em que o valor da estampa parte do repertório e do olhar diferenciado como uma marca, seja na brasilidade lúdica e figurativa dos desenhos de Joana Lira, no jogo da urbanidade de Gabriel Azevedo ou na pesquisa memorial de Guilherme Luigi.

“Há sempre uma busca do equilíbrio entre a arte e o produto. Para mim, é sempre essa balança entre a satisfação de democratizar meu trabalho e a angústia da banalização, do receio que se torne corriqueiro, repetitivo, que atinja o sucesso, mas depois acabe se desvalorizando”, diz Joana Lira, sobre assinar produtos em larga escala.

“Mais do que o direcionamento de cor e forma, as tendências de moda apontam comportamentos, conceitos e sentimentos. O design agrega sua vivência da realidade e é capaz de ler esses símbolos culturais específicos em cada contexto ou grupo. Mesmo que exista uma leitura de baixo para cima ou de fora para dentro de grupos étnicos, por exemplo, o designer compreende a atmosfera com a qual se relaciona e é capaz de refletir, traduzir e exportar de forma autêntica elementos da sua própria realidade”, diz Flávia Zimmerle, professora de Design da UFPE.


Para Joana Lira, nas escomendas, há sempre a necessidade de equilibrar arte e produto. Foto: Divulgação

RELAÇÃO COM AS MARCAS
Na década de 1990, quando cursava Design e fazia suas primeiras experimentações em estamparia no ateliê de sua mãe, Bete Paes, Joana Lira percebeu que, apesar da padronização, o processo artesanal gerava trabalhos únicos. Em serigrafia e à mão livre, desenvolvia técnicas de reprodução para superfícies de tecidos, toalhas de mesa, mobiliário. Foi nessa época que começou a fazer desenhos em porcelana. Em 1997, para a elaboração da exposição Bichos aloprados, compunha sua estética figurativa com corpos estampados num padrão de referência à arte rupestre.

A partir de 2001, Joana passou a assinar a cenografia da decoração do Carnaval do Recife, num trabalho contínuo até 2011 (interrompido apenas em 2004). As ilustrações e o jogo de estamparia dos personagens em proporções monumentais fizeram seu trabalho conhecido em todo o país. Desde o começo dos anos 2000, em seu ateliê em São Paulo, ela elabora padronagens em cerâmica com película.

A brasilidade no traço da artista chamou a atenção do mercado. Em 2011, Joana Lira fechou seu primeiro contrato com a Tok&Stok, assinando a linha infantil Reino das Águas. No ano passado, lançou cinco linhas exclusivas pela rede, em produtos como roupas de cama, louças, copos, vasos, esculturas, papel de parede e cúpulas para abajur. Além das coleções, também criou vasos-esculturas.


Obra de Joana Lira. Foto: Divulgação

“Tenho uma relação de liberdade com as marcas que assino, tanto na Tok&Stok, como na L’Occitane e Bobinex, em que tive a oportunidade de acompanhar a produção na linha das fábricas, de revisar todos os detalhes, e me certificar de que cada superfície tinha a mesma qualidade que eu havia imaginado no desenho. Mesmo numa produção em larga escala, tenho a preocupação de que a elaboração de cada arte seja tão delicada como no meu ateliê”, coloca Joana. Para a L’Occitane au Brésil, ela assina a identidade visual da linha Vitória Régia, que representa a Amazônia; para a Bobinex, criou estampas de papéis de parede.

PATRIMÔNIO CULTURAL
Enquanto Joana investiga personagens, fauna, flora e comportamento, a inspiração para Guilherme Luigi vem da observação do repertório cultural do patrimônio brasileiro. Luigi se interessa pela memória de um capital simbólico iconográfico que pode se perder nas transformações pós-modernas.

“Minha carreira sempre caminhou tangenciando a arte. Tive uma rápida (e traumática) passagem pela publicidade”, diz o designer. “A base vem do projeto Imaginário Pernambucano, desenvolvido na UFPE. No período, conheci pessoas importantes para a minha vida, como Paula Valadares e Luciano Arraes (hoje seu sócio no espaço Orbe Coworking). Foi a partir daí que começou minha relação com o artesanato e a maneira de transcrevê-lo em design”, conta.

Motivos criados por Joana Lira. Foto: Divulgação

Dentro do Imaginário Pernambucano, os primeiros ensejos de estamparia digital feitos para a Companhia Industrial do Vidro – CIV acabaram se transformando em seu projeto de conclusão da graduação em Design. Formado, foi para São Paulo interessado em estudar fotografia e estamparia na Escola Panamericana. Depois, seguiu a pesquisa em design de superfície, elaborando uma pérgola para vinhedos, na escola de Escola Superior de Disseny i Enginyeria de Barcelona. O projeto, indicado como finalista ao Prêmio Design 2011 na Espanha, trazia elementos têxteis e customizáveis que interessavam à estamparia de Luigi.

De volta ao Brasil, estendeu a relação à pesquisa cultural ao elaborar, junto com Felipe Soares, padrões de estampa para identidade visual do Centro do Artesanato de Pernambuco, cujo projeto rendeu destaque na décima edição da Bienal Brasileira de Design Gráfico.

“Interesso-me pela paisagem urbana, por essa relação com o patrimônio e como o design pode se apropriar da memória para não deixá-la morrer. Esse movimento de perceber, resgatar e devolver em interferência na cidade, transformando aquela referência numa outra experiência. A ideia é poder dar visibilidade e democratizar essa memória no cenário contemporâneo”, coloca Luigi.


Obra de Guilherme Luigi. Imagem: Divulgação

Numa trajetória semelhante à de Guilherme Luigi, que se desenvolveu pelo viés artístico, a designer Lin Diniz atuou no mercado antes da experiência autoral. Após quase 10 anos trabalhando em estampas industriais, principalmente para clientes de moda como Iódice, Tufi Duek, Denim Junkies e Skin Bikini, foi no contexto da decoração que surgiu a oportunidade de colocar seu nome no trabalho que geralmente terceirizava, sendo a responsável pela linha Lin Diniz para a Oppa Design, na qual elaborou estampas geométricas para almofadas.

“O convite surgiu depois de fazer para a loja física da marca de móveis e decoração desenhos à mão que ilustravam banquinhos do espaço. É muito legal o reconhecimento, ver que no site da rede está lá exposto um breve currículo e uma foto, que dá cara a quem faz a estampa, personifica o profissional. Raras são as marcas que fazem isso. O mercado se apropria apenas do produto”, afirma Lin Diniz, que também fez, em parceria com o arquiteto Marcelo Rosebaum, estampas para decoração.

A arquitetura é o berço do trabalho gráfico do designer e ilustrador Adriano Marcusso, sócio do Estúdio Mola. Seu estilo concreto e harmonioso se faz presente nas três séries de cinco peças que criou para a Lilou, um novo material de revestimento semelhante ao porcelanato. No processo, brincou com a escala das formas, para que, mesmo em padrões repetíveis, permitisse uma variação inspirada na proporcionalidade dos ambientes – para espaços pequenos, usa formas menores, e, para um grande painel, uma estampa mais monumental.


O designer Guilherme Luigi desenvolveu estamparias digitais baseadas na obra de Luiz Gonzaga. Foto: Divulgação

“Esse trabalho é o fruto da minha vivência, por ter uma base em arquitetura, desenvolver móveis, ilustrar. As referências arquitetônicas transparecem na geometria das estampas”, conta o designer e ilustrador, que também assina o projeto artístico 100 Art Cans, em que pinta garrafas de cervejas com desenhos exclusivos em cada obra. O material deve ser exposto neste primeiro semestre, na Nuvem Art, na Galeria Joana D’Arc, no Recife.

NAMORO COM A MODA
As sócias da D.uas Design começaram a destacar-se no mercado de decoração, criando estampas exclusivas para azulejos. A demanda de decoração se estendeu para o tecido para revestimento de móveis, artigos de mesa e almofadas. “Percebemos que existia, em Pernambuco, uma carência de estampas exclusivas, de um frescor nesse setor, com estilo próprio e característico com o qual a clientela se sentisse contemplada. Cada vez mais, a estampa era nosso produto, independentemente da plataforma. Algumas pessoas começaram a comprar nossos tecidos de decoração a metro (mesmo pesados e impermeáveis) para fazer roupas. Foi quando atentamos para o nicho de moda”, conta Lia Tavares, que, ao lado de Marina Viturino, comanda a marca.

Nesse nicho descoberto, as criadoras da D.uas passaram a produzir acessórios (bolsas, necessaire, capas para tablets e smartphones) e, desde o ano passado, iniciaram uma parceria de coleções conjuntas com a marca de bijuterias Trocando em Miúdos. De lá para cá, foram lançadas três coleções de roupas com estampas exclusivas, relacionadas ao tema criativo das bijuterias. “Ainda terceirizamos a modelagem e a produção das peças, mas estamos tomando mais pé do setor de moda, para nos apropriarmos de nossas coleções”, aponta Lia Tavares.


Obra de Guilherme Luigi. Foto: Divulgação

Para Lin Diniz, a vivência com a estamparia da moda se deu na dificuldade dos bastidores de grandes marcas como Iódice e Tufi Duek. Nesse mercado, design de estampas é bastante condicionado pelo briefing das tendências, e gigantes de confecções não costumam colocar o designer a par da produção final. “Várias vezes, eu só vi a peça pronta depois da coleção lançada; é complicado interferir artisticamente, quando muitas vezes somos uma peça solta da cadeia”, pondera a pernambucana, radicada há 10 anos em São Paulo, que pensa em assinar produtos próprios em projetos pernambucanos para garantir que as estampas saiam exatamente com as referências estéticas que deseja.

O jovem Gabriel Azevedo, que também atende à poderosa grife Adriana Barra, diz que o mercado de moda para o designer é difícil, pois a área de estamparia muitas vezes não é reconhecida como criação, são poucos os estilistas que permitem liberdade. “Mas há espaço para o empreendedorismo, com inovação e projeto criativo”, avalia o designer.

Em 2014, ele se uniu ao publicitário Rafael Nascimento e à especialista em marketing Maira Vidal para criar a marca autoral de estampas de camisetas e de bolsas Born Art Studio. Na marca dedicada ao estilo urbano, Gabriel desenha elementos minimalistas e pop em cores básicas. A estamparia está presente na sua arte gráfica. O flerte com a moda se iniciou em seu projeto de conclusão de curso: uma estamparia digital inspirada em personagens da cena mangue contemporânea (Jr. Black, Catarina Dee Jah e Chambaril). A expressividade e o colorido dos seus traços ressaltaram sua veia artística. Em 2013, os trabalhos de Gabriel estamparam a exposição Caos navalha, na Casa do Cachorro Preto. Com a boa repercussão, foi convidado para expor em Buenos Aires, na Casa Cultural El Quetzal.


Com base na sua formação em arquitetura, Adriano Marcusso desenvolve formas geométricas para revestimentos. Foto: Divulgação

Expor sem a obrigatoriedade de uma práxis de mercado é o que motiva o trabalho de Guilherme Luigi em moda. “É bom fazer parte de projetos independentes e poder materializar ideias sem ser acuado pela pressão da repercussão. O sucesso é o alcance às pessoas de identidades culturais diferentes num novo contexto”, defende o autor das Estampas Gonzaguianas.

Nesse projeto, ele criou três linhas de estampas inspiradas em Luiz Gonzaga: Sertão, vinculada à referência geográfica de paisagens, fauna e flora locais; Traje, que trata da indumentária de couro e acessórios diretamente ligados à estética do cangaço e do vaqueiro; e Música, em que explorou com liberdade o universo poético, a partir de sentimentos, emoções, sensações. A estamparia digital produzida foi utilizada para a criação de roupas feitas pelos concluintes do curso de Design de Moda da Faculdade Senac–PE, em desfile realizado no Museu Cais do Sertão, em dezembro passado.

“A presença de nomes pernambucanos nesse momento da estamparia brasileira revela que nossas referências locais podem abranger um design universal, apreendido em outras partes do Brasil. Aliás, do mundo, o Brasil está em alta, depois da crise de 2008. Internacionalmente, existe, há vários anos, um olhar de curiosidade sobre o Brasil e isso nos coloca no patamar de tendência”, avalia Luigi. 

GEISA AGRÍCIO, jornalista, trabalha com marketing e tecnologia. É autora do blog Jogo da Amarelinha.

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