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A classe média como elemento subjacente

'Sangue no olho', da chilena Lina Meruane, e 'Um, dois e já', da uruguaia Inés Bortagaray, trazem personagens femininas em situações de desconforto e memoração

TEXTO Priscilla Campos

01 de Maio de 2015

Lina Meruane faz uso de múltiplos sentidos e aposta na possibilidade de escrever com todo o corpo

Lina Meruane faz uso de múltiplos sentidos e aposta na possibilidade de escrever com todo o corpo

Foto Daniel Mordzinski/Divulgação

No ensaio Questão de ênfase, Susan Sontag disserta sobre o que chama de “grande romance curto americano”. O livro em pauta é O falcão-peregrino, de Glenway Wescott. De acordo com a escritora e crítica de arte, o romance “começa com a voz da recordação; ou seja, a voz da incerteza”. Nessa linhagem memorativa e imprecisa também estão dois romances contemporâneos latino-americanos, lançados há pouco no Brasil pela editora Cosac Naify: Sangue no olho, da chilena Lina Meruane, e Um, dois e já, da uruguaia Inés Bortagaray.

No campo das semelhanças, temos alguns outros pontos em destaque: ambos dedicam cuidado linguístico a descrições corpóreas e apresentam um recorte sutilmente inquietante da classe média. Mesmo com a diferença de idade – Sangue no olho traz uma narradora adulta, debilitada; em Um, dois e já, criamos fácil empatia com a menina observadora que viaja com sua família por terras uruguaias – existe uma atmosfera de desassossego ao redor das personagens, que se inicia no núcleo familiar e avança para certa sensação coletiva. Assim como no longa-metragem argentino O pântano, de Lucrecia Martel, a figura feminina torna-se o centro de questões incômodas e desconhecidas pela classe média latino-americana, possivelmente provindas dos resquícios opressores das ditaduras.

Para Lina Meruane, escrever acerca dessa camada social é explorar, na narrativa, uma ideia de aceitação que envolve também tais questões políticas. “Escrevo sobre essa classe porque me parece um conjunto social muito oportunista. No Chile, e acredito que em outros lugares, a classe média despreza o que é tido como popular porque teme ‘converter-se’ aos hábitos desse cotidiano, ou porque, em determinado momento, saiu da classe popular e teme voltar. Ou, ainda, porque acredita que a classe alta não é capaz de distinguir entre quem é classe média e quem é pobre. A classe média quer ser aceita pelos mais ricos, que, por sua vez, os desprezam”, observa.

“Na política, esse desprezo pela classe trabalhadora impediu muitas reformas sociais que poderiam melhorar a situação histórica de exploração das massas. E isso formou, em muitos casos, um terreno propício para as ditaduras que prometiam impor a ordem, ou seja, proteger os privilégios das classes média e alta. No meu romance, esse assunto está posto como pano de fundo, porém tem sua importância: para Lucina, é uma espécie de doença crônica, um mal incurável, uma ferida aberta”, diz a chilena.

Já no livro de Bortagaray, o processo ditatorial é vigente, mas não amplamente discutido. Em alguns trechos, o leitor pode esquecer – e isso é um aspecto positivo, no que diz respeito à linguagem delicada empreendida pela uruguaia – em qual tempo a narrativa está inserida. Somos desviados para uma brisa marítima que envolve anéis de coco, músicas de José Luis Perales e cochilos.

Sobre a presença da classe média em seu romance, Inés expõe uma perspectiva mais particular, voltada para uma análise do desenvolvimento uruguaio contemporâneo. “Na primeira metade do século 20, o país produziu um culto à classe média plenamente alfabetizada, com acesso antecipado a uma grande plataforma de direitos trabalhistas. Aos olhos de um importante ensaísta como Carlos Real de Azua, o Uruguai se explica através de sua mesocracia – forma de governo na qual predominam os interesses de uma classe média que ama o estado intermediário das coisas, odeia as estridências e qualquer noção de extremo; orgulhosa de sua moderação e charme despretensioso”, analisa.


Em Um, dois e já, a uruguaia trabalha o corpo conectado à ideia de descoberta e investigação. Foto: Nicolas Pereyra/Divulgação

Para a uruguaia, esse conceito vem permeando o imaginário coletivo do país por muito tempo, e falar dessa classe “burguesa” é uma maneira de demonstrar desacordo com a mediocridade que ronda a população, ora como paraíso, ora como inferno. “O carro mais ou menos econômico, a família apertada lá dentro, sem protestar, pois não imagina outra forma de viajar que não seja sofrida. Esses são os poucos rasgos de uma classe média que me parece totalmente familiar”, arremata.

DOENÇA E MEMÓRIA
O corpo enfermo já foi propósito literário de alguns escritores como Tolstoi (A morte de Ivan Ilitch) e Camus (A peste). Virginia Woolf também escreve a respeito das mazelas físicas em On being III: “Considerando quão comum é a doença, quão tremenda a transformação, quão assombrosos, quando as luzes da saúde baixam, os países ignotos que são então expostos (…)”. Em A doença como metáfora, Sontag cria paralelos artísticos entre o câncer e a tuberculose.

Nas páginas de Sangue no olho, que na edição brasileira vão escurecendo gradativamente, Meruane associa os contratempos de um órgão doente à reminiscência. “É uma novela escrita no tempo presente, mas, você tem razão, existe nela muito de memória porque, para uma pessoa enferma, há sempre uma pressão muito grande a fim de que se encontre a origem de seu mal. Descobrir o motivo da doença entrega ao indivíduo a narrativa de seu presente. Assimilar o que aconteceu não significa consolo, é simplesmente porque uma enfermidade ou uma perda constituem ruptura, quebra, crise, um encontrar-se em estado de suspensão. A memória e a compreensão do passado são um apoio para não cair no vazio”, diz a chilena.

O resultado textual desse entrelaçamento é uma das bases que edificam o romance. Em diversos trechos, Meruane utiliza um recurso descritivo notável, como na passagem em que a protagonista vai ao banheiro durante um voo: “Então me desloquei pelo corredor, enumerando os assentos em busca do banheiro. Vinte e quatro. Tudo sob controle, pensei, me equilibrando no vaso do banheiro químico. Quando voltei, a turbulência começou e minha mão virou uma garra que procurava desajeitadamente, no vazio, se apoiar em um encosto, mas que em vez disso aterrissou sobre algo morno, mole carnudo. Meus dedos de abutre com unhas malcortadas tinham ido parar sobre um ombro”.

De acordo com a escritora, a possibilidade de substituir o sentido da visão pelos demais (principalmente tato e audição) foi um assunto deliberado durante as versões prévias do livro. O uso de múltiplos sentidos na escrita, a possibilidade de escrever com todo o corpo, é algo que está presente nas novelas anteriores de Meruane, mas que em Sangue no olho foi enfatizado.

Para a chilena, o momento mais surpreendente foi quando, após as suas pesquisas e leituras sobre sinestesia, começou a escrever o livro e compreendeu que não iria ser um romance “negro”, “às escuras”, guiado pelos outros sentidos. “A protagonista Lucina (assim como eu, durante o breve período em que estive cega) tem recordações muito imagéticas, mesmo de coisas que ela não viu. E ela recorda dessa maneira, porque a memória de quem antes enxergava continua sendo visual durante muito tempo depois da perda. O que não se viu se recupera a partir do que foi visto antes. Isso não é muito diferente de como lemos. Lê-se um livro e imaginam-se suas personagens, as paisagens, nós os enxergamos. Porém, escreve-se um livro sem se ver nada, apenas recordando, reconstruindo e imaginando o que vai entrar naquela cena. E, mesmo se a origem daquilo vem da realidade, o escritor reinventa. A memória faz o mesmo.”


Imagens: Reprodução

CORPO DE DESCOBERTA
Em Um, dois e já, as concepções de memória e corpo são detalhistas e estão associadas à descrição da paisagem imaginativa. Se, em Sangue no olho, existe uma procura pelo começo daquela doença maldita, no livro de Bortagaray, o passado é lento, acompanha o ritmo de maré calma e está ali para ser contado pelo simples prazer narrativo. Viajamos com a narradora e, acima de tudo, com os componentes que estão ao seu redor: a relação com os irmãos, pormenores de amizades queridas, o cemitério de animais no quintal da sua casa, piadas sem graça. Inés acerta na delicadeza com que se ocupa das lembranças durante todo o romance.

Também na construção linguística de Um, dois e já está o corpo, mas aqui conectado a ideia de descoberta e investigação. “Os joelhos das minhas irmãs são muito mais bonitos que os meus. A mais nova está de bermuda xadrez. O tecido se chama cloquê. A mais velha está com um conjunto de moletom lilás. Elas têm pernas bem-definidas e joelhos ossudos, e as pernas afinam quando chegam nos joelhos.”

Para a uruguaia, o exercício da memória é estimulado pela experiência física. “No decorrer de uma noite de verão, a percepção do frio mórbido ao pisar, sem querer e com os pés descalços, num sapo; o contato das mãos com a massa de pão caseiro; a música rítmica da água do rio batendo nas margens…Todas essas experimentações de tocar, ver, ouvir e olhar parecem-me um atalho bem eficaz para ingressar no território da memória.”

Além do corpóreo, Inés conecta a memória diretamente à imaginação. “Creio que as duas são, essencialmente, a mesma coisa. Gosto quando, como leitora, posso acompanhar um texto com a inventividade. Quando as coisas que povoam o planeta tomam forma e tornam-se verdadeiras. E eu sinto que isso ocorre por meio de uma cumplicidade, um pacto que se aceita ao longo da leitura, e que nos acompanha nessa viagem, como se fosse uma casa imaginária que tomamos como própria”, reflete.

Se os “finais dos romances têm menos probabilidade de erguer a voz” e “transmitem a permissão para que as tensões se aquietem; são antes um efeito do que afirmação”, como estabelece Sontag, em Questão de ênfase, os livros de Lina Meruane e Inés Bortagaray terminam num propósito de completude desse efeito: a sensibilidade dos que se apaziguam após alcançar um cume qualquer.

“Sob que circunstâncias nós consideramos as coisas sendo como reais?”, pergunta-se o filósofo norte-americano William James. Na literatura, segundo Meruane, tudo é real e tudo é inventado. Vestígios de realidade dos quais não podemos duvidar: estão todos presentes no relato difuso de Lucina e no colóquio simples empreendido pela garota que viaja no banco traseiro de um Renault 12. 

PRISCILLA CAMPOS, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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