Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Octavio paz: A dialética de comunhão e solidão

Este é o ano do centenário do escritor, poeta e ensaísta mexicano cujo cerne da obra se confunde com a história do México

TEXTO Eduardo Jardim

01 de Agosto de 2014

Octavio Paz

Octavio Paz

Foto Colette Urbajtel/Arquivo Manuel Álvarez Bravo/Divulgação

Quando Octavio Paz nasceu, em 1914, o México atravessava um período revolucionário que se estenderia até o final da década. Seu pai foi partidário de Emiliano Zapata. A história da revolução, com suas promessas e frustrações, marcou a obra do poeta e ensaísta. Para ele, a revolução foi o encontro do país consigo mesmo, mas ela se desvirtuou com a tomada do poder, como acontece sempre nesses casos. Seu primeiro grande ensaio, O labirinto da solidão, de 1950, que acaba de ser relançado no Brasil pela Cosac Naify, pretendeu ser um retrato do mexicano e constituiu uma tentativa de dar conta do que tinha se passado no país, ao longo do século 20.

A formação intelectual de Paz se deu na década de 1930, atravessada pelo antagonismo ideológico, que logo se manifestaria na Guerra Civil Espanhola e na Segunda Grande Guerra. Paz esteve na Espanha em 1937, para apoiar a causa republicana. Pouco depois, conheceu Pablo Neruda. Sua relação com o poeta chileno de orientação comunista foi tumultuada e terminou em rompimento. Anos mais tarde, uma situação semelhante iria acontecer com García Márquez, que apoiou o regime cubano, enquanto Paz foi sempre um crítico de qualquer forma de totalitarismo.

Também foram decisivos os encontros do jovem escritor com os intelectuais espanhóis que se mudaram para o México, depois da vitória de Franco, e com os surrealistas, especialmente com o francês André Breton. Com os espanhóis, o jovem escritor conheceu o pensamento existencialista de Ortega e Heidegger, a reflexão sobre a finitude e o valor da poesia; com Breton, viu que a poesia e a vida estavam ligadas intimamente.

ENSAIO E POESIA
Assim como articulou a poesia com a vida, Paz acreditou na associação entre poesia e crítica. A elaboração de sua obra poética teve por contraponto seu trabalho como ensaísta. À publicação da reunião de seus poemas, Libertad bajo palavra, em 1949, seguiu-se um período de amadurecimento de seus estudos, que resultou em O arco e a lira, de 1956. A reflexão sobre a poesia, sobretudo do período moderno, desdobrou-se, em seguida, em Os filhos do barro e A outra voz. Os versos de Paz formulam perguntas de grande relevância filosófica e seus escritos teóricos são muito poéticos. Em poemas como Pedra do sol e Blanco, traduzidos por Horácio Costa e Haroldo de Campos, respectivamente, nota-se intenso trabalho de reflexão. A obra de Paz é extensíssima, vai de 1933 até sua morte, em 1998. Além da produção poética, seus ensaios cobrem uma quantidade impressionante de assuntos: política, estética, filosofia, história do México, biografia, viagens, artes plásticas, cinema, antropologia. Será possível reconhecer um traço comum nessa pluralidade de assuntos e nessas múltiplas abordagens?

Muitos acreditam, com razão, que um escritor ou um pensador persegue, ao longo de sua obra, a resposta a uma única pergunta. Isso aconteceu com Octavio Paz. Em 1943, ele fez uma palestra sobre São João da Cruz e Quevedo, dois dos maiores poetas do século 17, na Espanha, intitulada Poesia de solidão e poesia de comunhão. São João expressa a experiência da comunhão com Deus, da completa consonância com a transcendência. O voo místico descrito nos seus versos foi possível porque ele ainda pertencia a um mundo em que imperava a harmonia de todas as esferas da experiência. Muito diferente foi o caminho de Quevedo. Ele é o poeta consciente de estar apartado da totalidade. E consciência significa cisão entre o eu e o mundo.

Os textos teóricos de Paz e sua poesia foram uma exploração sempre renovada do significado dessa oposição entre solidão e comunhão. O labirinto da solidão considera a história do México por esse viés. Ela começa com um período em que predominava um sentido unitário do mundo, na colônia, caminha para uma época de estranhamento do país relativamente a seu próprio modo de ser, no século 19, e alcança a Revolução, que constituiu a tentativa de resgate da unidade perdida.

A dialética de comunhão e solidão adquire na obra de Paz uma dimensão filosófica, histórica e existencial. Entretanto, ela nunca alcança um termo final, é incompleta. A lição que o escritor extraiu do exame da revolução mexicana é de que o resgate da identidade pretendido por ela é impossível. Do mesmo modo sob todos os outros aspectos: filosófico, pois nunca captamos a realidade como plenitude; histórico, pois a história nunca termina, como pretenderam filósofos como Marx; existencial, uma vez que nossa busca do absoluto é sempre insatisfatória.

Isso acarreta uma desistência ou significa um malogro? Não para Paz. As mais relevantes realizações da humanidade e as experiências mais preciosas de cada homem se explicam por estarem envolvidas na dialética da solidão. A vida de cada um progride na infância, a seu modo feliz, passa pelas obrigações do homem adulto, e caminha para o fim. Em certos momentos, temos a expectativa de recuperar alguma forma de completude. Essas são experiências que derivam do reconhecimento da nossa precariedade e também de nosso inconformismo diante delas. São como pontes que lançamos, mas que nunca atingem o outro lado.

Também do ponto de vista da história, a humanidade passou das comunidades primitivas até a modernidade, que é o momento em que se sofre da maior solidão. Octavio Paz considerou alguns enfrentamentos da dramática situação moderna. A política revolucionária foi um deles. Os grandes líderes dos séculos 19 e 20 prometeram a realização do reino da liberdade e a superação da solidão. Entretanto, o que se viu, e que Paz denunciou, foi que a síntese alcançada nessa dialética levou ao congelamento de todas as possibilidades criativas e à prisão a um novo absoluto. Outro foi o caminho apontado pelos poetas, a contrapelo do mundo moderno. Novalis, Nerval, Baudelaire, Lautréamont, Poe, Rimbaud e Breton são os verdadeiros heróis míticos do nosso tempo. O intento deles foi unir o céu e o inferno, mesmo sabendo que nunca atingiriam isso. 

EDUARDO JARDIM, escritor, doutor em Filosofia e autor do livro A duas vozes - Hannah Arendt e Octavio Paz.

Leia também:
Poesia: Uma mistura de contrários
Força da tradição humanista

Publicidade

veja também

Força da tradição humanista

Dança, seja qual for

Conversa com o artista que vai morrer