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Força da tradição humanista

TEXTO Eduardo Cesar Maia

01 de Agosto de 2014

Octavio Paz

Octavio Paz

Foto Foto: Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de "Leitura" | ed. 164 | ago 2014]

No ano de 1990, por ocasião do recebimento do
Prêmio Nobel de Literatura, Octavio Paz foi mundialmente celebrado e reconhecido pelo “labor como insígne crítico, poeta e voz da consciência não somente do México, mas de toda humanidade latino-americana”. Não sei ao certo o que a academia sueca pretendeu dizer com “humanidade latino-americana”, nem acredito nessa setorização ou loteamento do humano, a não ser quando se trata de geografia ou política: o testemunho vital e intelectual de Octavio Paz é, a meu ver, um legado humanista universal. O amplo reconhecimento internacional – incluindo aí os Estados Unidos e a Europa –, além da fortuna crítica e das traduções de suas obras, tanto poéticas quanto ensaísticas, para mais de 30 idiomas, são a prova material disso. No entanto, apenas a leitura daquilo que escreveu – principalmente em seus ensaios – é que pode atestar a filiação intelectual do mexicano a certa tradição humanística de pensamento, por certo muito bem-representada em língua castelhana por pensadores como Baltasar Gracián, Luis Vives, Miguel de Unamuno, José Ortega y Gasset e María Zambrano.

Uma das figuras mais representativas e relevantes dessa tradição humanista, Francesco Petrarca, defendia a postura intelectual de aceitar humildemente a ignorância humana em relação às coisas divinas e duvidar das pretensões de que o homem pudesse atingir um tipo de conhecimento completamente objetivo da natureza, totalmente independente de sua perspectiva subjetiva. Michel de Montaigne, cerca de 200 anos depois, reviveu essa ideia e legitimou filosoficamente um tipo de conhecimento que se origina a partir de uma exploração interior, e que tem como fulcro a riqueza da experiência humana. Essa valorização da perspectiva individual e da vivência concreta, fundamental no humanismo, explica por que a filosofia escolástica foi tão duramente combatida pelos humanistas do Renascimento: justamente por se centrar numa preocupação exclusivista com questões metafísicas, com a perfeição do encadeamento lógico dos argumentos e com uma estrutura sistemática e abstrata de todo pensamento filosófico, mas que deixava de lado os problemas ordinários da existência humana temporal, e desprezava a experiência individual como forma de conhecimento válido.

A produção ensaística de Octavio Paz pertence a essa linhagem, e as evidências em apoio a essa afirmação são várias. Para Paz, a linguagem é um organismo vivo e as palavras “são rebeldes à definição”; sua concepção de conhecimento resiste, pois, aos limites de uma visão exclusivamente racionalista e logicista, e tampouco se dobrou, em nenhum momento, frente às pretensões cientificistas de diversas correntes teóricas hegemônicas em sua época. Não seria correto, contudo, classificá-lo como “irracionalista”: a crítica do ensaísta se dirige não à razão e à lógica, mas à mistificação delas, a partir da criação de uma ordem abstrata, fechada, sistemática e imutável como base essencial do universo. Distanciando-se de qualquer versão idealista de pensamento, Paz aceita que mesmo a nossa lógica mais “pura” é algo totalmente contingente, pois nasce, assim como a própria linguagem, de nossa interação cotidiana com o mundo. Entretanto, ainda que contingente e orgânica, a linguagem possui necessariamente uma estrutura lógica, sem a qual – reconhece o ensaísta – não poderia funcionar.

Em uma parte fundamental de O arco e a lira, escreve Paz: “As palavras se conduzem como seres caprichosos e autônomos. Sempre dizem ‘isto e o outro’ e, ao mesmo tempo, ‘aquilo e o de mais além’. O pensamento não se resigna; forçado a usá-las, uma e outra vez pretende reduzi-las às suas próprias leis; e uma e outra vez a linguagem se rebela e rompe os diques da sintaxe e do dicionário. Léxicos e gramáticas são obras condenadas a não serem terminadas nunca. O idioma está sempre em movimento, ainda que o homem, por ocupar o centro do redemoinho, poucas vezes se dê conta dessa incessante mudança”. É justamente a liberdade garantida pela retórica do ensaio que permite, àqueles que o cultivam, o uso de ferramentas poéticas como a metáfora e as analogias, além do discurso indireto, digressivo, subjetivo, circular... O grande valor dos ensaios do autor de O labirinto da solidão reside justamente em seu poder criativo, metafórico, na beleza sensual de suas imagens, em um tipo de rigor ao mesmo tempo intelectual e estético, que impressiona a inteligência e a sensibilidade do leitor.

É tarefa estéril querer localizar o pensamento de Octavio Paz – principalmente aquele revelado em sua ensaística – dentro de uma teoria exclusiva ou de um único sistema filosófico, ainda que ele tenha sido influenciado por várias correntes teóricas e literárias de seu tempo. Sua obra reflete uma negação peremptória de esquemas, teorias e sistemas fechados de pensamento. E essa é outra evidência de sua filiação humanista: não encontramos nele o trabalho de um especialista, de alguém versado em uma determinada área do conhecimento. Em um mesmo texto seu, é comum a presença de vários temas entrelaçados, perspectivas diferentes em diálogo franco e mesmo contradições lógicas impensáveis dentro dos limites de um pensamento analítico. Em seus ensaios, não há a pretensão de se esgotar um tema ou de serem estabelecidas definições últimas: o importante é buscar – ensaiar – novos caminhos, novas formas de ver. Dizia Ortega y Gasset que o ensaio é “a ciência sem a prova explícita”; nesse gênero, não é necessário provar nenhum argumento de maneira definitiva, pois não se busca a certeza, nem a objetividade. A ânsia moderna, racionalista e cartesiana por um saber apodítico (universal e necessário) é deixada de lado. O ensaísta se alimenta da constatação do caráter contingencial e provisório de nossa existência e de tudo aquilo que presumimos saber.

Num elogio a um de seus maiores mestres intelectuais, escreveu Octavio Paz: “Diz-se que Alfonso Reyes é um dos maiores prosadores da língua; é preciso acrescentar que essa prosa não seria a que é se não fosse a prosa de um poeta”. Tais palavras caberiam perfeitamente numa caracterização do próprio Paz, porque seus ensaios são também peças de um criador da linguagem, de um poeta. 

EDUARDO CESAR MAIA, jornalista, mestre e doutor em Teoria da Literatura.

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