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Liras: Os “conservatórios” do interior do país

Conjuntos de sopros e percussão, conhecidos sob várias denominações, transmitem os rudimentos do ensino musical e congregam comunidades espalhadas em diversas cidades interioranas de Pernambuco

TEXTO Carlos Eduardo Amaral

01 de Outubro de 2011

Imagem Pedro Melo

Villa-Lobos (1887-1959), em uma de suas folclóricas boutades, disse certa vez: “O Conservatório Brasileiro de Música são as bandas do interior”. Talvez, o célebre compositor se referisse ao Rio de Janeiro, em cuja capital nasceu, cresceu e morreu. Todavia não é difícil constatar a disseminação da atividade dessas bandas por todas as regiões do país, desde o século 19, com mais regularidade.

Sob o nome de liras, sociedades musicais, grêmios musicais, bandas sinfônicas, sociedades filarmônicas e outros, os conjuntos de sopros e percussão que encarnam essas denominações cumprem, até hoje, uma série de funções sociais nas comunidades onde se situam: estudantil, marcial, civil, religiosa, carnavalesca... Isso sem falar das situações comuns, para não dizer predominantes, em que uma banda marcial tem de cuidar do repertório de procissões, ou de alguma fanfarra escolar chamada a tocar em solenidades políticas.

E quando duas bandas coabitam na mesma cidade, a rivalidade entre elas pode chegar às vias de fato, como no caso das duas mais antigas de Pernambuco a se preservarem na ativa. Fundadas respectivamente em 1848 e 1849 na cidade de Goiana, a Curica (ligada ao Partido Conservador da época) e a Saboeira (arauto do Partido Liberal) protagonizaram histórias de brigas e tiroteios, inclusive após a era republicana e o consequente arrefecimento das brigas partidárias de tempos monárquicos.

Porém, na maioria das vezes, a política mais atrapalha do que ajuda a consolidação das sociedades musicais. Fácil imaginar por quê: basta que uma delas se alie a um prefeito, para adquirir um estigma e pagar por ele quando a oposição chegar ao poder. Fora essa saída, resta a escassez de eventos cívicos e religiosos, o que pouco gratifica as bandas e obriga a música a ser um hobby um tanto penoso, a ponto de ceder ante as obrigações da lavoura e do comércio ou o êxodo de estudantes para cidades maiores.

Nesse contexto de incerteza, as figuras cruciais para o crescimento e o sucesso das bandas de interior, ou ao menos de equilíbrio, acabam sendo os mestres de bandas – antes, em sua maioria, militares aposentados com domínio de vários instrumentos, mas também músicos formados nas capitais e regressos às suas cidades de origem. Exemplo notório desse segundo caso é o do maestro Mozart Vieira, da Banda Sinfônica dos Meninos de São Caetano (ele mesmo vítima de mazelas políticas).


A Sociedade Musical Curica tem uma rivalidade histórica com a Banda Saboeira, ambas da cidade de Goiana, na Zona da Mata Norte. Foto: Rodrigo Lobo/Agência Estado

PROJETO DE APOIO
Tendo observado a situação de abandono ou de falta de qualificação em diversas bandas fora do Recife, algumas delas centenárias, o Conservatório Pernambucano de Música (CPM) criou, em 2007, o projeto Bandas de PE, que ministra anualmente uma série de oficinas de aprimoramento pelas regiões do estado. Nas aulas, os professores enviados pela instituição oferecem material didático e trabalham pontos técnicos dos instrumentos e de regência, bem como prática de conjunto e, em alguns casos, editoração de partituras.

Segundo o trompetista Diógenes “Colorau” Pires, coordenador pedagógico do projeto, o Bandas de PE certificou 1.256 músicos de 195 bandas, entre 2007 e 2010, e, nos últimos dois meses, percorreu as cidades do Cabo, Timbaúba, Floresta e Belo Jardim. Ele acrescenta que o CPM adota um sistema informal de parcerias com as prefeituras para viabilizar as visitas: o conservatório paga aos professores e o deslocamento até o interior, ao passo que elas providenciam refeições, transporte local e lugar adequado para as aulas.

Colorau Pires resume o quadro geral das bandas ao longo das viagens que vem fazendo: “Observo o óbvio: quanto mais distante o município, mais problemas. A falta de informação, mesmo com a internet presente, faz com que os músicos necessitem de orientações e do apoio da sociedade, salvo quando o prefeito é músico e sensível à arte”. O trompetista lembra que o incentivo da sociedade é indispensável, pois as bandas interioranas revelaram diversos nomes para a música pernambucana, como Clóvis Pereira, José Menezes, Moacir Santos e os goianenses Guedes Peixoto e maestro Duda, ex-integrantes da Saboeira.

Nesse ínterim, a sustentabilidade e a educação musical obrigatória desempenhariam um papel vital para a reciclagem das sociedades musicais, segundo Colorau Pires, que também dá aulas de editoração de partituras no projeto Bandas de PE. A título de solução para a situação crônica de algumas bandas, ele reforça que as escolas públicas ajudarão ao instituir o ensino musical no currículo e que a organização de cursos de gestão cultural para as bandas precisa acontecer.

A origem da popularidade das bandas marciais encontra-se ligada a um marco da História Ocidental bastante conhecido. A Revolução Francesa, fora as reformas sociais e políticas que desencadeou, possibilitou o contexto favorável para que as bandas saíssem às ruas e puxassem os cantos revolucionários. Conforme José Ramos Tinhorão resgata em seu último livro A música popular que surge na era da Revolução (2010), esses cantos nasceram por influência direta das trupes teatrais de rua que vinham evoluindo antes mesmo de 1789.


O trompetista é o coordenador do projeto Bandas de PE, do Conservatótio Pernambucano de Música. Foto: Chico Ludermir

Outra evolução a se ter em conta, de ordem técnica e ocorrida na primeira metade do século 19, está na invenção dos pistões dos instrumentos de metais, fator que determinou um alcance pleno da tessitura (extensão de notas) de trompetes, trompas, tubas e afins e beneficiou tanto a sonoridade das bandas quanto a das orquestras sinfônicas. As bandas militares e civis, de qualquer forma, serviam melhor a propósitos públicos por causa de um aspecto acústico: a boa projeção sonora de sopros e percussão ao ar livre, algo para o qual instrumentos de cordas perdem.

No século 20, o impulso das bandas sinfônicas nos Estados Unidos veio a dar novo fôlego ao repertório de salas de concerto e ao mercado de trabalho musical. Elas consistem em uma adaptação das bandas cívico-militares para as referidas salas, onde o instrumental de percussão e madeira, bem mais variado, espelha-se no das orquestras sinfônicas e são dispensados metais não usuais nas mesmas orquestras, tais como bombardinos e sousafones.

Em Pernambuco, a Banda Sinfônica da Cidade do Recife, fundada em 1958 e uma das poucas do gênero no país, mantém constante programação e comemora aniversário junto ao público, no dia 7 de outubro. O maestro Nenéu Liberalquino, que em julho de 2012 completa 10 anos no comando da BSCR, detalha que as prioridades da banda, no momento, englobam a aquisição de instrumental e a renegociação salarial dos funcionários, cuja isonomia com a Orquestra Sinfônica do Recife foi quebrada: “Precisamos de alguns instrumentos como tímpanos e instrumentos de percussão de som determinado como xilofone, marimba, pois sempre que precisamos é necessário alugar. Ademais, é importante que os músicos sejam melhor remunerados”.

Entre os compositores célebres de música orquestral, alguns recorrentes na BSCR, que escreveram obras para bandas (sinfônicas ou não), estão: Stravinsky (Sinfonia para instrumentos de sopro), Holst (Hammersmith), Richard Strauss (Sonatinas n° 1 e 2) e Milhaud (Suíte francesa), além dos brasileiros Osvaldo Lacerda (Suíte Guanabara), Edmundo Villani-Côrtes (Djopoi) e Amaral Vieira (Fantasia-coral ‘in nativitate domini’, para duas bandas sinfônicas, coro e meio-soprano), os dois últimos na ativa.

Desde a Renascença, os conjuntos de sopro e percussão executam peças originais para sua própria formação. Por outro lado, o século 20 presenciou a ascensão de compositores versados na escrita para metais, como o norte-americano Alfred Reed (1921-2005) – outro conhecido dos programas da BSCR – e, um pouco antes, Anacleto de Medeiros (1866-1907), responsável por elevar o patamar artístico da Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro e a torná-la a primeira do país a gravar discos, sendo reverenciado post mortem por Villa-Lobos e Rogério Duprat (1932-2006).

As bandas de música, de qualquer espécie e tamanho, com o tempo, aliaram a vocação original a uma série de funções sociais contíguas aqui referidas, conforme as comunidades em que estão inseridas. Caso da Sociedade Musical Agreste Setentrional Pernambucano que acompanhamos em recente viagem ao Recife, documentada na reportagem que se segue.

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