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Cobertura

Corpos em encantamento, deslocamento e enfrentamento

Nesta edição que marca o retorno do festival de artes cênicas, a dança e suas transversalidades aparecem com mais força do que nos anos anteriores

TEXTO Márcio Bastos

22 de Abril de 2022

O processo criativo de 'Encantado', da Lia Rodrigues Cia. de Danças, foi inspirado no premiado romance 'Torto arado'

O processo criativo de 'Encantado', da Lia Rodrigues Cia. de Danças, foi inspirado no premiado romance 'Torto arado'

Foto Lucas Emanuel/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Comemorando 10 anos, o Trema! Festival deu início à sua atual edição com o desafio de se apresentar na linha fina entre o que morre e o que pode renascer. Se considerava findado, voltou, mas não sabe se é uma ressurreição. Quando, de fato, algo morre? Talvez quando seja esquecido, daí a importância da memória. Mas não apenas aquela dos livros, dos registros burocráticos ou intelectuais, mas também a dos afetos, a do imaginário coletivo. Na noite de abertura do festival, esse processo de ativação foi evidente, como em um ritual de evocação dos que pereceram e de celebração dos vivos, tendo como gatilho a apresentação de Encantado, da Lia Rodrigues Companhia de Danças (RJ).

A escolha do trabalho mais recente da companhia carioca e a data do início do Trema! foram emblemáticas. Estabelecido desde 1940 como Dia do Índio, e agora lembrado como o Dia da Resistência Indígena, o 19 de abril está longe de ser um marco comemorativo – é, antes de tudo, um lembrete da luta diária dos povos originários do Brasil e da persistência diante do massacre de sua existência e culturas. 

Antes da sessão do espetáculo, foi apresentada, na área externa do Parque Dona Lindu, a performance Involuntários da pátria, de Fernanda Silva, com direção de Sonia Sobral. A partir do texto de Eduardo Viveiros de Castro, Fernanda, uma artista negra, indígena e LGBTQIA+, clama por outro olhar sobre os povos originários e, mais do que seu direito à terra, clama por seu pertencimento a ela. Não é (só) sobre a propriedade do território, mas como isso é parte do próprio existir, dos que se veem integrados à natureza, não apartados dela. No Trema!, o texto declamado em meio ao jardim do Dona Lindu, em frente ao mar e cercado por prédios, ganhou uma potência ainda maior.




Cenas da performance Involuntários da pátria. Fotos: Lucas Emanuel/Divulgação 

E ecoou também dentro do Teatro Luiz Mendonça, equipamento cultural do parque que recebeu o espetáculo Encantado, responsável pela noite de abertura. A nova criação da Lia Rodrigues Cia. de Danças estreou no final de 2021, em Paris, e cumpriu recentemente temporada em São Paulo, chegando ao Trema! ainda fresco de sua circulação. O processo criativo é inspirado no premiado romance Torto arado, de Itamar Vieira Júnior, um dos fenômenos recentes da literatura brasileira.

A obra celebra um Brasil que vem sendo constantemente atacado, vítima de um projeto que quer seu apagamento em prol de uma cultura higienizada, europeizada, conservadora e, sobretudo, desigual. Olha para outras cosmologias, para além da cristã, abraçando as visões de mundo dos povos indígenas e das matrizes africanas que alicerçam a identidade brasileira. Para isso, a companhia, que tem sua sede no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, imerge nos mitos dessas culturas e evoca imagens de seres fantásticos, de animais, para além do humano e também parte dele. É um olhar que extrapola o antropoceno e dialoga com o sobrenatural em suas várias expressões, principalmente na dimensão corpórea.

Entrando em cena nus, os bailarinos criam formas e figurinos a partir do que, a princípio, parece ser uma tapeçaria uniforme. Eles se embrenham nesses tecidos, se transformam, viram bichos, espíritos, gente do povo. Colorido, vibrante, o espetáculo assume um lugar quase hipnótico. Ativa uma zona sensorial que convoca o espectador a se conectar com essa ancestralidade resistente, persistente que, de alguma forma, está em cada um de nós. Há um elemento de magia permeando a obra, que respeita a natureza das entidades celebradas no espetáculo e convoca à presencialidade. É impossível captar sua força no vídeo ou em qualquer outro registro; ainda que as imagens sejam belas, há algo além da estética, uma energia que captura o espectador para aquele universo vivo.


Os movimentos e texturas de Encantado. Fotos: Lucas Emanuel/Divulgação

Existe a construção de uma paisagem que se estabelece entre natureza e planos espirituais, como um encontro entre a matéria e o divino. Os corpos dos 11 bailarinos-criadores estão sempre em cena, se fundem para dar vida (ou incorporar) esses seres, para descobrir novas formas e forças do corpo. Têm sua individualidade destacada e também estão em conexão constante. É como se fizessem parte deste grande ecossistema representado pelos tecidos, desta Gaia fecunda que emana vida, mesmo diante do caos. 

A trilha sonora assinada por Alexandre Seara é pulsante, celebratória e também evoca uma tradição de luta. Foi criada a partir de trechos de músicas do povo Guarani Mbya, da aldeia de Kalipety, localizada na terra indígena de Tenondé Porã (SP); músicas captadas durante a marcha contra o “marco temporal” proposto pelo governo federal. Os movimentos dos artistas são resultados dessa grande mistura de passado, presente e futuro, de corpos diferentes, de culturas diversas. É possível ver um pouco de muitas danças (até o voguing e a alusão à coreografia de Single ladies, de Beyoncé, se fazem presentes), em um grande caldeirão de matéria viva.

E vida talvez seja o grande mote de Encantado, vocábulo que, para alguns povos indígenas, remete à dimensão espiritual da existência, também presente na matéria. Espetáculo criado na pandemia, em meio a tanta morte e caos, esse é um trabalho que busca resgatar uma ideia de Brasil que talvez nunca tenha se concretizado, mas que, enquanto sonho, sempre pareceu digna de se buscar. Um país diverso, cheio de tesão e alegria, científico e místico. Uma utopia na qual, ao menos no campo da arte, ainda é possível acreditar.


Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

CORPOS QUE DANÇAM
Bando dança que ninguém quer ver, da Companhia Giradança (RN), é brutal. Há uma dureza permeando todo o trabalho, como um lembrete de que a vida em sociedade não é fácil. Isoladamente, também não. O espetáculo coloca os corpos dos bailarinos em constante tensão, atenção e doação. Eles correm, se protegem, atacam, se aproximam e se repelem em um jogo que coloca o espectador em estado de alerta.

A obra provoca o público a rever seu olhar sobre os corpos presentes no palco – e também fora dele. A companhia é formada por artistas heterogêneos, com e sem deficiências físicas, alguns deles invisibilizados socialmente por conta do capacitismo estrutural. Bando coloca esses corpos em pé de igualdade para ocuparem o espaço, disputar visibilidade e colaborar. Permite aos artistas explorarem as possibilidades da dança contemporânea em toda sua potência, reforçando que a pesquisa de movimento vá além do que se convencionou como virtuosismo técnico.

E técnica e vigor não faltam aos bailarinos do coletivo. Em cena, todos brilham e se arriscam. Não há hierarquias – estão todos vulneráveis. O trabalho questiona o tempo todo o espectador: ao olhar determinados corpos, por que se associam certas características e se excluem outras? Certos corpos são frágeis só por não estarem no padrão? O espetáculo coloca isso em pauta sem fazer concessões. 




Bailarinos do espetáculo Bando – dança que ninguém quer ver. Fotos: Danilo Galvão/Divulgação

A sintonia dos bailarinos impressiona e os artistas constroem imagens poderosas para discutir pertencimento e segregação. Os corpos se colocam em embate e também têm que trabalhar juntos. Agregam e excluem, como um espelho que reflete de volta nossas contradições enquanto indivíduos e sociedade.

MEMÓRIA DO CORPO
Quando tinha nove anos, Roberta Ramos escreveu uma peça chamada Essa menina. Era um texto aparentemente ingênuo de uma garota criativa, estimulada, desde cedo, pelas mulheres do seu entorno a se expressar. O escrito era atravessado por temáticas que deveriam ser estranhas a uma criança, como o adultério e o abandono, mas que faziam parte do contexto cultural em que ela vivia, no início da década de 1980. Nas telenovelas, consumidas avidamente por ela, o machismo era naturalizado, em um reflexo de como a sociedade brasileira operava (e, apesar dos avanços, ainda opera). 

Essa peça da infância dá título também ao novo trabalho de Roberta, do Coletivo Lugar Comum, em parceria com o diretor Rodrigo Dourado, do Teatro de Fronteira. A obra, ainda em processo, foi apresentada ao público pela primeira vez, em um ensaio aberto, na última quinta (21), no Memorial da Medicina, prédio histórico localizado no bairro do Derby, no Recife. O trabalho une teatro documental e dança para mergulhar nas memórias da artista, ao mesmo tempo em que discute elementos basilares da cultura patriarcal brasileira.

O clima de intimismo norteia a encenação, desde a hora em que o público é recebido pela bailarina no hall do prédio, ao som do que, mais à frente, descobrimos ser uma gravação da avó dela tocando piano. É uma sequência que também sugere um deslocamento da realidade, convidando o público para um ambiente mais onírico, com a artista dançando banhada por uma iluminação colorida. Aos poucos, o movimento conduz o público para o espaço da encenação, no primeiro andar, quase como um convite a adentrar o ambiente privado da sua afetividade.


Roberta Ramos e suas memórias. Foto: Divulgação

A investigação das memórias pessoais e familiares se expressa no achado de músicas, fotografias e no próprio corpo de Roberta, recursos recorrentes no biodrama. A artista se coloca em um estado de vulnerabilidade que confere camadas genuínas de emoção, firmando, assim, um pacto de cumplicidade e empatia com a plateia. O ensaio aberto contou ainda com elementos extras de sensibilidade, graças à presença da mãe da artista, uma figura que atravessa o trabalho.

RITMOS DA CIDADE
Nesta edição do Trema!, que segue até o dia 1º de maio, em diferentes espaços, a dança e suas transversalidades aparecem com mais força do que nos anos anteriores, alinhando-se a um movimento forte da arte contemporânea de agregar, ao invés de estabelecer fronteiras rígidas entre expressões artísticas. Ao longo da programação, a linguagem aparece como base ou elemento importante de espetáculos que borram barreiras e instigam outras formas de pensar o mundo através dos corpos.

Ainda dentro do lado a, como o festival organiza a sua programação este ano, Orun Santana (PE) apresenta Meia Noite, neste sábado (23), às 18h, no Teatro Hermilo Borba Filho. Na obra, ele reflete sobre sua relação com o pai, o Mestre Meia Noite, sobre masculinidade, ancestralidade e sobre como essas vivências estão impressas no seu corpo.

No lado b, que começa na terça-feira (26), a dança se faz presente em diálogo com outras artes, como o teatro, caso de Mar fechado, do Teatro Agridoce (PE), agendado para o dia 28, às 19h, no Teatro Marco Camarotti, em sessão com tradução em Libras.

De Portugal, André Braga e Cláudia Figueiredo mostram, pela primeira vez no Recife, o trabalho Feedback, resultado de uma pesquisa que trabalha nas bordas das artes visuais, da poesia e do vídeo. A apresentação está marcada para os dias 29 e 30 de abril, às 19h, no Teatro Hermilo Borba Filho.

Também no dia 30, o coletivo No Barraco da Constância Tem! (CE) provoca outros olhares sobre a cidade – seus mortos, fantasmas e sobreviventes –, com o trabalho Delirantes e malsãs, às 16h30, no Dona Lindu. Gabi Holanda (PE) trabalha de forma poética a relação da humanidade com a natureza no espetáculo Sopro d’água, programado para ser encenado em Limoeiro, às 19h30.

Toda a programação do Trema! é gratuita (confira aqui).

MÁRCIO BASTOS, jornalista cultural e mestrando em Comunicação na Universidade Federal de Pernambuco.

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