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Cobertura

O Palhaço Xuxu está de volta

Após meses de isolamento por conta da pandemia, personagem-alterego do paraibano Luiz Carlos Vasconcelos leva gargalhadas a públicos do Mato Grosso do Sul

TEXTO ERIKA MUNIZ, DE CAMPO GRANDE*

30 de Novembro de 2021

Xuxu fez duas apresentações no festival

Xuxu fez duas apresentações no festival

Foto Álvaro Herculano/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Da Esplanada Ferroviária, na área central de Campo Grande (MS), para o Distrito de Anhanduí, são cerca de 60 km de distância. Na saída, o GPS marcava aproximadamente uma hora até o local onde aconteceria a primeira das duas apresentações do Palhaço Xuxu no Campão Cultural – 1º Festival de Arte, Diversidade e Cidadania. No dia seguinte, seria a vez da Concha Acústica Helena Meirelles, no Parque das Nações Indígenas, receber o espetáculo Silêncio total – vem chegando um palhaço, com público formado por gente de todas as idades. Durante a passagem do ator e diretor Luiz Carlos Vasconcelos pela capital sul-mato-grossense, a Continente acompanhou as duas vezes em que ele subiu no palco e também realizou uma entrevista com o artista sobre seu reencontro com Xuxu, após dois anos de isolamento, e sobre a importância e urgência do riso em nossas vidas.

No percurso da BR-163, seguimos até o local onde aconteceria a primeira apresentação do Palhaço Xuxu no festival. Enquanto o Google Maps nos levava para uma região de Anhanduí, distrito localizado ao sul de Campo Grande, a Associação de Moradores, onde o espetáculo seria sediado, ficava do outro lado. Como ainda era cedo e a noite estava de chegada, havia gente voltando do trabalho, vendedores e pessoas circulando pelas ruas.

Embora a tecnologia às vezes realmente nos ajude, nenhuma criação digital ainda foi capaz de superar a potência que é gente circulando pelas ruas e a precisão das informações dadas por quem vive e conhece o seu lugar. Foi só perguntarmos a um casal local, que rapidamente chegamos a tempo de assistir aos primeiros minutos de Silêncio total – vem chegando um palhaço.

Do lado de fora, já dava para ver as cadeiras organizadas ao redor do palco, que abraçava o cenário constituído por um tecido colorido, uma mesa e os materiais que seriam utilizados para o show – entre eles, um instrumento de fole e um baú azul – e um monociclo. Poderia até arriscar dizer que Xuxu foi criado em João Pessoa (PB), no final da década de 1970, quando seu criador começou a chamá-lo por esse nome. Mas, pela conversa com o ator e diretor Luiz Carlos Vasconcelos, entendi que a composição de seu palhaço já vinha acontecendo bem antes disso; quando ainda vivia em sua terra natal.

Nascido na cidade de Umbuzeiro, a aproximadamente 155 km de carro de João Pessoa, Luiz morou até os 13 anos por lá, tempo de seu pai ser transferido para a capital da Paraíba. Assim, ele e seus irmãos foram “conhecer a praia”. Sua relação com o circo e com o teatro começa a ser construída ainda na infância umbuzeira: “Toda a minha criação teatral está fundada ali. Aos seis anos, numa noite só, conheci o circo, o teatro, o ator e o palhaço. (…) Por mim mesmo, descobri que, na segunda parte do espetáculo, tinha o melodrama. Quando o assisto, descubro, sem que ninguém me dissesse, que o ator principal tinha sido o palhaço da primeira parte. E que a atriz principal era a partner dele. Era um casal que fazia a dupla cômica na primeira parte e voltava fazendo o drama na segunda. Isso é muito emblemático. Eu, uma criança muito pequena, mas fiz essa identificação. Antes disso, eu brincava de inventar histórias, porque a televisão estava nascendo e a casa do meu pai foi uma das primeiras, em Umbuzeiro, no interior da Paraíba, a ter uma. Passavam seriados que sempre terminavam no suspense para continuar no dia seguinte. Eu imitava isso, inventava histórias. Não sabia o fim e dizia: ‘Amanhã eu continuo’. Muitas histórias dessas ficaram sem fim, mas eu brincava disso. Era o que via na feira, os leitores de folhetos de cordel”, relembrou, em entrevista à Continente, na van a caminho da Concha Acústica, onde acompanharíamos a montagem do cenário de seu espetáculo no sábado (27/11).

 
Fotos: Álvaro Herculano/Divulgação

Quando teve contato com o circo, Luiz percebeu que, além de contar histórias, era possível também “ser e representar”. “Hoje, quando olho o palhaço e o teatro que eu faço, é o melodrama. O melodrama que me fundou e está até hoje em mim. Antes de tentar ser engraçado ou o que for, é a condição de patinho feio da humanidade, própria do palhaço, que põe tudo o que é risível de tipo em si”, disse.

Atualmente, ele está em cartaz nos cinemas, interpretando o personagem Joaquim Câmara Ferreira, o Branco, parceiro de confiança do protagonista do filme Marighella, dirigido por Wagner Moura. Mas Luiz Carlos Vasconcelos também viveu outras figuras emblemáticas na telona, a exemplo de Virgulino Ferreira da Silva, o cangaceiro mais temido do Nordeste, Lampião, no filme Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas.

“Sou nutrido por esses efeitos do melodrama, mas me atualizo com o teatro contemporâneo. (...) Mas é aquele melodrama, os princípios do esgarçamento da teatralidade, da surpresa reveladora, de levar o espectador ao pranto e ao riso. Isso é meu, ninguém me toma mais, porque foi me dado. Contei muita história, né? (risos) Mas só para contar que a infância, sim, ela nos faz”, comentou.

Durante as apresentações, a intimidade de Luiz Carlos Vasconcelos com seu Palhaço Xuxu e a relação decisiva da plateia com o espetáculo convocam os olhares e as gargalhadas do público constantemente. Em Anhanduí, por exemplo, era o seu reencontro com esse personagem marcante de sua trajetória, após vários meses de isolamento social. Mas, pelas gargalhadas que a plateia deu e a empolgação que foi acompanhada por lá, isso não comprometeu em nada a diversão.

Na essência, um palhaço é o seu próprio criador, pois é de todas as fissuras do humano – o ridículo, a vaidade, a poesia, a estupidez, a festa – que se faz um palhaço. E já são mais de quatro décadas desse palhaço-cidadão, que, com documentação e tudo, tem sua origem na improvisação e experimentação pelas ruas da capital paraibana. “Seja qual for o personagem, serei sempre eu. Xuxu sou eu, foi duro descobrir isso. Descobri já no Rio de Janeiro, em 1984. Muitos anos depois, senti que precisava fazer terapia e não tinha dinheiro. Vivia do dinheiro do palhaço, que ganhava em festas de animação e tal. Achei um terapeuta que disse: ‘Ah, você pode fazer uma terapia de grupo’. Eram seis pessoas, pagava uma coisa simbólica para estar no meio daquele grupo. Percebia, nas observações, que eu falava bem de Xuxu e mal de Luiz Carlos. Até que, em uma tarde, ele (o terapeuta) joga a sentença: ‘Você nunca se perguntou ou percebeu que os dois são um só?’”, revelou. 


O artista paraibano Luiz Carlos Vasconcelos. Foto: André Patroni/Divulgação

Entre os momentos mais emocionantes – e urgentes – do solo trazido pelo ator ao Mato Grosso do Sul, a leitura da Declaração do Riso da Terra talvez seja a que mais ganhe significados no atual contexto político e econômico do país. Após quase dois anos sem lê-la, voltar a ela, em Anhanduí, foi perceber que “está mais atual ainda”. “‘Vivemos momentos que parecem que a estupidez humana é nossa maior ameaça’. É o que abre a carta. Estou falando de hoje! Nossa, foi muito forte para mim ver como se pode retroagir tanto. Uma carta que se falava, genericamente, em 2001, sobre a importância e a necessidade do riso."

É impressionante o quanto uma figura de nariz vermelho, roupas coloridas e desastrada em suas ações consiga fazer com que crianças e adultos aflorem um bem tão precioso quanto o riso. Assistir a Xuxu nesses dois dias nos lembra que, de fato, "enquanto rirmos, estaremos em paz".

OUTRAS ATRAÇÕES
Para quem está curtindo o evento campo-grandense desde os primeiros dias, uma das características que se evidenciam é a de que os locais das atrações estão espalhados por toda a cidade. Outro ponto é que a programação não se restringe a ambientes fechados, que possuem um número delimitado de ocupação, já que há uma prioridade por locais abertos numa pandemia como a da Covid-19.

Das ações que estão rolando (e colorindo de arte a paisagem das ruas), merece destaque a live paint que vem sendo desenvolvida em um dos prédios do Centro, pelos artistas Gramaloka Gonzales e Hyper, de Minas Gerais. Diariamente, uma projeção de obras que compõem o acervo do Museu de Arte Contemporânea do Mato Grosso do Sul também é exibida nas paredes externas da instituição. Quem passa lá por perto, consegue enxergar a intervenção.

No último final de semana, a música ganhou ainda mais espaço no Campão Cultural, com a abertura do Palco Mestre Galvão, em que artistas sul-mato-grossenses, como Atitude 67, Renatto Jackson e o Grupo Acaba, agitaram as noites e convidaram a população local à área da Esplanada Ferroviária. O show de Renato Teixeira, programado para o domingo, no entanto, precisou ser adiado por conta das chuvas que cairam sobre a cidade. Em um local que faz parte da memória ferroviária de Campo Grande, uma grande estrutura foi montada para receber esses e outros nomes da música brasileira, ao longo desta semana.

Entre os destaques que se apresentam nesse palco, estão Duda Beat, Djonga, Bixiga 70 e Potyguara Bardo, artista natalense que traz, pela primeira vez, seu show Simulacre ao Mato Grosso do Sul. Além dos hits do álbum homônimo, o repertório traz também singles como Me leve, seu último lançamento, disponível em todas as plataformas digitais. “Já mostrando o gostinho dessa minha nova fase que está vindo no ano que vem. São músicas com uma sonoridade da minha terra, digamos assim, e vêm muito mais por aí”, revelou Potyguara, em entrevista à Continente.

O artista que dá nome ao palco principal do festival, inclusive, é o cantor, compositor e violonista Raimundo Guimarães Galvão, o Mestre Galvão, figura importante da cultura do Estado, que nos deixou no ano passado, devido a complicações da Covid-19. Outro palco que compõe a programação musical é o Tráfico de Informações, localizado na Praça do Rádio, onde apresentações com vários nomes da cena de música independente sul-mato-grossense se apresentam, além de danças e shows de convidados de outros estados.

Se por um lado essa descentralização faz com que diversos pontos da cidade sejam contemplados e integrem o mapa de programações artísticas do Campão Cultural, promovendo, para moradores de vários bairros, o acesso a grupos e artistas do MS e também de fora dele, por outro, pode acontecer de os horários entre as atrações coincidirem ou serem muito próximos.

Como Campo Grande –  ao menos para alguém que vem do Recife –  é um município de grande extensão territorial, é necessário dar uma olhadinha prévia na programação do evento ou nas redes sociais – que mostram diariamente a agenda – e planejar o que se pretende assistir nos próximos dias. Há, no entanto, ações que compartilham a proximidade também, dando para ir de uma atração a outra a pé. Além das atividades que permanecem ao longo de vários dias do festival, como no caso da exposição imersiva Diversos, com artistas visuais do MS, entre os quais Júlio Cabral, Márcia Albuquerque, Erika Pedraza e Maria Chiang, que levam olhares sobre questões políticas e urgentes à Galeria América Cardinal, no Centro Cultural José Octávio Guizzo.

O Campão Cultural segue até o dia 5 de dezembro.


ERIKA MUNIZ, jornalista com graduação em Letras.

*A repórter viajou como correspondente da Continente, a convite da Secretaria de Cidadania e Cultura do Governo do Estado do Mato Grosso do Sul.

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