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Cobertura

Grupo Corpo em presença

Após quase dois anos reclusos, vendo espetáculos online, assistimos à 'Primavera', o novo trabalho da aclamada companhia de dança mineira

TEXTO ERIKA MUNIZ, DE CAMPO GRANDE*

25 de Novembro de 2021

Foto José Luiz Pederneiras/Divulgação

[Conteúdo exclusivo Continente Online]

Dentre as estações do ano, a primavera é a que mais remete a uma temporalidade de aberturas. Cores se espraiam, revelando o que estava guardado. Uma certa alegria se alonga e se estica, tomando conta de tudo. Esse movimento que é florescer e ganhar o mundo não nos deixa esquecer que a energia é fruto da ação. Mas que a ação também se dá por meio da energia. A primavera chega após o inverno, quando as temperaturas caem e costuma-se haver mais reclusão e isolamento. Continuando esse ciclo, a primavera antecede ao verão, quando o calor tem sua vez. Por isso, há sempre uma primavera depois de um inverno, e também é ela o prenúncio de um verão. Eis um caminho permanente, não há outra forma de ser.

Primavera (2021) é o título do mais recente trabalho do Grupo Corpo, a consagrada companhia de dança brasileira sediada em Belo Horizonte (MG). Na noite da última terça (23), o palco do Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande (MS), recebeu o Corpo para uma única – e inesquecível – apresentação, como parte da primeira edição do Campão Cultural – Festival de Arte, Diversidade e Cidadania. Na ocasião, Gira (2017), trabalho lançado anteriormente pelo grupo, com a participação da rainha Elza Soares na trilha sonora assinada pelo Metá Metá (Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França), também pôde ser assistido pelo público presente, em um teatro de ocupação reduzida.

A partir de um convite de Paulo Pederneiras, diretor artístico do Corpo, para que o trio sugerisse um tema e criasse a trilha sonora é que Gira nasceu. Exu, divindade ligada ao corpo, ao movimento, à comunicação e ao caminho, foi, então, a temática escolhida para a composição das músicas, de toda a coreografia e da cenografia do espetáculo, que leva à dança contemporânea os estudos e as pesquisas do grupo de dança sobre a umbanda e esse Orixá.

Localizado na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, o teatro campo-grandense tem lotação máxima de 752 pessoas e faz parte do mapa de programações do evento cultural. Segundo informações da organização do Campão, cerca de 550 ingressos foram entregues ao público e outros 60, destinados a alunos, professores e funcionários da UFMS. Minutos antes de as apresentações de Primavera e Gira começarem, embora não estivesse completamente preenchido, o local já tinha um número considerável de poltronas ocupadas, o que confirmava o Grupo Corpo como uma das atrações mais aguardadas na programação do festival.


Cena de Gira. Foto: José Luiz Pederneiras/Divulgação


Público para ver o Corpo no Teatro Glauce Rocha. Foto: Álvaro Herculano/Divulgação

Para além do Corpo, a experiência de estar em contato com a cultura do Mato Grosso do Sul, contudo, se fazia presente mesmo antes de chegarmos ao festival, que segue até o dia 5 de dezembro na capital. Na rádio do carro, a música fronteiriça do MS – composta pela fusão de, entre outras tradições, o chamamé correntino, a guarânia e a polca paraguaia – fisgou minha escuta e despertou a curiosidade sobre essa sonoridade durante o percurso. São essas músicas que nos dizem um tanto sobre esse país imenso que é o Brasil, seus diálogos e também seus embates culturais com outros países latino-americanos. Durante o trajeto, fomos ouvindo A hora do chamamé, na Rádio Educativa. Diariamente, o programa radiofônico divulga, sempre entre o finzinho da tarde e o início da noite, músicas desses e d’outros gêneros tradicionais, pela FM da cidade.

Os ingressos para o público de Primavera e Gira começaram a ser liberados cerca de uma hora antes dos espetáculos. Por volta de 40 minutos antes, já era possível entrar no teatro e tentar conseguir um lugar próximo ao palco. Preferencialmente, que também fosse localizado ao centro. Consegui um na parte frontal, numa poltrona localizada mais à direita. Embora tenha tido uma experiência pulsante ao longo das duas apresentações, enxergado bem os movimentos dos bailarinos e bailarinas da companhia mineira, sentindo a emoção que eles evocam, em certos momentos, era preciso esquivar a cabeça para observar melhor as coreografias criadas por Rodrigo Pederneiras, as cenografias assinadas por Paulo Pederneiras e os figurinos desenvolvidos por Freusa Zechmeister.

Se alguém se mexia à minha frente, movimentava-me junto, silenciosamente. Assim se fazia a experiência coletiva de ser plateia. Seguíamos público presente em uma outra coreografia para além das trazidas no palco com os bailarinos e bailarinas do Corpo. Nada disso, no entanto, comprometeu a vivência de estar novamente assistindo a um trabalho de dança ao vivo e a cores sem a mediação de uma tela. Na verdade, a tela foi levada para dentro desse espetáculo, compondo a cenografia de Primavera. Ela exibia imagens dos próprios bailarinos e bailarinas feitas na hora, o que nos conectava ao contexto em tempo real.


A primavera segundo o Corpo. Foto: José Luiz Pederneiras/Divulgação

Quanto às ambientações sonoras, a acústica do Teatro Glauce Rocha acolheu impecavelmente as músicas do Metá Metá e a voz inconfundível de Elza Soares, que estão em Gira, e também as diversas composições instrumentais de Paulo Tatit e Sandra Peres, do Palavra Cantada, presentes em Primavera.

Desse mais recente espetáculo, inclusive, as 14 músicas já eram do repertório do Palavra Cantada há alguns anos. Todas elas, porém, foram retrabalhadas para versões instrumentais, como uma sequência de peças musicais em diálogo com o campo de criação das coreografias do Corpo. Nessa trilha sonora, há desde reggae a maracatu, passando por toré e por samba, além de vários outros estilos musicais. É bastante variado e envolvente, desperta uma vontade profunda de dançar junto ao elenco, sobretudo nestes tempos em que fomos/somos privados de aproximação. Mas, certamente, eles/elas já fazem isso por todes nós.

Desde a abertura das cortinas, Primavera evidenciou o quanto a dança é capaz de estabelecer comunicação entre o público e os artistas, sem que seja preciso uma palavra sequer. A cada sequência de movimentos, dava para compreender como seriam se as cordas do violão, da rabeca ou o toque de um pandeiro se materializassem em uma coreografia. Os bailarinos e as bailarinas nos convidavam a assistir – e ouvir – o que os instrumentos encantam. Visualmente, porém, os tecidos dos figurinos também coreografavam no palco. Várias linguagens aconteciam, ao mesmo tempo, em um só Corpo.


O figurino de Primavera foi desenvolvido por Freusa Zechmeister. Foto: José Luiz Pederneiras/Divulgação

Após quase dois anos assistindo a espetáculos por tela, lembrar disso pela experiência da plateia talvez tenha se potencializado pela força do momento de retomada. Porém, a potência desses trabalhos trazidos pela companhia mineira ao Mato Grosso do Sul, por si já, garantiu o sentimento de renovação. Assistir à Primavera seguido por Gira, trabalhos tão distintos um do outro, foi uma possibilidade também de perceber o quanto a linguagem do Grupo Corpo tem sua caligrafia particular. Ao mesmo tempo em que trabalha a partir de diferentes temáticas, a companhia mineira circunscreve sua forma muito própria, há mais de quatro décadas de existência na arte brasileira.  

Entre longos aplausos, com esses dois incríveis espetáculos, deu-se desse modo nossa chegada à capital do Mato Grosso do Sul para a cobertura do Campão Cultural. No dia seguinte, o Grupo Corpo retornou a Minas Gerais, deixando, porém, florescer o sentimento de Primavera aos que o assistiram em presença.

ERIKA MUNIZ, jornalista com graduação em Letras.

*A repórter viajou como correspondente da Continente, à convite da Secretaria de Cidadania e Cultura do Governo do Estado do Mato Grosso do Sul.

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