Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Resenha

Pela garganta ou pelos sonhos, mulheres

Dez notas sobre o novo romance de Carola Saavedra, 'Com armas sonolentas', que mergulha em temas como a bissexualidade, a maternidade indesejada e a ancestralidade com o fôlego de uma alucinação

TEXTO Mariana Filgueiras

28 de Janeiro de 2020

Foto Carine Wallauer Ferreira/Divulgação

1. Em Estados alterados, o neurologista e escritor norte-americano Oliver Sacks conta suas experiências com drogas lisérgicas nos anos 1960. É uma espécie de avô literário do Drugs Lab – o canal holandês do Youtube que testa efeitos de psicotrópicos nos apresentadores. No ensaio, o autor defende como algumas substâncias, assim como a natureza  (leio como sexo), a religião e o pensamento criativo, nos levam a lugares únicos. Como “sugestões de imortalidade”, diz ele. Sacks escreve: “(...) Muitos de nós encontram 'sugestões de imortalidade' na natureza, na arte, no pensamento criativo ou na religião. Certas pessoas conseguem atingir estados de transcendência através da meditação ou de outras técnicas de indução de transes, ou por meio da oração e de práticas espirituais. Mas as drogas oferecem um atalho, prometem uma transcendência imediata. Esses atalhos existem porque certas substâncias podem estimular diretamente funções cerebrais complexas”.

2. Lembrei dessa passagem ao fim da leitura do novo livro da Carola Saavedra, Com armas sonolentas (Companhia das Letras), sobre a história intrincada de três mulheres de gerações distintas: Anna, uma atriz que quer ser famosa e se casa com um cineasta alemão; Maike, uma jovem alemã que descobre sua bissexualidade e decide estudar português no Brasil; e uma mulher sem nome, que trabalha como empregada doméstica no Rio de Janeiro. É um romance que pega esse atalho nas “sugestões de imortalidade” das quais lista Sacks não por alucinações, mas por conectar o leitor às memórias da sua ancestralidade. E faz isso de uma forma imediata, corpórea. “Dentro da garganta”, como diria uma das personagens do livro, a avó indígena da mulher sem nome: “Não precisava saber com o entendimento, basta saber dentro da garganta, antes mesmo da palavra vir”. Sou imortal na medida em que reconheço, no meu corpo, a memória dos meus ancestrais: essa é a primeira pensata que a leitura me oferta.

3. A imortalidade vem com a herança gutural dessas personagens íntimas que nunca terminam o que têm para dizer: a mãe, a avó, a mãe da avó. Mesmo quando estão mortas. O clima onírico que costura as pontas soltas da trama tem o fôlego de uma alucinação: há uma capivara conselheira de uma das personagens, uma avó rediviva de outra. E aqui o romance de Carola me devolve a outro livro lançado recentemente: O oráculo da noite (Companhia das Letras), do neurocientista Sidarta Ribeiro, no qual ele defende a reconstrução de uma relação mais saudável e confiante com os nossos sonhos, por serem espaços de descarga simbólica fundamental para nossa saúde mental. Anotá-los, prestar atenção aos seus simbolismos, descrevê-los ao acordar. “O sonho é um espaço mental privilegiado para simular a consequência dos nossos atos.”

4. Ao encarar o onírico como parte integrante e fundamental da realidade, não quero cair na armadilha de interpretar o romance de Carola numa chave fantástica: não é porque a autora é chilena e seus personagens sonham ou conversam com seus mortos que vou associá-la a um suposto, muitas aspas, “novo realismo mágico”. A algaravia simbólica das noites de Com armas sonolentas não cabe nesta etiqueta, que insiste em geolocalizar a imaginação.

5. Há muitas mulheres no romance. As vivas e as mortas, as que nos foram dadas e as que se embaralham conosco nas ruas. A atriz transformando vida em linguagem no palco do teatro. As rezadeiras que curam com folhas e palavras. As ricaças que encarceram mulheres pobres em quartos sem janela. As livrescas do Carnaval carioca. As andarilhas que tecem teresas de saquinhos plásticos para outra dimensão. As lésbicas que nunca beijaram outra mulher. As adolescentes que têm vergonha da mãe. As mulheres que tiveram filhos e não quiseram ficar com eles. Ler a história dessas mulheres me faz pensar: quantas vezes essas dores, tão universais, foram trazidas pela literatura escrita por homens? Os temas que estão no livro de Carola Saavedra acusam, indiretamente, como nunca estão em literatura alguma.



6. Há poucos romances que esmiúçam a relação de mães e filhas, nos conta a autora nas entrevistas sobre o livro. Procuro na minha estante o desejo que ela esteja errada, alguma leitura óbvia, mas também não encontro nada. Lembro imediatamente de quatro obras sobre pais e filhos: Carta ao pai, Franz Kafka; Entre o mundo e eu, Ta Nehisi Coates; Pai, pai, João Silvério Trevisan; e A estrada, Comac McCarthy. Até o final dessas notas terei lembrado de outros, certamente. Mas sobre mães e filhas, caramba, uma exceção que confirma a regra: Quarenta dias, Maria Valéria Rezende. Por favor, deixem nos comentários se lembrarem de outros.

7. Mulheres, raça e classe: a ênfase na família branca, muito branca e muito rica que manda buscar uma menina de corpo escuro e traços indígenas para ser empregada da casa – o único corpo que não tem nome – estabelece o contraste fundamental para a leitura de outro tema importante no livro: as relações de trabalho doméstico. Os limites de domesticação de um corpo periférico constantemente ameaçado, escorraçado e estuprado pela família branca e rica, muito rica. Até onde esse corpo aguenta? Como esse corpo aguenta? Qual é o ponto de virada dessa mulher? São perguntas de 200 anos que se repetem sem respostas em mais de 200 páginas. A exposição desse sistema de trabalho, tão comum no Brasil – a menina criada na casa dos patrões como parte da família e que ganha uma miséria pelo trabalho integral – é feita por dentro, dentro daquele quarto de despejo de onde também escreveu Carolina Maria de Jesus.

8. A autora nos convida a cantar dores velhas e novas nessa toada que nina o mundo que ela inventa. Um livro que é um filho que ela pariu e nos deu para criar. É um convite raro, por serem raros os romances contemporâneos que inserem o leitor nesse embalo. Essa talvez seja a força da estrutura narrativa: deixar espaços vagos para quem lê ter a chance de imaginar. Não apenas interpretar, mas imaginar de verdade, ouvir o que dizem os personagens, vivos ou mortos, pela garganta ou pelos sonhos.

9. A essa altura, toda essa conexão entre os sonhos e o título pode parecer um spoiler, mas não é. Há uma aventura à parte dentro do romance que é a busca pelo sentido do nome Com armas sonolentas. Inspirado originalmente no poema Primero sueño, da sor Juana Inés de la Cruz, como decifra Heloísa Buarque de Hollanda na contracapa, o título se desdobra em outras possibilidades ao longo da leitura – eu encontrei uma para chamar de minha, mas não duvido que haja várias.

10. Às armas, cidadãos: o livro será discutido no próximo #LeiaMulheresRJ, dia 29/01, 19h, na Livraria Blooks de Botafogo.

MARIANA FILGUEIRAS é doutoranda em Literatura Comparada na UFF, professora na UFRJ, jornalista e roteirista.

Publicidade

veja também

Uma antologia para leitores minuciosos

Thiago Thiago de Mello: ‘Amazônia subterrânea’

Colonialismo e precarização do trabalho

comentários