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Resenha

Lama dos dias

Em exibição no Canal Brasil, série criada por Hilton Lacerda e Helder Aragão resgata a atmosfera criativa e o espírito do tempo de um Recife antes da eclosão do Manguebeat

TEXTO Luciana Veras

24 de Setembro de 2018

Seriado será exibido no Canal Brasil em todos os domingos até 4 de novembro

Seriado será exibido no Canal Brasil em todos os domingos até 4 de novembro

FOTO João Lucas/Divulgação

Lama dos dias estreou em 23 de setembro, no Canal Brasil, presente na maioria dos pacotes de TV por assinatura do Brasil. Foi exibido o primeiro dos sete episódios de 26 minutos cada dessa coprodução entre Pacto Filmes (SP) e Carnaval Filmes (PE) sob a direção de Hilton Lacerda e Helder Aragão, o DJ Dolores. Não por acaso, Dolores e Morales, como esse mesmo duo era conhecido no início dos anos 1990 na "quarta pior cidade do mundo", assinavam as ilustrações das capas dos primeiros registros fonográficos do Manguebeat. Agora, dividem a concepção e o comando de um seriado que simboliza, em sua essência, o poder da arte de atuar como vanguarda e farol em tempos sombrios.

Da edição de agosto de 2017 da Continente, constava um texto meu sobre a série, a partir de uma visita ao set de gravações. Hilton Lacerda assim descrevia a liberdade para recriar o contexto da transformação de "Hellcife" na "Mangueceia", aquela vibração que desaguaria, em 1993, nos discos de estreia das bandas Mundo Livre S/A e Chico Science e Nação Zumbi, sem, no entanto, usar personagens reais: “A ficção nos deixa livres para oferecer uma noção de possibilidade. Percebo que o momento da série, 1990, guarda semelhanças com o Brasil em que estamos vivendo agora. Como criar alternativas?”, ele indagava.

Pois logo no capítulo de abertura (a ser reprisado na quinta e no sábado), que se intitula Lama dos dias, tais semelhanças e alternativas se fundem e se apresentam aos espectadores. No amanhecer pós-festa de réveillon para receber 1990, Luli, personagem defendido por Louise França, filha de Chico Science, vaticina: “Se eu fosse bem rica, nem morava no Brasil”. Em outro momento, Farmácia (Geyson Luiz), que circula pelo centro da cidade e pela universidade com Luli, Bill (Vítor Araújo) e Adriana (Isadora Gibson), sentencia: “Ser pobre é uma merda”.


Francisco (Thiago das Mercês) e Luli (Louise França) em cena FOTO: João Lucas/Divulgação

Instantes depois, todos bebem juntos mesa de bar, agora já acompanhados por Francisco (Thiago das Mercês), quando a programação da televisão é interrompida para o anúncio das medidas de austeridade adotadas pela ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, sob a ordem do presidente Fernando Collor: o confisco das cadernetas de poupança e economias de milhares de brasileiros com a justificativa de que isso era necessário para o país retomar o crescimento. O primeiro episódio termina com Ezequiel, o EZK (Matheus Tchôca), apresentando aos novos amigos o som que tem feito a sua cabeça e aí toca uma versão ancestral de A cidade, de CS&NZ. “O de cima sobe, o de baixo desce”. Irrompem os créditos e um vídeo em que Chico e Gilmar Bola Oito explicam sobre a ida ao Daruê Malungo e “as misturas e experiências” que denotariam “o ritmo que vai tomar conta do mundo”.

Essa crença de que o panorama do Recife em 1990 estava para melhorar, na iminência da explosão do Manguebeat, é uma das forças motrizes de Lama dos dias. Bill e Farmácia produzem o programa de rádio Cotonete e angariam sons novos dos vinis que rastreiam nas lojas do centro da cidade ou que o pai de Luli, que mora na França, envia para a filha. Juntos, pregam “pequenas revoluções cotidianas” para enfrentar uma realidade de pouca grana e muita luta. “Liberdade se conquista, não se mendiga!”, esbraveja Farmácia. Se na imagem, no figurino e nos corpos daqueles personagens, bem como na trilha sonora e no uso de sequências de filmes que radiografavam a Recife de 1990 (como Samydarsh, de Adelina Pontual, Claudio Assis e Marcelo Gomes), parece que, de fato, a série propicia uma viagem no tempo, no discurso percebemos que esse tempo é hoje.

No segundo episódio, La valsa de la revolución, em uma passagem brilhante e irônica que enfeixa arte e vida, Luli pergunta para EZK numa roda de break no Alto José do Pinho: “Esses Chico e Jorge que tu vive falando, nunca aparecem. São uma invenção tua, é?”. Louise, a atriz, tinha menos de dez anos quando Chico, o pai, morreu em um acidente de automóvel, em 1997. No enredo ambientado poucos anos antes de Da lama ao caos e Samba esquema noise, todos os personagens gravitam ao redor da galáxia criativa que geraria ficção e realidade.

"Quando começamos a pensar na série, o principal era que queríamos descartar o uso de personagens que fizessem parte da história, mas que poderíamos de uma certa forma roubar a vida dessas pessoas. Usar o documento delas para fazer uma ficção. Os personagens são uma reconstrução de pessoas que estavam em torno daquele movimento, mas que não eram necessariamente protagonistas. E os personagens da história do Manguebeat são citados, mas eles nunca aparecem, ou sempre chegam atrasados, e se mantém à parte daquela geografia, daquele espaço-tempo”, observa o diretor Hilton Lacerda.


Hilton Lacerda é um dos dois diretores do seriado. FOTO: João Lucas/Divulgação

No segundo episódio, entra em cena também Boyzinha, personagem de Débora Leão, a Negrita MC, conhecida na cena hip hop recifense. Ela, o guitarrista Cruzado (Enio Damasceno) e o dançarino Nego Queen (Edson Vogue) são a Psicopasso, “a terceira banda do Manguebeat”, como diz Hilton. "Normal? Nem dessa palavra eu gosto”, solta Nego quando entrevistado por Francisco, que assumirá o papel de videomaker amador responsável pelo registro daquela banda. A Psicopasso, que vem do Alto José do Pinho (como Devotos e Matalanamão), que mescla referências nacionais e estrangeiras como Chico Science e Nação Zumbi e que sonha em gravar um disco como Mundo Livre S/A, é a convergência entre passado, presente e futuro.

Produtor executivo de Lama dos dias, João Vieira Jr. tem diversas produções históricas no repertório, a exemplo dos filmes Cinema, aspirinas e urubus e Joaquim, de Marcelo Gomes, e Tatuagem, de Hilton Lacerda, exemplos de obras em que o passado é reinventado com verniz atual. “A chance de trabalhar em projetos históricos nos pede um aprofundamento na pesquisa de arte, figurino, atuação para que essas obras não sejam apenas 'de época', mas que sejam 'sobre uma época'”, comenta. Mais importante do que instaurar a ambiência de 1990 (algo em que Lama dos dias obtém êxito incontornável) é refletir sobre de que modo aquela “outra época” se faz presente com lama, literal e metafórica, no Recife e no Brasil.

Para tanto, o produtor, agora já como sócio da Carnaval Filmes e não mais da REC Produtores Associados, onde atuou por mais de vinte anos, ressalta o cuidado em tratar televisão com o requinte de cinema. “Nosso desenho de produção avaliou que seria mais adequado tratar a filmagem da série como se estivéssemos fazendo um longo para sala de cinema. Digo isso porque é comum, em se tratando de séries, filmar por episódios e começar a montá-los de forma por episódio também. No nosso caso, preferimos filmar tudo e levar o conjunto de imagens captadas para a sala de edição”, sublinha João Jr.

Com roteiro de Hilton, Helder Aragão, Ana Carolina Francisco e Dillner Gomes, fotografia de Breno César, música de DJ Dolores e montagem por Natara Ney, Lama dos dias será exibida todos os domingos até 4 de novembro, sempre às 21h30, no Canal Brasil, com reprise às quintas e sábados. Quem for assinante do Canal pode ver o conjunto dos episódios aqui. E, assim como Luli, Francisco, Farmácia, Bill, Adriana, EZK e a Psicopasso não fazem lá muita ideia do que há de ser do Recife depois que 1990 passar, Lama dos dias terminará sua temporada no primeiro domingo pós-segundo turno das eleições presidenciais. Como evoca o título do terceiro capítulo, qual será a gramática das turbulências em vigor no país?


LUCIANA VERAS é repórter especial da Continente.

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