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Resenha

A solidão masculina de Claudio N

Músico do Recife lança três compactos virtuais que se unem como um conto tragicômico de homens que mudam de cidade, perdem amores, estão sem dinheiro e com memórias cheias de “e se”

TEXTO Maria Carolina Santos

23 de Novembro de 2018

Cláudio N é conhecido das noites recifenses como DJ

Cláudio N é conhecido das noites recifenses como DJ

Foto Luiz Pessoa/Divulgação

O bar do Peludo, na Cidade Universitária, é um desses bares onde os homens bebem sozinhos enquanto pensam nos seus erros, fumam um cigarro atrás do outro e escutam música com fones de ouvido. Há sempre homens sozinhos no bar do Peludo, por vezes despercebidos entre as mesas cheias de estudantes. Mas, na noite da primeira terça-feira de setembro, o bar favorito do músico Claudio N estava fechado. O jeito foi ir até o vizinho Nós 4, menos raiz: cerveja Eisenbahn e mobília desta década.

“Este disco é minha aposentadoria”, diz Claudio, um homem de 36 anos de idade, rosto redondo, barba rala e olhos de gato. Ele fala dos três compactos virtuais que vai lançar até janeiro e que depois vão virar um disco só: Claudio N & a Turma do Deixa Disso, com apoio do Funcultura. São 10 músicas, mais duas vinhetas e alguns remixes.


Capas dos três EPs. Imagens: Raul Luna/Reprodução

Antes desta entrevista, no começo de setembro, fazia mais ou menos um mês que eu havia escutado as músicas pela primeira vez. Duas ou três ainda permaneciam grudadas na minha cabeça. Levei um xexo e noiei é inesquecível: tem balanço com refrão fácil e pegajoso. É aquele simples difícil de fazer. Uma semana depois da entrevista, eu a ouviria de novo, em uma festa do inferninho Iraq na beira-mar: mesmo sem conhecer a música, a pista toda não parou de dançar.

Levei um xexo e noiei é o carro-chefe do primeiro EP (ouça aqui), lançado no dia 31 de outubro, data cuidadosamente escolhida por Claudio – um místico que conduz sua vida pelos astros, os números e as cartas de tarô. Assim como outras do projeto, Levei um xexo não é nova. Foi composta há uns seis anos e já apareceu em gravações anteriores, caseiras. Agora, recebeu o tratamento que merece.



Não é só a distância temporal que faz com que cada música seja bem distinta uma da outra. Por vezes, o disco soa como uma colagem de referências ou um portfólio para a voz incrivelmente versátil de Claudio. Tem pop rock, tem bolero (Bad trip), tem psicodelia nordestina (Água dos cactos, puro Zé Ramalho), tem suingue (Bicho caloteiro).

O que as une é uma certa solidão masculina, disfarçada em risos e tragos. E com um tanto de farsa. Um conto tragicômico de homens que mudam de cidade, perdem amores, estão sem dinheiro, sendo enganados, com memórias cheias de “e se” e do que foi sem ter sido. A faixa mais sexy do disco – que não por acaso lembra Sexy boy, clássico do Air – mostra um homem se dizendo disponível para fazer massagens e acalentar seu amor: mas soa como uma cena irreal – um sonho ou uma embriaguez.

“Este disco é minha aposentadoria”, repete Claudio. “Minha aposentadoria de ter que provar que posso fazer coisas bem-feitas. Com este álbum, provo que sei”, diz, apostando todas suas fichas no disco. É, também, um chiste de uma aposentadoria no sentido mais comum da palavra. “Se der errado, paro de investir tanto em música. Fico fazendo minhas coisas em casa mesmo.” Para Claudio, dar certo seria o disco tocar na Nova Brasil FM ou na rádio Frei Caneca. “Dar errado é a primeira música ter 500 plays e a última, 10”, elabora.

Claudio N é, há anos, um personagem da noite recifense. Produziu e tocou nas animadas festas da Altos Brotos. Hoje, é DJ habitué no Iraq. Também faz trilhas para cinema, como aquele axé chiclete que toca em uma cena de O som ao redor. “Se Kleber (Mendonça Filho, diretor do filme) estiver lendo, obrigado. De vez em quando, entra uns três dígitos de direito autoral na minha conta”.

Nascido em Paulo Afonso, de onde se mudou, aos nove anos, para o Recife, Claudio fez parte de bandas como a Astronautas e lançou oito álbuns. Foram quatro sozinho (colagens e experimentos com o nome Familiar) e os outros com a Chambaril, banda extemporânea que mantém com alguns músicos recifenses.

Os percalços da vida de Claudio Nascimento guardam similaridades com a história que o disco conta (como a mudança de Paulo Afonso para uma capital), mas ele insiste que não é autobiográfico. “Você não é a primeira pessoa a achar isso. São personagens. Até porque não fui eu só quem compôs neste disco”, conta.

Ele está certo: é um disco feito a quatro mãos. A outra metade é o produtor musical Carlos Montenegro, um homem magro, de olheiras profundas e meio grisalho. Os dois se conheceram ainda adolescentes, na fila para a prova do vestibular. Claudio passou em Rádio e TV; Carlos, em Letras. Estudaram juntos no mesmo prédio do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

No disco, algumas músicas foram compostas só por Claudio, outras só por Carlos. A maioria em conjunto. Claudio credita ao amigo o apuro técnico do disco – depois de cursar Letras, Carlos fez produção fonográfica e trabalhou em estúdios. Os ensaios e gravações e mixagens das 10 músicas começaram em outubro do ano passado e se estenderam por quase 11 meses.

Pragmático e cético, Carlos Montenegro é despido das expectativas de artista. “Esse disco seria um sucesso para mim se gerasse direitos autorais”, diz. “Claudio tem uma intuição musical muito grande. É um cara que tem sempre uma ideia musical, para ele é algo que vem fácil. Em grande parte, temos uma visão musical diferente e acho que isso transparece no disco. É diversificado”, acredita.

Ao fim da entrevista, Claudio N quer conferir se o seu bar favorito continua fechado. Já no começo daquela rua esburacada e sem asfalto, se vê que o bar do Peludo não vai abrir naquela primeira terça-feira de setembro. A casa está na completa escuridão. De perto, nota-se que há um carro muito velho, com ares de abandonado, estacionado onde deveriam estar as mesas e cadeiras do bar. Pelo menos naquela noite, os homens solitários do bar do Peludo ficaram sem uma cerveja a mais.

MARIA CAROLINA SANTOS é jornalista. Com passagens pelo Diario de Pernambuco e Marco Zero Conteúdo, escreve sobre música, política e tecnologia.

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