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Resenha

'O livro dos prazeres' ou a busca por ser uma mulher em si

Filme de Marcela Lordy dá vida a uma Lóri contemporânea, interpretada pela atriz Simone Spoladore a partir de uma livre adaptação do romance de Clarice Lispector

TEXTO Paula Passos

23 de Outubro de 2020

No filme, os planos de Lóri de perfil expressam dificuldade de acessar o mundo da personagem

No filme, os planos de Lóri de perfil expressam dificuldade de acessar o mundo da personagem

Foto Divulgação

  • [conteúdo exclusivo Continente Online]

    “Amar é dar de presente ao outro a própria solidão?” Seria essa a grande dúvida dos que têm medo do amor? Marcela Lordy, em seu primeiro longa-metragem, O livro dos prazeres (2020), traz esses e outros questionamentos sobre as relações afetivas nos dias atuais. O filme é adaptado livremente do romance Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969), de Clarice Lispector, que completaria 100 anos em dezembro. 

    O longa está sendo lançado na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que segue até 4 de novembro, com programação na plataforma de streaming do festival (MostraPlay). A “lotação” do filme é de 2 mil visualizações; depois, a obra encerra sua participação online e segue para o cinema drive-in do Petra Belas Artes, em São Paulo, também no dia 4/11. Marcela Lordy compete na categoria Novos Diretores. 

    O livro dos prazeres acompanha Loreley (Simone Spoladore), professora do ensino fundamental, que vive uma monótona rotina de trabalho e de encontros amorosos passageiros. Ela sai de Campos dos Goytacazes (RJ) para a capital carioca, onde mora em um apartamento grande, de frente para o mar, que herdou da família.  

    Entre o mal-estar da existência, o excesso do pensar e as idas ao trabalho, conhece Ulisses (Javier Drolas), um professor de filosofia argentino. Em um dos encontros, ele se denomina como “um pouco machista, preconceituoso e egocêntrico”. É através de sua convivência com ele que Lóri começa a questionar os rumos de sua solidão. A angústia e a insegurança que sente refletem na forma como ela se relaciona com o mundo. No quanto se isola e evita situações que podem lhe proporcionar dor.

    Marcela define o filme como um romance psicológico erótico, sob a perspectiva de uma mulher contemporânea em busca de conexões afetivas reais. “A vontade de adaptar o livro de Clarice para o cinema surgiu da minha necessidade de olhar mais de perto para a velocidade com que as relações afetivas se formam e se desfazem nos dias de hoje. Estava morando sozinha pela primeira vez, quando me deparei com Lóri e seus desafios existenciais da maturidade. Ao ler o livro, senti que havia algo sagrado ali sobre o amor e a autorrealização feminina na sociedade patriarcal brasileira que ainda precisava ser resgatado”, conta a diretora.


    Lóri (Simone Spoladore) e Ulisses (Javier Drolas) no longa de Marcela Lordy.
    Foto: Divulgação


    Marcela decidiu, em 2010, que iria estrear nos longas de ficção com uma adaptação de Clarice. Desde então, foram anos de maturação da ideia; de tentativas para obtenção dos direitos autorais do livro; um roteiro com 10 tratamentos, assinado também pela argentina Josefina Trotta, que nos levam a um filme bem-executado, que consegue transpor para o audiovisual a literatura. Não qualquer literatura, mas a literatura de Clarice. Uma narrativa que se debruça sobre o sinestésico e o indizível, apesar do caráter verborrágico do livro. 

    CLARICE E MARCELA: DA ESCRITA À AÇÃO
    A escritora dá contorno a emoções difíceis de nomear e traz sensações promovidas pelo silêncio, que se esgueira e arranja espaço para se enunciar. Clarice ao mesmo tempo que narra a história de Lóri, cria uma linguagem para expressar aquilo que não pode ser dito, que escapa, e, ainda assim, comunica. No livro, Ulisses não é aquele da Odisseia, que parte em busca de sua própria jornada, com uma Penélope o aguardando por 10 anos. Ele é a Penélope à espera de Lóri, tateante nos caminhos de encontro à condição humana.  

    Essa tradução intersemiótica, da literatura para o cinema, gera expectativa para maior parte do público, porque se espera muito que o filme seja extremamente fiel às páginas escritas. Entretanto, são linguagens diferentes, com elementos próprios. No caso do audiovisual, a narrativa se constrói com ações que dão progressão dramática à história. “Eu não queria que o filme tivesse muito aquela narração em off. Fiquei pensando em maneiras de trazer ação”, revela Marcela em entrevista à Continente Online

    A diretora se utiliza, então, da visita do irmão de Lóri (Felipe Rocha), para que, através de sua presença e do seu agir, o público tenha condições de se conectar ao passado da personagem e também às origens patriarcais que a fizeram ir à capital. No livro, por sua vez, existe apenas menção aos irmãos de Lóri. 

    É também no longa que a personagem encontra um caderno de anotações da mãe, apoio para a leitura de pequenos trechos do romance, que ora são ditos pelos alunos, ora se apresentam nos diálogos entre Lóri e Ulisses, adaptados para nossos tempos. 

    Enquanto a Lóri de Marcela vive em um apartamento enorme, a Lóri de Clarice mora em um lugar minúsculo. A locação não só transmite o vazio da professora, como favorece uma câmera que se movimenta, na penumbra da madrugada, e a acompanha inquieta pela casa. A cena inicial se deslocando com seu colchão pelo apartamento vazio, saindo do quarto quente, para a sala com uma grande janela, com vista para o mar, materializa esse recurso espacial. Mas não só. 

    A professora e psicanalista Maria Homem, autora de No limiar do silêncio e da letra (2012), sua tese de doutorado, comentou a cena na última quarta (21), no Colóquio Internacional 100 anos de Clarice, promovido pela Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de São Paulo (USP): “Existe um atravessamento de um túnel com essa angústia. Há transbordamento de si, de quem não se aguenta. O colchão é um microterritório, uma representação de si, que se desloca para achar uma paisagem para reconstruir seu próprio lugar. É uma metonímia dessa subjetividade em busca. É um processo analítico, em última instância”. 

    Os planos de Lóri de perfil também expressam essa dificuldade de acessar o mundo daquela mulher. Não é possível ver sua expressão completa, seus olhos, causando uma certa distância de quem a vê.  A direção de fotografia é do recifense Mauro Pinheiro, que já fez, entre outros, Cinema, aspirinas e urubus (2005); Era uma vez eu, Verônica (2012); Sangue azul (2014); Meu amigo hindu (2016), além de trabalhos para TV. 

    A direção de arte, de Iolanda Teixeira, ficou responsável por reproduzir aspectos do universo narrativo de Lóri presentes no livro. Os traços mal-feitos do delineado dos olhos; o figurino que vai se transformando e adquirindo tons mais abertos, enquanto a personagem encontra alívio em seu processo; os objetos de cena, como as maçãs que ela não consegue organizar direito na cesta de frutas; e a falta d’água, também existente no Rio de 1969. O Rio é o cenário, com passagens gravadas na Praia do Leme e na Floresta da Tijuca.


    Foto: Wladimir Fontes/Divulgação

    O banho de mar ao nascer do dia, uma das cenas mais bonitas, conduz Lóri a um caminho sem volta. Cena que remete à entrada do mar de uma personagem do curta Ser o que se é (2018), da mesma diretora. Neste filme, a adolescente, que lê Clarice na praia, tem vergonha de seu corpo e se questiona se entra ou não no mar. 

    No livro dos prazeres, esse mergulho representa um momento de transformação e de fruição com o mundo, como água que invade e muda o lugar por onde passou. Loreley, como explica Ulisses no filme (embora, em vários momentos, não se ouça muito bem a voz do ator), era uma sereia encantadora do poema de Clemens Brentano, do século XIX, que, traída por seu amor, enfeitiçava os homens e causava a morte deles. Apesar do medo do que Lóri possa fazer com esse encontro, “Ulisses entra na relação como uma possibilidade de estar com o outro”, pontua a psicanalista. 

    Outro elemento narrativo posto por Marcela, e que tem papel importante para o filme, é o quartinho da mãe de Lóri, também analisado por Maria Homem: “A gente pode pensar que tanto ela quanto a mãe possuem vozes abafadas. É naquele quarto que ela estabelece uma aliança com a mãe, mesmo morta. E é ali que ela descobre que a mãe pintava, que ela era um sujeito. Existe também um jogo do claro e do escuro, do silêncio e da palavra. A atriz fala com o corpo”. As aquarelas do filme são assinadas por Pedro Cezar Ferreira.

    Já em relação a quem interpretaria Lóri, a atriz Simone Spoladore estava escalada desde a primeira versão do roteiro. Ela e Marcela Lordy trabalharam antes no telefilme A musa impassível (2011) e no curta Sonhos de Lulu (2009). O ator argentino Javier Drolas entrou no projeto, além de seu talento, pela proximidade com a cultura brasileira e também pela coprodução com a Argentina. Javier trabalhou com o diretor brasileiro Felipe Hirsch no longa Severina (2018). A montagem é assinada pela também argentina Rosário Suárez, com trilha sonora original de Edson Secco.

    Marcela, que participou do colóquio online da USP junto a Maria Homem, explica melhor a escolha do elenco: “Simone sempre gostou muito da Clarice. E ela tem uma atmosfera muito silenciosa, introspectiva. Então, teve uma identificação natural. Já Javier, que interpreta Ulisses, tem uma relação ainda com esse estrangeiro, com esse outro de fora, que pode gerar uma certa estranheza”. As atuações convencem pelo gesto, já que o filme tem um ritmo mais lento e silencioso.

    A atriz Leandra Leal faz uma participação especial, junto à sua filha Julia Leal Youssef, como a mulher do maiô vermelho que toma banho de piscina no clube, presente na obra clariceana. 


    Com o filme, Marcela Lordy estreia como longa-metragista.
    Foto: Divulgação

    CLARICE BARROCA E O USO DE DIVERSAS LINGUAGENS
    O filme é dividido por intertítulos em 16mm, criados pela artista plástica Letícia Ramos: LuminescênciaUma aprendizagem; A morte necessária em pleno dia; A origem da primavera, presentes no livro, mas usados no filme em outra ordem.

    “Eu costumo dizer que Clarice era muito barroca, então, quis fazer uma mistura de linguagens”, explica Marcela. Além das aquarelas e dos intertítulos em película, há imagens em pinhole, assinadas por Wladimir Fontes, e o uso de uma cena de Terra em transe (1967), de Glauber Rocha, na ida de Lóri ao cinema. O cinema no cinema e, talvez, uma ligação do país fictício Eldorado, como cenário de busca por poder com o Brasil contemporâneo. 

    Não só o filme de Marcela contempla, no seu exercício cinematográfico, o uso de linguagens diferentes, como Clarice, a seu modo, reconfigurou os gêneros textuais, borrando os limites entre conto, crônica, romance, ensaio. A editora Rocco aproveitou o centenário da autora para relançar Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, com posfácio da cineasta, que escreveu sobre o desejo de filmar essa obra: “O desejo de transformar uma narrativa sensível, do campo do pensamento e da imaginação, numa obra cinematográfica autoral vibrante, capaz de abrir o cinema e a literatura brasileira para um público ainda maior”.  

    O livro dos prazeres chega ao público mostrando o processo de elaboração de uma subjetividade feminina no Brasil atual, através de Lóri, que, muito antes da pandemia do Covid-19, já se isolava do mundo e nos indagava: “Como eu posso me fundar a partir do outro?”. Freud e Lacan já responderam.

    Além da Mostra, o longa passa ainda no Festival Internacional de Mulheres no Cinema, de 10 a 17/11; e na competição oficial do Festival de Vitória, de 24 a 29/11. A produção é de Deborah Osborn.



    PAULA PASSOS, jornalista e mestranda em Comunicação pela UFPE.

EXTRA
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