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Reportagem

Canções da liberdade [parte 2]

Surgido na Jamaica há cinco décadas, o reggae, Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2018, tornou-se o gênero musical mais propagado pelo mundo em busca de igualdade, africanidade e paz

TEXTO DÉBORA NASCIMENTO

08 de Abril de 2019

No ano em que completou cinco décadas, o reggae recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura

No ano em que completou cinco décadas, o reggae recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura

Ilustração Marcos de Lima

[continuação da reportagem de capa da ed. 220 | abril 2019]

TOSH X MARLEY
Como os Wailers perceberam que apenas Lee “Scratch” Perry recebia os royalties pelas vendas dos dois álbuns que fizeram, encerraram a parceria. Estavam em Londres, bancados pela CBS, quando foram abandonados pela gravadora. Marley decidiu então fazer uma visita ao escritório da Island Records. Conseguiu uma reunião com o fundador da empresa, Chris Blackwell. Queria a oportunidade de gravar um single, mas saiu de lá com 4 mil libras adiantadas para gravar um álbum inteiro, aquele que muitos consideram como o primeiro disco da banda, Catch a fire (1973). Sem perceber, fez um favor para Blackweel. Jimmy Cliff, o então astro do reggae jamaicano, havia deixado a Island Records. Quando Marley adentrou a sala, Blackwell percebeu que ele preencheria essa lacuna, sendo, ainda, o artista com potencial para atrair o público do rock. E estava certo.

Descendente de jamaicanos brancos, Blackwell, nascido em Londres, morou na Jamaica na adolescência. Apaixonado por música, comercializou jukeboxes e vendeu singles norte-americanos aos proprietários de sound systems. Em 1959, fundou a Island Records – o nome é uma homenagem ao calipso Island in the sun, sucesso de Harry Belafonte, cantor e ativista negro que morou na Jamaica antes de ficar famoso nos Estados Unidos e de ser responsável pelo estrondoso projeto musical USA for Africa. Na juventude, ao tomar banho de mar, Blackwell foi jogado num bloco de corais. Desacordado, foi salvo por um rastafári. Isso o fez se tornar espiritualizado e simpático aos seguidores de Haile Selassie.

Lançado em 1973, Catch a fire – cuja capa com Bob Marley fumando um baseado foi proibida no Brasil – traz clássicos, como Concrete jungle, Stir it up e uma nova gravação de 400 years. Blackwell caprichou na mixagem e inseriu uma pegada roqueira, tendo a intenção de alcançar o mercado internacional, em lua de mel com o rock’n’roll, que estourava com bandas como Rolling Stones, Pink Floyd, Eagles. A partir desse disco, a banda fez turnês pela Grã-Bretanha e EUA. Mas Bunny Wailer se recusou a participar da parte americana, alegando que não tocaria em boates onde aconteciam “coisas com as quais não concordava”. Joe Higgs, professor da banda, o substituiu.

A abertura dos shows em Nova York foi feita pelo então desconhecido Bruce Springsteen, que só estouraria com Born to run em 1975. Os Wailers também fizeram show antes de Sly and The Family Stone, mas foram removidos porque estavam ofuscando a atração principal.

O fato de não receberem cachês pelas apresentações não agradava nem um pouco Peter Tosh e Bunny Wailer, considerados pelo executivo os mais difíceis de lidar. Ele preferia conversar e negociar com Bob Marley. Em seus maravilhosos trocadilhos, Tosh chamava Blackwell de “Whiteworst”, uma brincadeira com as palavras “preto/bem” do sobrenome do chefe para “branco/pior”. Segundo, Bunny o único defeito de Bob Marley era “não saber falar não a ninguém”.

O disco seguinte, Burnin’, o último com a formação original, abre com uma faixa feita em coautoria entre Bob e Peter, Get up, stand up. Em 1975, Bob se apresenta em Kingston com Stevie Wonder, todos os lucros voltados à Escola do Exército da Salvação para os Cegos. É o último show que reuniu os três wailers originais.

Peter Tosh considerava que a gravadora estava dando mais ênfase a Bob Marley porque este era menos negro que os outros integrantes da banda – as capas de Catch a fire e Burnin’ não deixam dúvida de que havia um destaque, mas desde antes da Island, o nome da banda era Bob Marley & The Wailers. Com cachê ínfimo e sem espaço para suas músicas nos discos, Tosh achou que estava na hora de pular do trem (“Stop that train/ I’m leaving”). Afiado compositor e cantor com forte presença de palco, sonhava em ser um bandleader. Mas, enquanto Bob Marley partia para uma carreira internacional – com versão de Eric Clapton para I shot the sheriff (1974) alcançando o topo da Billboard, virando capa da Rolling Stone em 1976 –, Tosh voltava para a Jamaica para recomeçar. Lançava discos sem a mesma repercussão de Marley, a quem ele enxergava como um rival, e participava de protestos no país. “Bob Marley era como Martin Luther King e Peter Tosh como Malcolm X”, afirma Roger Steffens.

A edição do dia 12 de março de 1968 do jornal jamaicano The Gleaner comprova a rebeldia de Peter Tosh: ele aparece numa foto participando de manifestações violentas anti-Rodésia no centro de Kingston. “Tosh era um participante frequente de tais ações públicas, chegando ao ponto de roubar um caminhão e com ele invadir as vitrines de uma grande loja de departamentos – que foi prontamente saqueada até os ladrilhos. Fight on demonstra o conhecimento de Peter acerca de assuntos mundiais, citando os chefes de estado da Rodésia e da África do Sul. Embora a profecia rasta de que ‘a África deverá se libertar em 1983’ fosse um pouco prematura, ambas nações racistas estavam fadadas ao colapso. Lutadores pela liberdade em ambos os países louvaram Tosh como um dos principais porta-vozes da bandeira rebelde e sua música como inspiração”, escreveu Steffens, no encarte do relançamento do disco Mystic man (1979). Quando o artista repetia em Not gonna give it up que não vai desistir, que vai permanecer lutando até a África e os africanos se tornarem livres; ele estava falando sério.

Mais rebelde dos rastafáris, Peter Tosh saiu dos Wailers para seguir
carreira-solo. Foto: Marcello Mencarini/Leemage

Em 1976, ano em que Peter Tosh lançou o desafiador Legalize it, a Jamaica estava no noticiário internacional não somente por causa dos astros do reggae, mas também pelos conflitos urbanos que o país enfrentava. Em plena Guerra Fria, a violência era alimentada com armas enviadas pelo governo norte-americano, munindo a oposição ao governo do primeiro-ministro socialista Michael Manley (do People’s National Party – PNP), que contava com apoio de Fidel Castro – tudo o que os Estados Unidos não queriam era uma nova Cuba. Nos muros de Kingston, o opositor Edward Seaga (do Jamaica Labour Party – JLP, um partido de direita, apesar do epíteto trabalhista) ganhava o apelido de “Ciaga” numa referência à CIA. Nas ruas, gangues lideradas por Buckie Marshall (PNP) e Claude Massop (JLP) tocavam o terror, matando pessoas e incendiando casas.

A essa altura, Bob Marley era o nome mais importante da Jamaica. Sua opinião tinha peso. A enorme casa que comprou de Chris Blackwell em Hope Road, área nobre de Kingston, virou um ponto de encontro do gueto. Lá, iam familiares, amigos, músicos, crianças, integrantes de gangues rivais e toda sorte de gente para pedir dinheiro. Blackwell estima que o cantor ajudava financeiramente por mês cerca de 4 mil pessoas. A residência vivia de portas abertas, recebia visitas ilustres como George Harrison e os Jackson 5. Parecia um clube em que se chegava para conversar, fumar, comer, jogar futebol, pingue-pongue, tocar. Bob Marley tinha uma BMW que ele simplesmente não trancava. Nunca havia acontecido nenhuma ocorrência contra ele. Parecia ter o corpo e a alma blindados. Isso até decidir acabar com os conflitos na Jamaica a partir de um concerto gratuito.

O show não era para apoiar nenhum dos lados, mas para promover a paz no país. Após Marley anunciar, numa coletiva, o Smile Jamaica, que aconteceria no dia 5 de dezembro, o primeiro-ministro informou a antecipação da eleição para o dia 15. Isso fez o evento parecer uma campanha, o que não era, pois Bob Marley não se posicionava a favor ou contra nenhum partido. Depois do anúncio, o cantor passou a receber ameaças. Dois dias antes do show, sete homens armados entraram na residência e saíram atirando para todos os lados. Antes dessa noite, Bob havia sonhado que sofreria uma emboscada e uma voz o avisava “Não corra”, que é o que naturalmente qualquer pessoa faria numa situação como essa. Ele não correu. Uma bala passou de raspão no seu peito e foi parar no braço esquerdo. Dois dias depois, subiu ao palco e fez o espetáculo para 60 mil pessoas. Ainda mostrou os curativos à plateia. “Se Marley, naquele momento do tiroteio, estivesse inspirando em vez de expirando, a bala teria atravessado seu coração”, observou o escritor jamaicano Marlon James, autor de Breve história de sete assassinatos. No livro, vencedor do Man Booker Prize 2015, o atentado a Bob Marley integra a narrativa. O romancista defende a tese de que foi a CIA quem mandou matar o artista. A mesma teoria aparece no documentário Who shot the sheriff? (2018), lançado na Netflix.

Arrasado com a tentativa de assassinato que quase o matou como também a seus amigos e Rita, Marley partiu para um autoexílio em Londres, onde gravou aquele que é considerado seu melhor álbum, Exodus. Nesse ínterim, para conter a violência, o primeiro-ministro ordenou a prisão dos chefes das duas gangues. Na cela, Claude Massop e Buckie Marshall fizeram as pazes. E os conflitos diminuíram nas ruas. Tiveram, então, a ideia de convidar Bob Marley de volta para a Jamaica. O concerto que marcaria o retorno do artista era One Love Peace Concert, que reuniria, em 1978, diversas estrelas do reggae e teria Bob Marley como atração principal. O show foi marcado na data que comemoraria a antiga vinda de Haile Selassie à Jamaica, 22 de abril. A imagem mais marcante do festival foi o momento em que o artista chamou Michael Manley e Edward Seaga para o palco e uniu as mãos dos dois, pedindo paz. Houve filmagens e fotos. O gesto lhe rendeu a Medalha da Terceira Paz Mundial, entregue pelas Nações Unidas, numa cerimônia em Nova York.

No entanto, o momento mais impactante do evento não teve registros de imagem: foi o discurso de Peter Tosh, que aconteceu antes. O mais rebelde dos rastafáris pegou o microfone, mandou desligarem as câmeras e desatou a falar. Na frente dos políticos, do primeiro-ministro, de integrantes do governo, de dezenas de jornalistas, dos policiais, acusou os líderes jamaicanos e a classe média de apoiar a brutalidade policial e as guerras entre gangues, escravidão, exigiu a legalização da maconha. Os dois discursos entre as cinco músicas somaram um total de 20 minutos. No outro dia, a mídia do país não poupou críticas, dizendo que tinha destoado do clima do evento. Peter comprovou que estava certo, pois a violência no país continuou e os líderes das gangues foram mortos por tentarem promover a paz. O erro do artista não foi o discurso, mas a proibição da filmagem. Hoje seria um documento precioso de sua consciência e contundência.

Um trechinho de seu discurso em patoá jamaicano, que pode ser ouvido no disco da gravação do concerto: “Se dependesse de mim, todas as delegacias seriam fechadas e a polícia estaria em casa dormindo e abraçando sua esposa. Este é apenas um sistema estabelecido para diminuir a importância dos pobres. Cada vez que eu vou para a cadeia, são apenas pessoas pobres que vejo lá. Quando Colombo, Henry Morgan e Francis Drake vieram aqui, eles foram chamados de piratas e foram colocados em nossos livros escolares para observação, para que pudéssemos olhar a vida dos piratas. Não sou político, mas sofro as consequências”. No repertório, também não aliviou. Dentre as músicas, Equal rights, cantada a plenos pulmões: “Everyone is crying out for peace, yes/ None is crying out for justice/ I don’t want no peace/ I need equal rights and justice” (“Todo mundo está clamando por paz, sim/ Ninguém está clamando por justiça/ Eu não quero paz/ Eu quero direitos iguais e justiça”).

Peter Tosh pagou um preço alto pela coragem de enfrentar o establishment. Vivia sendo preso por fumar maconha publicamente. Alguns meses após o One Love Peace Concert, foi detido e espancado durante 90 minutos por sete policiais. Só pararam porque Tosh sabia se fingir de morto, revirando os olhos. Levou 34 pontos na cabeça, teve duas costelas quebradas, um braço fraturado e o baço perfurado. No ano seguinte, lá estava ele no Festival de Montreux , ladeado por uma banda que incluía a super dupla bateria-baixo Sly & Robbie, acendendo um imenso baseado no palco.

NÃO CHORE MAIS
Nesse mesmo 1979, a versão de uma música de Bob Marley popularizaria o reggae no Brasil: Não chore mais. Lançada por Gilberto Gil no disco Realce, despertou o país para o gênero musical jamaicano. Gil conheceu o reggae no período do exílio em Londres, junto com Caetano Veloso – que fez o primeiro registro de reggae no Brasil em uma vinheta que inicia Nine out of ten, no disco Transa (1972). Na letra, ele menciona que ouvia o ritmo na Portobello Road, onde circulavam imigrantes jamaicanos. Bob Marley não era ainda um acontecimento mundial, lançaria Catch a fire em 1973. Transa teve direção musical de Jards Macalé, que em 1977 gravou a música Negra melodia, apresentando alguns elementos do ritmo jamaicano, como backing vocals, mas não tem a batida do gênero musical.

Gilberto Gil e Jimmy Cliff na turnê brasileira em 1980. Foto: Reprodução

A letra de Não chore mais fazia referência às estrofes originais de No woman, no cry, em que Marley descreve suas reminiscências de Trench Town e das mães que choravam com a violência nas ruas, muitas vezes promovidas pelos policiais, enquanto Gil fala sobre a ditadura: “Ob-observando hipócritas/ Disfarçados, rondando ao redor/ Amigos presos/ Amigos sumindo assim/ Pra nunca mais/ Tais recordações/ Retratos do mal em si/ Melhor é deixar pra trás”. Eram versos sintonizados com o clima da Anistia, assinada em agosto daquele ano.

No ano seguinte ao lançamento da versão, as principais estrelas do reggae jamaicano aportaram no Brasil. Bob Marley e Jacob Miller, vocalista do Inner Circle, não vieram para um show, mas para a festa de lançamento do selo Ariola, em março de 1980, no Morro da Urca. Devido ao sucesso da versão de Gil, a gravadora PolyGram, através do novo selo, adquiriu os direitos de distribuição dos discos de Bob Marley & The Wailers no Brasil.

Fã de futebol e da Seleção Brasileira, Marley jogou na famosa pelada de Chico Buarque. De um lado, ele, Junior Marvin (novo guitarrista dos Wailers no lugar de Peter Tosh), Paulo Cézar Caju (jogador da Seleção), Toquinho, Chico e Jacob Miller, e do outro, Alceu Valença, Chicão (da banda de Jorge Ben) e mais quatro funcionários da gravadora. Antes de começar a partida, o cantor recebeu uma camisa 10 do Santos e sorriu, dizendo “Pelé”. O placar foi de 3 a 0 para o seu time, com gols dele, de Chico e de Paulo Cézar.


Chico Buarque e Bob Marley durante a famosa pelada com os artistas,
em 1980. Foto: Luiz Pinto/O Globo

Na volta no jatinho da gravadora, compôs Could you be loved, em que se ouve uma cuíca na gravação original do seu último disco lançado em vida, Uprising. No dia 24 de março, indo para a casa de Bob, Jacob Miller sofre um acidente de carro. Ao tentar acender um cigarro de maconha, bate em um poste. Tinha apenas 27 anos. E não pôde participar do estrondoso sucesso internacional do Inner Circle nos anos 1990.

Ainda em 1980, quando veio ao Brasil como atração do II Festival Internacional de Jazz de São Paulo, Peter Tosh recebeu o convite para participar de um capítulo da novela Água viva. Foi recepcionado pela personagem Stella, interpretada por Tônia Carrero, que vivia dando festas no seu apartamento. Ela pediu para que o artista tocasse algumas músicas. Cercado pelos personagens de Glória Pires, Fábio Júnior e Reginaldo Farias, Tosh, sentado no sofá, não acendeu um baseado. Mas, ao empunhar o violão, cantou Bush doctor, cuja letra pede, do começo ao fim, a legalização da maconha e lista os seus benefícios: cura para o glaucoma, a asma e a brutalidade policial: “To legalize marijuana/ Right here in Jamaica” e acrescenta um “Right here in Brazil!”. Nessa época, a TV brasileira ainda contava com a notificação da censura. Não se sabe como essa ousadia foi parar no ar, em pleno horário nobre.

Peter Tosh costumava dizer que as drogas dos brancos eram legalizadas (cigarro, álcool e açúcar), “menos a única coisa que os negros gostam”. Para os rastafáris, a ganja é sagrada. Não é uma droga. Em 2015, o governo jamaicano liberou o cultivo de até cinco pés da erva e a posse de 57 gramas para fins medicinais (mas notifica o usuário), a maior quantidade dentre os lugares que já descriminalizaram a erva. A lei não permite a venda e nem a produção em larga escala, sendo tolerado o consumo próprio.

NO BRASIL
Mil novecentos e oitenta ainda reservaria ao Brasil uma turnê de Gilberto Gil com Jimmy Cliff, que vinha pela segunda vez ao país, sendo a primeira em 1968 para participar do Festival Internacional da Canção (FIC). Um dos fãs que estavam na plateia na apresentação em 1980 foi o cantor e compositor pernambucano Valdi Afonjah: “O show que mais me marcou foi o primeiro show de reggae que vi, de Jimmy Cliff aqui no Recife, na turnê que ele fez com Gil. Foi ali o meu primeiro contato com os rastafáris. Foi onde também vi uma banda de reggae soando como músicos de reggae, tenho as melhores lembranças desse momento”.

O artista pernambucano ouviu falar do gênero musical pela primeira vez quando estava com 12 anos. “Era uma reportagem sobre Bob Marley num programa do Nelson Motta em meados dos anos 1970. Eu tive uma identificação imediata com aquilo tudo, a música, a forma como tocavam, dançavam e os dreadlocks, pois nunca gostei de cortar meu cabelo. Então foi uma escolha que fiz para toda vida. Naquele momento escolhi a música e o reggae”.

Outro veterano pernambucano conheceu o gênero por acaso. “Foi em uma de minhas viagens no navio da Marinha brasileira Barroso Pereira, em 1971, quando no meio da travessia do Atlântico (estávamos indo à Europa), meu rádio-cassete detectou uma emissora caribenha que estava tocando You can get it if you really want, de Desmond Dekker. Eu fiquei sintonizado nela e percebi que só tocava esse tipo de música! Daí que acabei gravando um monte de reggae e me apaixonei de cara pelo ritmo!”, conta Saulo Douglas.

Ele montou a primeira banda de reggae do Brasil, o Grupo Karetas. Em 1981, lançou Vento norte, que foi hit em todo o Nordeste. “Eu sigo morando no exterior, em Gran Canaria, na Espanha, desde 1989, quando fizemos a última turnê pelo Norte-Nordeste do Brasil, lançando o último LP do grupo, gravado na Bahia e com participação de Carlinhos Brown. Como, tanto o disco quanto a excursão foram uma grande decepção pra mim, o repertório era mais axé e pouco reggae, decidi sair do grupo. Havia uma proposta de tocar nas Ilhas Canárias, o restante do grupo não topou, mas eu formei outro com Inaldo Negron (guitarrista do Karetas) e viemos! Também já morei na Suíça, Alemanha e em Londres. Sempre tocando reggae e também MPB”, situa.

“O reggae é muito difundido no Brasil, embora ainda exista um certo tipo de preconceito. Mas, do tempo que eu comecei até agora, o mercado cresceu bastante. Tenho acompanhado o surgimento de muitas bandas e músicos bons de reggae do Recife. Também na parte de produção, já temos muitos profissionais de alto nível especializado em reggae, dub, sound system e até a cultura rastafári já tem muitos adeptos no Brasil. Isso é muito bom, porque vem junto, com isso, o respeito à natureza, a questão da sustentabilidade, a medicina alternativa e tudo que está ligado a essa cultura”, avalia Afonjah.


Julian Marley foi um dos artistas internacionais do reggae
que vieram ao Recife para realizar shows produzidos
por Dirceu Melo. Foto: Divulgação

Dirceu Melo, guitarrista da Jorge Cabeleira, passou a gostar de reggae quando estava indo ao Rio de Janeiro gravar o primeiro disco da banda pela Sony Music, em 1994. “Nosso guitarrista na época, Beto Legião, ouvia uma fita cassete de Edson Gomes o tempo inteiro. Tinha também a coletânea Legend, de Bob Marley, que uns amigos colocavam nuns rolés. Virei fã de Bob e interessado em conhecer mais esse gênero, que trazia muita paz e energia positiva”. O músico começou a produzir os primeiros shows de sua banda de reggae, a Manga Rosa. Depois foi procurado para produzir um show da Tribo de Jah no Recife e nunca mais parou. Trouxe para a cidade todas as bandas do reggae nacional, assim como alguns dos maiores representantes do gênero, como The Wailers, The Congos, Gladiators, Groundation, Alpha Blondy, Julian Marley e Andrew Tosh – dois dos muitos filhos que carregam os sobrenomes mais icônicos do reggae.

“As dificuldades enfrentadas por uma banda de reggae no Nordeste são as mesmas das bandas da cena independente de qualquer canto do Brasil. Dificuldade em criar, manter e aumentar o público, conseguir destaque em meio à enorme oferta à disposição na internet, conseguir circular num país tão grande como o Brasil, com os preços que têm esse deslocamento. Adicionado ainda a uma certa dose de preconceito em relação ao gênero devido à ligação que o reggae tem com a maconha”, analisa Dirceu.

A Tribo de Jah, da qual Dirceu fez sua primeira produção, é a banda pioneira mais atuante do reggae nacional. “Ela foi protagonista na explosão do reggae em muitos estados. No Rio Grande do Sul, por exemplo, esteve à frente do grande momento de ascensão do ritmo na região, assim como no Pará, em Brasília e em vários outros estados. Foi a primeira a introduzir a temática reggae ao português com expressões como Jah, Babilônia [o mundo opressor dominado pelos brancos], roots etc. Hoje pode-se dizer que há um mercado ou uma cultura reggae no Brasil com a peculiaridade de cada região. Muitos grupos ou artistas do gênero, de diferentes estilos… A Tribo acabou por se tornar uma referência, mas é uma banda de resistência porque não encontra espaço na grande mídia. Gostaríamos de ter algum reconhecimento por se tratar de um grupo que tem quatro deficientes visuais na sua formação e é um exemplo da inclusão do deficiente físico através da música ou da arte de uma forma geral”, afirma Fauzi Beydoun, vocalista e compositor da Tribo de Jah, que aprofundou a paixão pela música africana e pelo reggae nos quatro anos em que morou na Costa do Marfim, na África.

Segundo ele, a grande barreira para as bandas nacionais atuarem no exterior ainda é o idioma. “Claro, o trabalho tem que ter algo atrativo, tem que ser um trabalho de bom nível, mas o idioma é sempre um entrave. Por isso a Tribo tem investido em lançar discos em inglês e espanhol, além do português. Nas atuações da banda no exterior, temos essa versatilidade de cantar em francês, inglês ou espanhol, de acordo com o país em que estamos tocando. Isso facilita muito a aceitação do trabalho. Nosso último CD foi lançado em três idiomas, português, inglês e espanhol”.

No ano em que completou cinco décadas, o reggae recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. A Unesco destacou “a contribuição desta música para a consciência internacional sobre questões de injustiça, resistência, amor e humanidade”. O reggae “preserva toda uma série de funções sociais básicas da música – sujeita a opiniões sociais, práticas catárticas e tradições religiosas – e continua a ser um meio de expressão cultural para a população jamaicana como um todo”. Em todos os níveis do sistema educacional do país, “o ensino desta música está presente, de creches a universidades”, acrescentou o comunicado.

PATRIMÔNIO
“O recebimento do título confirma a internacionalização do gênero musical como uma linguagem da humanidade. O primeiro disco de reggae internacional, Catch a fire, de 1972, The Wailers, tem 47 anos. Foi esse o tempo suficiente para que houvesse a consolidação do reggae como cultura mundial. O reggae tem a verdade do gueto. É a voz real do negro oprimido na América. Essa verdade acaba por resvalar na humanidade, porque independente de cor, a humanidade sofre”, observa o músico de reggae, sociólogo e pesquisador baiano Ricardo Reina.

Nesses 50 anos, o reggae percorreu o mundo. Há artistas e bandas tocando o gênero nos países mais diversos como Portugal (Freddy Locks, Richie Campbell, Kussondulola, Mercado Negro, Supa Squad), Islândia (Hjálmar e Ojba Rasta), Suécia (Rootvälta, Svenska Akademien e Governor Andy), Finlândia (Jukka Poika), Dinamarca (Klumben e Raske Penge). Há mais de 150 festivais de reggae espalhados pelo planeta, que escalam artistas como Burning Spear, Anthony B, Patrice, Horace Andy, Gentleman, Matisyahu, Alborosie, Alpha Blondy, Damien e Ziggy Marley e Selah Sue. O reggae influenciou inúmeras bandas, como The Clash, Gang of Four, UB40, The Specials, The Police, Beatles, Paul McCartney… O ex-beatle, a propósito, finalmente conseguiu fazer um reggae com Jet?

No Brasil, há centenas de bandas e artistas voltados para o estilo, com destaque para Tribo de Jah, Edson Gomes, Ponto de Equilíbrio, Planta & Raiz, Mato Seco, Natiruts, Cidade Negra, além de diversos outros nomes da MPB que usam o reggae em suas composições e a própria criação do samba-reggae na Bahia. Enquanto isso, São Luís, capital maranhense, pela quantidade de radiolas e sound systems tocando reggae, é considerada a “Jamaica brasileira”. Criou um Museu do Reggae e um Roteiro Turístico do Reggae. O país tem tanta ligação com o ritmo jamaicano que, em 2012, a presidente Dilma Rousseff decidiu instituir o Dia Nacional do Reggae, no 11 de maio, data da morte de Bob Marley.

Em 5 de outubro de 1980, o músico visitou Nova York, onde se apresentou duas vezes num Madison Square Garden lotado. Na manhã de 8 de outubro, saiu para correr, como fazia todos os dias. Ele acordava muito cedo, costume trazido da época que era garoto em Nine Miles. Pouco tempo depois de sair do hotel, foi encontrado desmaiado no Central Park. Descobriu que tinha um câncer no cérebro e com metástase. Três dias depois, tocou no Stanley Theater, em Pittsburgh. Tentou a cura na Alemanha. Soube que o médico alemão Josef Issels poderia ajudar. Com a agressão da quimioterapia, todos os seus dreadlocks caíram. Quando estava sem forças até para tocar, desistiu. Pegou um avião de volta para a Jamaica e quis reunir todos os 12 filhos para uma despedida. Mas não havia mais tempo. O encontro teve que ser em Miami. No dia 11 de maio de 1981, faleceu aos 36 anos. Foi sepultado em Nine Miles, nas montanhas onde nasceu e que virou local sagrado para os fãs.

Foto: Peter Simon/Reggae Scrapbook/Cortesia

Trinta e oito anos após sua morte, seu legado não para de reverberar. Em 2018, foi anunciado que sua história vai ganhar uma cinebiografia. Em 2017, a Forbes o listou como a quinta celebridade morta mais rentável do mundo. No mesmo ano, a coletânea LegendBob Marley & The Wailers (1984) chegou a 500 semanas no ranking dos mais vendidos da Billboard, atrás apenas de Dark side of the moon, do Pink Floyd. Somente em 1985, a categoria Melhor Álbum de Reggae foi introduzida no Grammy Awards. Por isso, Bob Marley não ganhou um prêmio em vida. Só um honorário em 2001. Em 1988, Peter Tosh recebeu um “in memorian” pelo disco No nuclear war, um ano após ser assassinado, aos 42 anos. E, desde então, os filhos de ambos são alguns dos nomes que aparecem na lista dos vencedores ou dos indicados.

“Hoje, com exceção de um pequeno número de artistas chamados ‘revival roots’ como Kabaka Pyramid, Chronixx, Jesse Royal e a cantora Jah9, a música reggae está em um eclipse quase total na Jamaica. O movimento foi assumido por artistas estrangeiros, tanto na América e especialmente na Europa. Na Jamaica, o som estridente do dancehall, com suas letras fazendo apologia às armas de fogo e sua bravata sexual, domina as paradas. Bob deve estar se revirando em seu túmulo. Dois anos atrás, na Universidade das Índias Ocidentais, em Kingston, o veterano Max Romeo anunciou tristemente que ‘a música reggae está morta’. Os sons de Bunny, Bob e Peter são considerados ‘música do vovô’ e, exceto em torno do aniversário desses ícones, ganham pouco play na ilha”, lamenta Roger Steffens, confessando que a primeira vez que seus filhos o viram chorando foi quando soube do assassinato de seu amigo Peter Tosh.

Autora da icônica foto de Catch a fire e amiga de Bob Marley, a fotógrafa e documentarista jamaicana, radicada em Londres, Esther Anderson concorda que os precursores do gênero musical ficariam revoltados com a deturpação do reggae hoje. “O reggae não é dancehall ou slackness (subgênero do dancehall). E os dois não devem ser confundidos, porque isso é distorção e desinformação da mídia, levando a juventude a pensar que eles são o mesmo. Eu não desisti da minha carreira de atriz para promover o slackness e a sua vulgaridade. Ambos, Bob e Peter, e todos aqueles que vieram antes, revirariam em suas sepulturas, se eles pudessem ver o que aconteceu com a música que veio dos humildes, respeitosos e pacíficos rastafáris que sofreram e ainda sofrem sob as mãos da injustiça, especialmente na Jamaica. Rastafáris ou músicos de reggae não são traficantes de drogas ou portadores de armas. O reggae é sobre paz, vida, elevação, humanidade. É a música de Deus. ‘Jah music’, como Bob denominou”.

Steffens explica o porquê do reggae ter-se tornado a mais influente música oriunda do chamado Terceiro Mundo: “O segredo do domínio do reggae e da penetração mundial é que seu ritmo é a batida do coração humano saudável em repouso. O fato de Bob Marley ser sua figura-chave, até hoje, ajuda. Marley é visto como uma figura rebelde, um ícone quase religioso, um José reencarnado da Bíblia que veio trazer alimento espiritual para a geração atual. Sua música significa algo. Ao olharmos para o século anterior, vemos sua posição dominante como o Artista do Século, cuja obra será tocada e compartilhada durante séculos (se o planeta tiver sorte o suficiente para sobreviver). O reggae nos dá esperança, regras para viver e conforto para os aflitos. É o ritmo escolhido para a resistência, em todo o mundo”.

Won’t you help to sing
These songs of freedom?
Cause all I ever have
Redemption songs

DÉBORA NASCIMENTO, repórter especial da Continente e colunista do site da revista.

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