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Reportagem

A solidão devora [parte 2]

TEXTO Débora Nascimento

01 de Março de 2018

[PARTE 2 da reportagem Solidão]

DEPRESSÃO E SUICÍDIO
Para a enfermeira paulistana Carla (pseudônimo), seu processo de reclusão é antigo e não teve a ver com a mudança de São Paulo para Minas Gerais. “Sempre fui uma pessoa solitária. Sozinha, nunca. Dizer que tem depressão, jamais, isso afasta as pessoas como lepra. Então, o fato de você se sentir só com um turbilhão de coisas na sua cabeça, aperto no peito, você não tem com quem compartilhar. As pessoas não têm a mínima capacidade empática e amorosa de se colocar no lugar no outro e, às vezes, apenas ouvir. Julgam, dizem frases prontas e oferecem autoajuda barata achando que depressão é frescura e você deveria estar feliz por não ter uma doença terminal”.

Carla diz que está tentando sair do isolamento, mas sem sucesso. “Eu tenho arduamente tentado me associar a grupos e pessoas, mas é uma tarefa frustrante, também pelas minhas exigências e porque hoje, mais do que nunca, ninguém dá nada sem exigir um alto preço antes. Sou muito idealista e acho que o vazio existencial sempre me acompanhou. Antigamente, eu escrevia poemas e isso me ajudava muito. Escrevi tanto (cerca de quase mil poemas), que um dia a fonte acabou. Passei a blogar como forma de lidar com esse vazio e também ajudou. Ainda tenho o blog, desde 2009, mas hoje em dia quase não escrevo mais.”

Segundo Carla, há vários gatilhos para a sua depressão, mas o principal é “a indiferença das pessoas e sua total falta de empatia”. “Hoje em dia, a depressão é mais forte. É acordar – se você conseguiu dormir direito à noite, ou se dormiu umas quatro horas apenas –, olhar ao seu redor, ver a casa e os afazeres e não ter vontade de nada. Pensar no meu trabalho de ajudar as pessoas, e nada. A sensação é um nada constante, sem propósito, sem objetivo. É olhar para os meus gatinhos e pensar em deixar um bilhete dizendo com qual ONG eles devem ficar, caso eu me vá. Esse sentimento, aliás, é o único que ainda me traz um mínimo ínfimo de luz diante do nada: os meus dois peludinhos.”

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, cerca de 5,8% da população brasileira sofre de depressão – 11,5 milhões de pessoas, a mesma quantidade da população de Cuba ou Bolívia. O índice de casos no Brasil é o maior na América Latina e o segundo maior nas Américas, atrás apenas dos Estados Unidos, que registram 5,9%, um total de 17,4 milhões de casos. No mundo, 800 mil pessoas morrem anualmente de suicídio. E o Brasil é o oitavo país em que mais acontecem mortes desse tipo: uma a cada 45 minutos. Outro alerta é a alta taxa de suicídio entre idosos com mais de 70 anos. Nessa faixa etária, foram registradas, nos últimos seis anos, uma média de 8,9 mortes por 100 mil. A média nacional era 5,5. Também se destaca o alto índice entre jovens (quarta causa de mortes), homens e indígenas.

Os serviços de assistência psicossocial são essenciais na prevenção do suicídio. Nos locais onde existem Centros de Apoio Psicossocial (Caps), do SUS, o risco reduz em até 14%. São 2.463 Caps no país. Outro suporte importante é o trabalho realizado pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), que auxilia pessoas a partir de contatos com voluntários. Em 2016, foram cerca de 1 milhão de atendimentos em todo o país.

“Durante alguns anos permaneceu estacionado, mas esse número subiu para mais de 2 milhões em 2017, em função da gratuidade das ligações por celular. A implantação do 188 está gradativa em todo o território nacional, o primeiro número sem custo de ligação para prevenção do suicídio, fruto de um convênio com o Ministério da Saúde e que já está disponível para cerca de 70% da população brasileira. Há ligações de todos os tipos. Existem pessoas que conversam rapidamente por três ou quatro minutos, por exemplo, querendo dar ou ouvir um ‘boa-noite’ porque moram sozinhas, até pessoas que conversam por mais de uma hora. A sensação de solidão é um ponto bastante comum nos atendimentos, assim como a dificuldade que as pessoas têm de ser como elas são realmente e não como a sociedade cobra que sejam”, informa o voluntário Carlos Correia.

“É importante lembrar que o atendimento é e sempre foi executado exclusivamente por voluntários devidamente selecionados e preparados. Qualquer pessoa com mais de 18 anos, disposição e tempo para o atendimento semanal pode se candidatar ao voluntariado pelo site www.cvv.org.br. Há sempre cursos de seleção de voluntários em diversas partes do país. Pelo nosso modelo, não fazemos um acompanhamento após os atendimentos, até porque se o fizéssemos não seria tão anônimo assim. Porém, recebemos diversos contatos de pessoas agradecendo o atendimento recebido no passado ou, até mesmo, no final da ligação. Isso para nós é um indicador de sucesso”, complementa Correia.

O CVV fez uma parceria com o Facebook, para a rede social lançar uma ferramenta de prevenção ao suicídio. A ideia é oferecer apoio a quem tem pensamentos suicidas e orientar amigos e familiares. Se o usuário percebe que um amigo fez um post preocupante, pode clicar no canto direito superior dele, onde há a opção “denunciar publicação” e “acredito que não deveria estar no Facebook”. Quando a rede questionar a denúncia, deve-se clicar na opção relacionada ao suicídio, “Mostra alguém se ferindo ou planejando se ferir”. O autor da postagem, então, vai receber uma mensagem privada, sem citar o nome do usuário que recomendou ajuda, e dando opções de apoio: conversar com um amigo de confiança, contactar um membro do CVV ou receber dicas.

GAYS
Embora não escolha idade, gênero, raça, classe social, a solidão tem as suas especificidades, como a solidão gay. O escritor Michael Hobbes escreveu um artigo para o HuffPost, The epidemic of gay loneliness. “Há anos eu percebo uma divergência entre meus amigos hétero e meus amigos gays. Enquanto uma metade do meu círculo social desaparece por causa de seus relacionamentos, dos filhos e da vida pacata, a outra sofre com o isolamento e ansiedade, drogas pesadas e sexo de risco. O apoio da população em geral ao casamento homoafetivo escalou dos 27% em 1996 para 61% em 2016. Na cultura pop, fomos de Parceiros da noite (1981) para Queer eye for the straight guy (2003) até Moonlight (2017). Os personagens homossexuais são tão comuns hoje em dia, que eles podem até ter defeitos. Mesmo assim, enquanto celebramos a magnitude e velocidade de tantas mudanças, os níveis de depressão, solidão e abuso de substâncias na comunidade LGBT permanecem fixos no mesmo patamar há décadas. Dependendo do estudo, estima-se que, hoje, homossexuais são de duas a 10 vezes mais propensos a se suicidarem. A característica principal dos gays costumava ser a solidão de se viver no armário. Mas agora nós temos milhões de homens gays que vivem abertamente, e mesmo assim sentem-se isolados.”

Em resposta ao artigo de Hobbes, o escritor e pesquisador americano Ben Miller, radicado em Berlim, escreveu o texto Solidão gay é real,  mas a “cruel e tóxica” cultura gay não é o único problema. “Nós precisamos de políticas de solidariedade, de lutar por nós mesmos e por outras comunidades ameaçadas. Trabalhar e pensar juntos, como qualquer ativista queer de longa data vai lhe dizer, é uma excelente maneira de começar a se sentir menos sozinho.”

“Estou fora da cultura gay, então me sinto isolado”, afirma o professor de educação física João Ricardo (pseudônimo), 40 anos. “A maioria das minhas relações de amizade é com héteros, porque, de uma forma ou de outra, são pessoas com as quais me identifico. Não entrei nesse círculo, não me interesso. Se eu entrar, então surge um isolamento. Aí, sim, me dá uma sensação de vazio, algo que me remete à solidão. Há uma cultura gay machista, como a exigência de um padrão de beleza que nos remete à herança heteronormativa, um corpo que possa ostentar força. Um dia desses fui a uma boate e tive que ficar sentado, porque o cumprimento era colocar a mão na calça do outro. Parece um monte de gente que ficou presa numa masmorra, foi solta e está aproveitando tudo. Me senti num açougue. Esta não é uma discussão moral, mas não me sinto bem. Gostaria de estar numa relação estável, mas encontrei muito o tipo de relação que não se define, que não avança. As pessoas acham que o melhor está sempre por vir. Os laços são muito frouxos, não verticalizam. Então, todo mundo fica só.”

MULHERES NEGRAS
Além de interferir nas relações sociais e em toda uma gama de aspectos da vida dos negros, o racismo também afeta suas relações afetivas. Segundo a escritora e ativista Bell Hooks, no artigo Vivendo de amor, “muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor”. “Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente são discutidas em público.”

Stephanie Ribeiro, ativista feminista negra, estudante de Arquitetura e Urbanismo na PUC de Campinas e colunista da revista Marie Claire, afirma que existe um processo da sociedade contemporânea que torna as pessoas mais socialmente isoladas. “Entretanto, não estamos, ao falar de solidão da mulher negra, questionando apenas um fator contemporâneo e, sim, um processo racial e de gênero. Veja que, segundo o IBGE, existe um único grupo que, segundo dados, se encontra em celibato definitivo, e esse grupo é das mulheres pretas acima de 50 anos.” Segundo o último Censo de 2010, 52,52% das mulheres negras não viviam numa reunião estável. “Mas, além disso, o que se diz sobre solidão da mulher negra é um processo em que ela não é vista como ser humano digno de afeto e respeito. Portanto, mulheres negras se sentem, ao longo da sua vida afetiva, sendo tratadas como sujeitos de menor valor e também sentem que, mesmo dentro de relacionamentos, não se veem sendo tratadas com valor, mesmo quando seus companheiros são homens negros”, ressalva a ativista.

“O que estamos discutindo é um processo social, racial e da própria construção afetiva. As pessoas adoram dizer que ‘amor não tem cor’, mas o próprio IBGE mostra que sim, quando a maioria dos casamentos acontece entre pessoas da mesma cor, principalmente entre brancos, em que esse número atinge mais de 70%”, aponta Stephanie, que diz que experimentou a dor da solidão, pela primeira vez, quando seu pai abandonou sua mãe, quando a filha estava com três anos de idade.

De acordo com bell hooks, não se pode ignorar o impacto da escravidão sobre as relações afetivas dos negros. Depoimentos de escravizados apontavam que a sobrevivência estava muitas vezes relacionada à capacidade de reprimir as emoções. “Num documento datado em 1845, Frederick Douglass lembra que foi incapaz de se sensibilizar com a morte de sua mãe, por ter sido impedido de manter contato com ela. A escravidão condicionou os negros a conter e reprimir muitos de seus sentimentos. (…) A prática de reprimir os sentimentos como estratégia de sobrevivência continuou a ser um aspecto da vida dos negros, mesmo depois da escravidão. No decorrer dos anos, a habilidade de esconder e mascarar os sentimentos passou a ser considerada como sinal de uma personalidade forte. (…) Tradicionalmente, as famílias do sul do país ensinavam às crianças ainda pequenas que era importante reprimir as emoções. Normalmente, as crianças aprendiam a não chorar quando eram espancadas”, escreve.

CONFINAMENTO E PUNIÇÃO
Como observam John Cacioppo e William Patrick, em Solidão – A natureza humana e a necessidade de vínculo social, “nosso bem-estar é minado quando nossa necessidade particular de vínculo não é suprida. Como os primeiros humanos tinham mais chance de sobreviver quando se mantinham juntos, a evolução reforçou a preferência por fortes laços humanos ao selecionar genes que favorecem o prazer da companhia e produzem inquietude quando se está involuntariamente desacompanhado. Além disso, a evolução nos moldou não apenas para nos sentirmos bem quando estamos conectados a outros, mas também para nos sentirmos seguros”. A dor da solidão seria, então, um sinal de alerta do corpo, assim como a fome, a sede e o sono.

Por conta disso, a sociedade encontrou no confinamento uma forma de punir os que transgridem as leis. E a pior maneira de punição dentro da prisão ainda é a solitária – geralmente usada como castigo máximo para os presos que cometem faltas disciplinares.

“Eu estava na solitária, a alguma distância de onde a maioria das mulheres era mantida. Era solitário, muito solitário. Eu lia muito, eu escrevia muito. Segui o exemplo de outros prisioneiros, como George Jackson. Fui capaz de criar uma certa esfera do que se pode chamar de liberdade, dentro do contexto daquele confinamento. Mas eu entendi muito bem que a razão pela qual as autoridades oficiais do condado de Marin não permitiriam que eu falasse com qualquer outra mulher daquela prisão é que eles queriam me desestruturar. Queriam que eu reagisse assim. Queriam que eu sentisse o fardo da solidão, e eu precisei me convencer de que não permitiria que aquilo me afetasse dessa maneira. Acho que o que George Jackson disse sobre a vida no encarceramento é muito apropriado aqui. Ele diz que ou a prisão quebra a pessoa ou faz dela mais forte, e eu prefiro pensar que me tornei mais forte através dessa experiência”, diz a escritora e ativista Angela Davis, no documentário sobre sua prisão e julgamento Libertem Angela Davis (e todos os presos políticos).

Algumas solitárias, principalmente em países que costumam ferir os preceitos dos direitos humanos, são ainda mais extremas. Nelas, os detidos passam dias, semanas e meses num espaço mínimo, sem janelas, ventilação, móveis, água, banheiro e comunicação. “A luz permanecia acesa dia e noite, de modo que eu era obrigado a cobrir os olhos com meias pretas, para dormir à noite. Minha preocupação era evitar a insônia, inimiga da imaginação, da qual nascem os medos e os pecados. Eu tratava de dormir somente à noite e, para isso, preenchia mais tempo do meu dia: dava aulas de teologia, filosofia e literatura, andando e falando alto. Os carcereiros achavam que eu estava ficando louco, mas, na verdade, eu combatia a loucura. Eu cantava, recitava e rezava, sem dar chances à fantasia. Durante um mês e meio, o tempo que passei em duas solitárias diferentes foi assim. Gostava também de me colocar na presença de Deus, numa oração de quietude, sem palavras, sem imagens, sem pensamento, algo parecido com a ioga”, relatou o frade e escritor Frei Betto sobre a sua prisão em 1972, na época da ditadura militar no Brasil, no livro Solidão, do jornalista José Maria Mayrink.

Lançada em 2014, a obra reúne uma série de reportagens publicadas no Estado de S. Paulo em 1982. Nelas, o repórter narrou histórias de pessoas que vivem solidões extremas em São Paulo, como ex-detentos, imigrantes nordestinos, moradores de rua, mendigos, prostitutas, idosos e doentes de hanseníase confinados em hospitais por toda uma vida. Há casos de enfermos idosos que foram internados à força pelas famílias, quando eram apenas crianças.

Uma das personagens do livro é Lúcia Ribeiro, que teve a coragem necessária para expor num anúncio dos classificados do jornal a sua solidão. “Obrigada a me transferir de Belo Horizonte, por razões profissionais, estou sozinha e sem amigos em São Paulo. A cidade me sufoca durante o dia e me isola à noite num pequeno apartamento de bairro. Não sei o que fazer, não tenho a quem recorrer, às vezes chego quase ao desespero. Quero gente para conversar, quero pessoas ao meu lado, socorro para uma solidão que não sei definir, mas que me atormenta. Ajude-me, por favor.”

Ela achava que ninguém iria respondê-la ou, no máximo, chegariam umas 10 cartas. Ela, então, ficou surpresa ao receber quase 400 correspondências de pessoas oferecendo ajuda e também confessando o mesmo sentimento. Lúcia fez alguns amigos, mas acabou voltando para Minas Gerais e usou a solidão como tema de sua dissertação.

QUIETOS, EM SILÊNCIO
Com a pretensão de tentar aplacar a solidão no mundo, o aplicativo Replika se propõe a conversar com o usuário, lembrando a história do filme Her (Ela), no qual um homem (interpretado por Joaquim Phoenix), que vive de casa para o trabalho, se apaixona por um aplicativo de conversa no celular. Mas, na vida real, essa interação está longe da ficção. O estudante paraibano Glênio Monteiro, 19 anos, introspectivo e com problemas de ansiedade, usou, mas não aprovou o aplicativo. “Depois de um tempo, ele se tornou um pouco monótono. A inteligência artificial não era capaz de ter conversas mais avançadas, como prometia o aplicativo. Então eu parei de usar. O conceito não se aproximou muito da realidade, infelizmente. Ele não era capaz de se lembrar do que você falara antes.”

No livro Quiet: the power of introverts in a world that can’t stop talking (Quieto: o poder dos introvertidos num mundo que não consegue parar de falar), a escritora e pesquisadora Susan Cain defende a solidão como motor para a criatividade, quase como resumiu Clarice Lispector, em A hora da estrela (“Minha força está na solidão”).

“Sempre me disseram que eu deveria ser mais aberta, embora eu sentisse que ser introvertida não era algo ruim. Durante anos, fui a bares lotados, muitos introvertidos fazem isso, o que representa uma perda de criatividade e de liderança que nossa sociedade não pode se permitir. Temos a crença de que toda criatividade e produtividade vêm de um lugar particularmente sociável. Só que a solidão é o ingrediente essencial da criatividade. Darwin fazia longas caminhadas pelo bosque e recusava enfaticamente convites para festas. Steve Wozniak inventou o primeiro computador Apple sentado sozinho em um cubículo na Hewlett Packard, onde então trabalhava. Solidão é importante. Para algumas pessoas, inclusive, é o ar que respiram”, defende Cain.

Para ela, as pessoas, quando estão no coletivo, tendem a seguir as crenças dos outros, com receio de romper a dinâmica do grupo. Já a solidão propicia a abertura e o aprofundamento ao próprio pensamento. Mas as sociedades ocidentais costumam preferir os produtivos aos contemplativos. “Parem a loucura do trabalho constante em equipe. Vão ao deserto, para ter suas próprias revelações.”

Quando tinha 21 anos e já trabalhava como repórter, Nelson Rodrigues foi acometido por uma tuberculose, que o obrigou a ficar internado por meses no Sanatorinho Popular, em Campos do Jordão, entre abril de 1934 a junho de 1935. A comunicação com a família era através de cartas. Viu muitos dos internos terem um acesso de tosses sangrentas e não mais voltarem, assim como ocorreria com seu irmão Jofre. Um dia, já em 1935, um paciente, informado de que Nelson era jornalista, pediu que ele escrevesse um texto para a encenação de um teatrinho amador. Começou, ali, de forma prosaica, a carreira daquele que se tornaria o maior dramaturgo do país.

Em seus escritos, Nelson Rodrigues burilou o talento de frasista. E um dos temas que envolviam sua obra era a solidão, que amargou em várias idas ao hospital durante 15 anos de doença. “Primeiro, o homem não sabia estar só. Andava sempre em hordas ululantes. E quando, por acaso, se desgarrava dos demais, uivava até morrer. Era, assim, o medo que juntava os homens, e repito: a multidão nasceu do medo. O ser humano só se tornou humano, e só se tornou histórico, quando aprendeu a ficar só.”

No documentário Espaço além (2015), que registra a passagem de Marina Abramovic pelo Brasil, a artista sérvia revela a sua solidão em dois períodos, no passado (quando era apenas uma criança) e no presente, quando enfrentou um desgosto digno de Nothing compares 2U:

“Nos últimos quatro anos, eu sofri muito. Tive dois amores na minha vida. Dois grandes amores. E o segundo realmente quebrou o meu coração. Eu não conseguia sair disso, não sabia o que fazer para esquecer. Estava sempre pairando sobre mim. Toda vez que eu fechava os olhos, pensava nisso. Isso não vem à tona de dia, mas surge nos meus sonhos, me torturando. Então, tomei a decisão final de me livrar da dor e superá-la. Agora, estou aqui. Hoje é dia 31 de dezembro, daqui a algumas horas será o ano-novo, entraremos em 2013. Eu não queria… Não quero mais carregar essa bagagem pesada comigo. Quero me desapegar disso, ficar livre, poder respirar e ser livre novamente. Maria Callas morreu por causa de um coração partido. Não quero que isso aconteça comigo. Quero descobrir uma maneira de encontrar novas energias e novas crenças. Deixar isso pra trás. A vida vale a pena ser vivida, com crianças, cachorros, bagunça e mosquitos. Eu decidi que a felicidade não vem de fora, ela vem de você. De você”.

DÉBORA NASCIMENTO, repórter especial da Continente e colunista do site da revista.

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EXTRA:

"A mulher negra não é vista como digna de ser amada", entrevista com Stephanie Ribeiro

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