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Perfil

Lucas dos Prazeres, filho de fogo, justiça e Conceição

Criado no Morro da Conceição, no Recife, eis um artista de corpo inteiro, que está na linha de frente da arte com sua música, voz e dança

TEXTO ERIKA MUNIZ
FOTOS E VÍDEO ASHLLEY MELO

13 de Dezembro de 2018

Seu orixá de cabeça é Xangô e justiça é algo que o norteia

Seu orixá de cabeça é Xangô e justiça é algo que o norteia

Foto Ashlley Melo

[conteúdo exclusivo Continente Online | dez 2018]

Existem artistas de constante
inquietude pela criação, uma busca por ocupar regiões estéticas e políticas ainda pouco exploradas e, por vezes, até inexploradas. Há ainda os que na contramão das especializações – que muitas vezes afunilam mais do que ampliam –, se arriscam em alargar seus campos de conhecimento. Exímio percussionista, bailarino, cantor e compositor, Lucas dos Prazeres procura esses caminhos.

Suas vivências demostram que, além de todos esses ofícios ligados diretamente à arte, percebe o espetáculo em sua unidade. Da iluminação ao desenho de mapa do palco, das coreografias à harmonia entre os instrumentos, da sonorização à presença de cada um dos artistas que o acompanha. Aliás, esse não poderia ser o perfil de um só, mas de vários, pois sejamos justos: seu orixá de cabeça é Xangô e justiça é algo que o norteia. Numa arte tão coletiva como a produzida por Lucas, não se faz possível atribuí-la somente a um, mas a muitos. Ele é muitos, e é um.



Um dos homenageados do Homem da Meia Noite no Carnaval de 2019, Lucas dos Prazeres está bem-acompanhado ao lado do grupo Patusco e da rainha Lia de Itamaracá. Um momento de luz que se anunciou ainda este ano, quando a Orquestra dos Prazeres, projeto liderado por ele e Conceição dos Prazeres, sua mãe, realizou o sonho de lançar o DVD Repercutir, repleto de convidados. Na orquestra que leva o sobrenome de família, o número de talentos é generoso. Várias gerações convivem, criam e participam de cada detalhe do espetáculo. Trinta músicos no total, mas há os que estão para além dali, colaborando nos entre-lugares que unem palco e público. O público, aliás, também faz parte, pois "todo espetáculo só fica pronto quando encontra a plateia", diz Lucas, que percebe o trabalho como um organismo vivo e em constante processo.

No Pátio de São Pedro, durante as comemorações da semana da Consciência Negra, em novembro passado, a Orquestra dos Prazeres se apresentou na tradicional Terça Negra. Há exatos sete anos, o grupo fez sua estreia no mesmo local. Toda a energia e musicalidade que este projeto coletivo emana, sobretudo numa data tão importante para o povo negro, foi percebida pelos presentes. Em constante movimentação no centro do palco, está Lucas, que canta, dança, interage e tensiona os limites entre a percussão e seu corpo. Tudo está integrado, nada se apresenta de forma solitária. Ao ser questionado se é possível dissociar a música da dança, imediatamente responde com a frase do mestre Naná Vasconcelos, por quem nutre admiração: "O primeiro instrumento é a voz, o melhor instrumento é o corpo". Notoriamente, leva isso a sério. “Todas as vezes que eu vou criar para a percussão, eu começo dançando”, complementa sobre seu processo criativo.




Apresentação de Lucas com a Orquestra dos Prazeres no Pátio de São Pedro

No dia seguinte, dona Conceição nos recebeu no quintal de sua casa, no bairro do Arruda, no Recife, com muita conversa e riso frouxo. Só faltou revelar a receita do famoso feijão, que de tantos elogios, despertou a curiosidade de todos. “Nossa vida cultural é a nossa vida.” Uma das primeiras frases de dona Ceça, ao falar sobre os vários instrumentos guardados em casa. Ao ser questionada se sente saudades de morar no Morro da Conceição, conta que tem gostado da atual tranquilidade que o bairro lhe oferta, mas, às vezes, se pega pensando na ebulição cultural característica do Morro. Entre plantas, pés de alecrim e outras ervas medicinais, confessa sua paixão pelas danças e pela tradição cultural. Ela, que foi bailarina do Balé Popular do Recife, Dança Pernambuco e Lua Negra Africana, conheceu Edvaldo Matias de Ferreira, pai de Lucas, também na dança.

Na época do Balé Popular, quando já estava grávida de Lucas, não queria deixar o palco. À medida que a barriga foi crescendo, trocava as coreografias mais acentuadas pela pontinha do pé característica da Dama do Passo do Maracatu. Assim, segurava a calunga com o primogênito em seu ventre. “É muito significante porque a calunga representa a união do mundo espiritual e o mundo terreno para nós que somos de candomblé. Ela representa as ex-rainhas, os ex-reis que passaram pela nação. Há maracatus com mais de 100 anos que recebem axé e a calunga é esse ser encantado. Imagine para mim estar dentro do ventre de minha mãe e ela sendo a condutora”, conta Lucas com brilho nos olhos, reiterando a participação decisiva de sua mãe no projeto: “A gente pariu essa orquestra juntos”.

Pela originalidade de seu trabalho, não é de hoje que Lucas chama atenção da crítica e do mercado fonográfico; já era assim desde os professores. Para entender de onde vem a criatividade, dona Conceição, numa sabedoria tão comum às mães, tem sua sugestão: “Temos nossas crenças, então a gente sabe da nossa ligação com a espiritualidade e com a linha de criação. Uma vez vi uma frase que dizia assim: ‘Ser artista não é uma classe especial de homens. Cada homem é uma classe especial de artista’. Todo mundo tem a arte dentro de si, basta aflorá-la. Desde criança, ele já tinha noção dos ritmos e esse apreço pela performance. É uma coisa que vem da espiritualidade, a gente tem essa conexão com o cosmos e isso nos orienta para que rumo a gente tem que tomar. Tem coisa que não é planejada, simplesmente acontece”.




Dona Ceça, a mãe do artista

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Nas conversas, constantemente um ponto é retomado por dona Conceição, isto é, sua preocupação em despertar cada jovem e integrante da orquestra sobre a importância e o protagonismo dos instrumentos percussivos, oriundos das culturas afro-brasileiras, além das questões da negritude, do feminismo e do estar na militância. A mãe de dona Ceça, cujo nome remete ao dela, Maria da Conceição dos Prazeres, era benzedeira no Morro da Conceição com o dom da palavra e da cura. Em 1982, a filha fez uma homenagem à avó de Lucas, com a criação do Centro de Formação do Educador Popular Maria da Conceição. O espaço permaneceu em atividade até 2010, mas, sem fins lucrativos, fechou as portas devido à ausência de viabilização financeira.

Voltado a crianças menores de seis anos, num período em que no Morro da Conceição não existia nenhuma escola destinada à educação infantil, o Centro Maria da Conceição ajudou muitas mães da comunidade a terem um lugar para deixar seus meninos e poderem trabalhar tranquilas. “No trabalho da escola, a gente desenvolveu uma metodologia chamada Aprendizagem pela Prática Cultural”, pontua a professora. “A gente visitava os núcleos do Morro, levava os meninos aos maracatus, cocos de roda, cirandas. A maioria que trabalhava na escola eram mulheres, um trabalho voluntário porque, na época, a gente nunca tinha ouvido falar nessas coisas de financiamento. Trabalhava por amor e pela necessidade, tinha muitas mães solteiras que precisava trabalhar”, relembra dona Conceição. Nesse ambiente, Lucas dos Prazeres, os alunos, as alunas, os filhos e as filhas das professoras foram sendo criados. Hoje, muitos do centro integram a Orquestra dos Prazeres.


Orquestra dos Prazeres, 2012. Foto: Juan Guimarães/Divulgação

Conciliando a docência com a carreira de bailarina, dona Conceição se apresentava, nessa época, com o grupo Dança Pernambuco e costumava levar Lucas com ela. “Meus filhos fizeram parte disso tudo”, afirma Ceça, que também tem Mateus e Joana. Da coxia, bem perto dos palcos, Lucas observava sua mãe se apresentar: “Eu via todas as coreografias, a construção de cada espetáculo e a evolução dele. Tudo isso foi vivência corporal e, até hoje, é matéria-prima para minha criação musical”. Em 1986, surgiu o grupo Raízes de Quilombo, que dentro da prática cultural aplicada à música, iniciava as crianças do morro num mergulho por nossas tradições populares. 

“O Raízes cresceu, se ampliou e começou a se apresentar. Formamos um grupo de dança, o Brincando e Dançando, que trabalhava também o boi, o maracatu, o frevo... A partir disso, começamos a nos envolver mais com a cena cultural do Recife e a escola começou a ter um destaque no tema educação e cultura com viés na cultura negra. Então Lucas, ele vem nessa vivência do Raízes de Quilombo e do Brincando e Dançando”, explica a mãe.

Alguns dias depois da conversa, esses ensinamentos foram postos na prática, pois acompanhamos a Orquestra dos Prazeres no evento Ciranda da Gente, da Escola Estadual Padre João Barbosa, localizada no Morro da Conceição.

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Quando tinha 12 anos, Lucas dos Prazeres fez um curso de formação para integrar o Concerto de Pau e Corda. Lá, conheceu o bandolinista Marco César Brito, que logo o convidou para estudar no Conservatório Pernambucano de Música. Há 20 anos, quando ele tinha 14, para acelerar o coração de dona Ceça, já fazia sua primeira viagem internacional. Mais uma vez, bem-acompanhado: com artistas como Alceu Valença, SpokFrevo Orquestra, Elba Ramalho, André Rios e Naná Vasconcelos, percorreu vários países da Europa. “Eu já tinha esse estalo da busca. Essa dinâmica de ir conhecer, guardar a informação e saber aprender. Vi que a cultura brasileira estava sendo esperada, eles já eram apaixonados por nossa cultura. Tendo um mestre de cerimônia como Naná Vasconcelos, imagine. Era assim, a orquestra de Spok abria com Vassourinhas”, relembra o artista.

A arte deu ao percussionista muitos amigos. Pela sua abordagem diante da percussão, que traz a música no corpo, inclusive, foi convidado a tocar com Naná Vasconcelos. “Poder vê-lo como um músico de sucesso e com todo o respeito tocando percussão me deu coragem para entender que era possível viver disso”, afirma.



Na banda Rivotrill, realizou trabalho autoral junto a Junior Crato, Rafa Duarte e posteriormente, Lucas Crasto. Ele também fez parte da banda de outros artistas, como Antônio Carlos Nóbrega, a SpokFrevo Orquestra e a cantora Renata Rosa. 

Em certo momento, no entanto, a necessidade de ter seu próprio trabalho foi sentida. “Normalmente a percussão fica nos fundos, as pessoas chamam de cozinha. E normalmente quem está na percussão é a negritude, então, a gente tinha que fazer um trabalho em que a percussão fosse protagonista, que ela estivesse na frente. A gente precisava de um trabalho que mostrasse o que é o mundo afro-percussivo dentro de uma visão para o mercado fonográfico. Assim, começou a Orquestra dos Prazeres”, explica Conceição dos Prazeres sobre o caráter, sobretudo político, de trazer os elementos percussivos para o centro do espetáculo.

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Atualmente, Lucas mora em Aldeia, Camaragibe (Região Metropolitana do Recife), com a esposa Deyse e os filhos Klara Lua, de 13 anos, e Yan Naluh, de dois, num sítio simples regado a pé de cajá na porta, banana e jaca tirada no pé. Baião, o cachorro do vizinho, os escolhe como companhia constante. Essa mudança, há um ano, faz parte da busca do artista por refletir sobre questões do consumo e a vontade de estar cada vez mais próximo à natureza; afinal, ela é parte de seus instrumentos, através das sementes, da madeira, da cabaça, folhas e infinitas sonoridades que esses objetos produzem. O local, batizado pela família de Axé do Limoiago (uma síntese de yorubá e ororubá, cujo significado é força que vem da terra), guarda a tranquilidade e o silêncio, algo que ele considera necessário à sua música.

Na dança, aprendeu a respeitar os momentos de pausa. “Para mim, a natureza é o caminho. Mais da metade de nosso corpo é água. Como é que eu entendo que a lua, por exemplo, influencia nas marés, algo tão forte, e não influencia em mim? Essa medicina, os pescadores detêm e sabem que, em cada uma das fases da lua, onde ele deve pescar”, diz ele, em conversa debaixo de uma bananeira.



Ao abrir a porta da casa, no Sítio Araçá, demos de cara com um Peji, o altar vivo que recebe a luz do sol da janela, as rezas e constantemente a colheita. Numa espécie de sincretismo, o Repercutir estava ladeado por cristais, elementos de reza, pedras, imagens, alguns presentes dos Xucurus e do povo Canaã, um ninho de passarinho e, na parede, uma bodurna Camará (lança indígena), deixada pelo proprietário da casa. Tirando esse último, que permanece intacto na parede, os objetos de fé vão mudando de acordo com o que eles estão trabalhando.

“Estou aprendendo aqui a plantar frutas, ervas medicinais, fazer lambedor, mexer com chás que não seja para o entretenimento”, revela Lucas, que é filho de Xangô, mas tem iteração forte com todo seu xirê (segundo ele, "corrente de guias e energias que você carrega desde seu nascimento"). “Na minha corrente, a energia mãe é a do fogo e da justiça. O fogo que tudo transforma, forte suficiente para destruir e reconstruir. Na gastronomia, a questão da qualidade do alimento. Um dos meus maiores prazeres é quando estou em turnê com a orquestra e vejo todos juntos à mesa”, conta Lucas demonstrando a empolgação de quem cultiva os momentos de comunhão.







ERIKA MUNIZ, estudante de Jornalismo e colaboradora da revista Continente que acredita, cada vez mais, na transformação pela força da música e da dança.

ASHLLEY MELO, fotojornalista e estudante de Jornalismo pela Unicap.

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